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quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Cicatrizes

Áreas queimadas no Acre estão 17% superiores às registradas em 2019  




O total de áreas de vegetação atingidas pelo fogo entre os meses de julho e agosto de 2020 é o maior já registrado dos últimos três anos no Acre. De acordo com o  Laboratório de Geoprocessamento Aplicado ao Meio Ambiente (LabGama), da Universidade Federal do Acre (Ufac), foram identificados 64.367 hectares de cicatrizes de queimadas em todo o território do estado neste período. O número está 17% acima do registrado em igual intervalo de 2019, e 126% ao de 2018. 

Cicatrizes de queimadas são as áreas tomadas pelo fogo e que deixam como vestígio todo material orgânico carbonizado, sendo captadas pelos satélites da Nasa. Agosto foi o mês mais crítico deste triênio em áreas devastadas pelos fogo no Acre, com mais de 50 mil hectares de vegetação transformados em cinzas. O dado se alinha com o registro recorde de focos de queimadas detectados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), quando o Acre ficou na terceira posição entre os nove estados da Amazônia Legal. 

O estado registrou, entre 1 e 31 de agosto, 3.578 focos de queimada. Já Mato Grosso, que tradicionalmente ocupa as manchetes ao lado do Pará, como um dos estados que lideram as estatísticas de desmatamento e incêndios, teve detectado 3.336 focos. O vizinho Rondônia ficou com 3.086 focos.  No acumulado de 2020 o Acre tem 5.953 focos captados pelos satélites do Inpe - 17% a mais do que 2019. 

Os dados do Labgama ainda não constam a área queimada de setembro. Apesar de muitas previsões nada otimistas para o clima - como a ocorrência de uma seca severa -, em alguns pontos do estado têm caído chuva, o que contribui para reduzir o impacto do fogo. 

Segundo o estudo da Ufac, as categorias fundiárias que mais registraram áreas queimadas em 2020 são as terras públicas e os projetos de assentamento. Cada uma delas teve uma média de vinte mil hectares afetados pelo fogo. Chama a atenção o fato de terras públicas ocuparem o topo do ranking, o que demonstra o avanço do desmatamento nestas áreas para fins de grilagem. 

A invasão de terras de propriedade da União ou do estado passou a ser o problema ambiental mais grave enfrentado pelo Acre de 2019 para cá. Além de aumento recorde de queimadas, o estado agora figura com níveis recordes de desmatamento. Ano passado atingiu a maior marca da última década: 700 quilômetros quadrados. 

Entre 1 de janeiro e 31 de agosto deste ano, o Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Inpe, já emitiu 3.316 alertas para o território acreano, somando uma área de 331 quilômetros quadrados de desmatamento.    

Entre as unidades de conservação mais impactadas pela ação humana a Reserva Extrativista Chico Mendes lidera tanto no quesito derrubadas quanto queimadas. O Deter captou 34 quilômetros quadrados de desmatamento dentro da reserva em 2020, enquanto as cicatrizes de queimadas já somam 2.431 hectares. De janeiro até a segunda quinzena de setembro a UC apresenta focos de queimadas.      


sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Projeto concretizado

 Áreas protegidas alvos da bancada da motosserra estão no topo do ranking do fogo no Acre 



A Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes e o Parque Nacional da Serra do Divisor estão entre as unidades de conservação federais no Acre com maiores registros de queimadas no acumulado de 2020. É o que aponta o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Estas são, justamente, as duas áreas de proteção visadas pela bancada da motosserra liderada pela deputada federal Mara Rocha (PSDB) e o senador Márcio Bittar (MDB). 

Por meio do Projeto de Lei 6024, a bancada quer reduzir o tamanho da Resex Chico Mendes para beneficiar um pequeno grupo de moradores formado pelos maiores desmatadores, e reduzir a categoria da Serra do Divisor de parque para área de proteção ambiental (APA). 

Conforme o blog mostrou no primeiro semestre, a simples apresentação do projeto poderia acarretar em impactos imensuráveis para estas duas UC’s, em especial para a Serra do Divisor, onde está concentrada uma das mais ricas regiões de floresta e biodiversidade da Amazônia. Os dados do Inpe agora atestam a problemática, com o parque ocupando a terceira posição no ranking do fogo no Acre até o dia dez de setembro, com 70 focos detectados. 

A unidade, localizada no Vale do Juruá, registrava entre 1 de janeiro e ontem 70 focos de queimadas, ficando atrás apenas da Resex do Alto Juruá e da Resex Chico Mendes, que já há muito tempo ocupa a primeira posição nas análises de fogo e desmatamento. No acumulado de 2020 a Resex Chico Mendes tem 240 focos captados pelos satélites de monitoramento.  

Apesar de os números serem alarmantes, o que chama a atenção e preocupa é o crescimento do impacto da ação humana nas duas mais importantes áreas protegidas do Vale do Juruá: o Parque Nacional da Serra do Divisor e a Resex Alto Juruá, que são vizinhas. Juntas, elas concentram 155 focos, ou 27,4% do total das queimadas observadas nas unidades de conservação federais do Acre. 

Os dados atestam a mudança dos impactos causados na devastação da Amazônia acreana de 2019 para cá, mostrando que nem mesmo áreas protegidas por lei passam incólumes por este processo. A “migração da destruição” é preocupante por ir para a região que mais concentra floresta em pé no Acre, e possuir uma das mais ricas biodiversidade do planeta. 

Outra ameaça para a região do Juruá e que aos poucos vai se concretizando em ações práticas é o projeto da construção de uma rodovia entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa, no Peru, cujos impactos nos dois lados da fronteira são inestimáveis. Essa semana o vice-governador do Acre, Major Rocha, irmão da deputada Mara Rocha, anunciou que ainda em 2020 o Departamento Nacional de Infraestrutura Terrestre (Dnit) lança o edital de licitação para o projeto da rodovia internacional. O anúncio foi feito após reunião com um dos diretores do Dnit.   


Entenda mais sobre os efeitos do PL 6024, apresentado em novembro do ano passado pela deputada  Mara Rocha na Câmara dos Deputados.  


Vai ser uma destruição insana da natureza, diz secretário-geral da SOS Amazônia ao analisar impactos do PL 6024 no Juruá 

terça-feira, 8 de setembro de 2020

O GT que mais dá trabalho

Atrasado e atrapalhado, governo do Acre tenta lidar com pandemia entre povos indígenas 



Entre indígenas de aldeias e moradores das cidades, Acre tem quase 2 mil casos da Covid-19 (Foto: Divulgação/Governo AC)



O governo do Acre passou os últimos cinco meses de pandemia do novo coronavírus sem dar a mínima atenção para os impactos que ela provocou - e ainda provoca - entre os 16 distintos povos indígenas do estado. Impactos estes não só na saúde, mas também econômicos e de segurança alimentar de comunidades que precisam se isolar nas aldeias para evitar ainda mais mortes e casos da Covid-19. Ao invés de adotar alguma medida, a gestão Gladson Cameli preferiu deixar tudo nos ombros do governo federal. 

Sobre a atuação deste não é necessário fazer comentários. Mas vale lembrar: primeiro foi preciso o Congresso aprovar uma lei obrigando Jair Bolsonaro a colocar em prática medidas eficazes para amenizar dos impactos da pandemia. Com sua caneta, o presidente vetou os artigos mais importantes. O movimento indígena precisou recorrer ao Supremo Tribunal Federal para evitar o completo genocídio. 

O fato de termos 24 mil indígenas acreanos que também sentiam os efeitos da pandemia não sensibilizou os atuais burocratas do governo local. Foi somente após cinco meses e quase 2.000 casos confirmados da Covid-19 entre a nossa população indígena que o governo Cameli decidiu criar, no dia 18 de agosto, um Grupo de Trabalho (GT) para acompanhamento e elaboração de estudos sobre a propagação do vírus nos territórios indígenas. 

Quem atua na área indigenista do estado muito pouco ou nada entendeu sobre o que de fato pretende fazer o GT. Se a proposta é primeiro levantar informações para depois ter alguma atitude, é possível que elas venham a ocorrer quando a vacina já esteja sendo aplicada. Ou seja, o grupo de trabalho teria um trabalho em vão. 

A confusão começa pela sua própria composição, que deixou de fora os dois principais órgãos que atuam diretamente na questão: a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, e a Fundação Nacional do Índio (Funai). A Sesai está na linha de frente por meio de seus dois Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei’s) no Acre: o do Alto Rio Purus e do Alto Rio Juruá. 

Tanto assim que, na semana passada, o Ministério Público Federal (MPF) precisou intervir, recomendando uma reformulação no grupo para que ocorra a inclusão de representantes da Funai e dos Dsei’s. No dia 13 de julho, o MPF já tinha emitido recomendação para que a Secretaria Estadual de Saúde incorporasse os dois órgãos federais no Comitê de Acompanhamento Especial da Covid-19, algo que não aconteceu até agora, conforme destaca o procurador da República Lucas Costa Almeida Dias no parecer que pede mudanças no GT. 

Para ele, a ausência de membros da Funai e dos distritos especiais “compromete a implementação de qualquer plano governamental efetivo que respeite o diálogo e a interlocução como lugar-comum para a solução de problemas”. “A interlocução com tais órgãos mostra-se como medida imprescindível para a correta implementação de ações imediatas e urgentes, notadamente diante da expertise de seus servidores (que atuam na linha de frente) e diante da diversidade de povos indígenas existentes no Acre”, ressalta ele. 

O procurador ainda aponta a pouca quantidade de indígenas em número e de diversidade de povos no grupo criado por Cameli. Ao todo o GT conta com 14 membros do governo e três lideranças indígenas. Todos os trabalhos estarão centralizados em Rio Branco, quando os maiores impactos da Covid-19 acontece nas comunidades das bacias do Purus e do Juruá.  

As trapalhadas do governo Gladson Cameli no trato da questão indígena não são novidades. Tanto a pauta dos povos tradicionais do estado quanto as questões ambientais foram colocadas em terceiro plano diante da agenda voltada para o setor rural e do agronegócio, bandeiras políticas do atual governador. 

Um de seus primeiros atos ao assumir o cargo em 2019 foi extinguir a Assessoria Especial dos Povos Indígenas, ligada à Casa Civil, e que era a única representação destas comunidades no governo estadual. Após críticas, a assessoria foi recriada, mas colocada bem longe do gabinete do governador, na Secretaria de Assistência Social. 

E dessa forma os povos indígenas do Acre vão resistindo aos desprezos do governo Gladson Cameli e às ofensivas do governo Jair Bolsonaro aos seus direitos de sobrevivência e de posse de seus territórios tradicionais - além da pandemia do coronavírus.   

sábado, 5 de setembro de 2020

Análise - Dia da Amazônia

 Acre: do governo da floresta ao governo sem floresta 


Com 87% de floresta intacta, Acre passa de mocinho para vilão na proteção da Amazônia



Na semana que celebramos o Dia da Amazônia, neste cinco de setembro, o Acre recebeu uma das piores notícias quanto à preservação de sua maior e insubstituível riqueza natural: em agosto ocupamos a deplorável terceira posição no ranking das queimadas entre os nove estados que formam a Amazônia Legal. Deixamos comendo fuligem Mato Grosso e Rondônia, que por muito tempo ocupam as manchetes sobre a devastação do bioma dentro de seus territórios. 

Em julho já tínhamos batido outro recorde: também superamos Mato Grosso no quesito desmatamento. Usando aquele velho bordão político, nunca antes na história deste estado sua cobertura florestal na casa dos 87% esteve tão ameaçada como agora. O momento político vivido pelo Acre e pelo Brasil é o grande responsável por essa devastação num estado que por muito tempo nem merecia nota de rodapé quando se falava em incêndios ou desmatamento na Amazônia. 

Saímos de um período consagrado como “governo da floresta” - ou também a florestania - durante os 20 anos de gestões petistas para uma época que agora podemos chamar de o governo sem floresta”. Tinha minhas críticas aos governos do PT no Acre, mas não podemos negar que foi naqueles tempos que o estado detinha uma certa vanguarda nas políticas de proteção da floresta, servindo até de exemplo para outros estados da região. De repente, da noite para o dia, tudo mudou e hoje não somos o melhor dos exemplos.   

Culpar apenas Jair Bolsonaro por este avanço da devastação da Floresta Amazônica já virou clichê e motivo para se ganhar curtidas nas redes sociais. Sabemos que o presidente do Brasil atua no sentido inverso de assegurar a proteção do meio ambiente, não só aqui da Amazônia. Se é capaz de boicotar as medidas sanitárias para se evitar o contágio por coronavírus que já matou mais de 120 mil brasileiros, o que dirá a proteção da floresta. 

Tão ou quão responsável por essa omissão criminosa de proteção da Amazônia estão os governadores da região. Afinal, são suas decisões e falas que influenciam diretamente o comportamento da população local, de quem eles estão mais próximos, diferente de um presidente que prefere ficar no Palácio da Alvorada falando porcarias para seus fiéis. 

Assim é no pequeno estado do Acre, onde é possível se esbarrar com o governador em qualquer esquina. 


E, sim, as falas e práticas (e até a ausência de ambas) do atual mandatário do Palácio Rio Branco são os grandes responsáveis pelo atual cenário de destruição da Amazônia aqui nestas bordas. Situação que se agrava com as mesmas atitudes vindas de Brasília. Tanto Gladson Cameli quanto Jair Bolsonaro acionaram o gatilho para a destruição do bioma. A eleição de parlamentares com visões retrógradas (a maioria) também contribui para o cenário devastador.  

 

Aqueles que por muitos anos estavam contidos por fiscalizações e punições que ainda existiam saíram do armário com as eleições, em 2018, de Cameli e Bolsonaro. O resultado disso é uma devastação jamais vista no Acre em tempos recentes, chegando até aos locais mais remotos e de difícil acesso. É assustador ver municípios como Jordão e Marechal Thaumaturgo no topo do ranking do fogo no mês passado.   

A prova disso estão nos dados do Inpe. Em 2019, primeiro ano de Gladson Cameli, o desmatamento da Amazônia no Acre bateu todos os recordes dos últimos 11 anos: 700 km2. Perdemos não apenas floresta (vida), mas também investimentos internacionais por meio do programa de compensação por redução do desmatamento. 

De uma certa forma, desde sua campanha para governador, Gladson Cameli já dava sinais de que ia colocar em prática aquilo que hoje chamamos de “passar a boiada” - trágica frase proferida pelo ministro da destruição do Meio Ambiente, cujo nome - para nossa paz de espírito - é melhor nem ser aqui citado. 

Se eleito, falava Cameli, ia flexibilizar as normas ambientais para facilitar a vida de quem queria produzir, incluindo fragilizar as fiscalizações ambientais por meio do Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac). “Tirar o Imac do pescoço do produtor”, era o que ouvíamos nos debates e programas eleitorais. 

Seu mote era fazer do agronegócio o grande carro-chefe da economia acreana, em detrimento de uma política de valorização dos recursos florestais.  Quando assumiu a cadeira de governador, vivia mais em Rondônia do que aqui em busca de se inspirar no modelo de desenvolvimento do estado vizinho. 

Modelo este cujos efeitos sociais e ambientais conhecemos bem. Como governador fez aquilo que poucos políticos costumam fazer; cumprir suas promessas para atender ao setor rural. A primeira atitude foi deixar de pagar o subsídio dos produtores de borracha, alegando revisão dos contratos deixados pela gestão anterior. 

Somente em agosto último, após 20 meses de calote, o governo decidiu repassar o dinheiro para as pequenas famílias extrativistas que tanto dependiam do subsídio para melhorar sua renda. Outra medida foi extinguir o Instituto de Mudanças Climáticas (IMC), vista como herança petista. O problema é que esta herança é responsável por gerenciar 25 milhões de euros enviados pela Alemanha e Reino Unido para o Acre conter o desmatamento, investindo justamente em acesso a tecnologias aos pequenos produtores rurais. Vendo a trapalhada que cometera, recriou o órgão.  

Depois veio a trágica fala de num palanque em Sena Madureira desmoralizando a atuação do Imac, dizendo que ninguém mais precisava pagar as multas aplicadas “porque agora quem está mandando sou eu”.  

A consequência de tudo isso vivemos hoje: desmatamento e queimadas recordes. Queimadas que expelem para o ar uma fumaça tóxica que somos obrigados a respirar quase todos os dias neste período de estiagem severa. Diante de tantas lambanças, não houve outra opção senão decretar emergência ambiental. 

E assim chegamos a mais um cinco de setembro tendo muito mais a lamentar do que comemorar. Vale deixar o alerta para toda a sociedade acreana: proteger a floresta não é coisa de petista, de comunista; é garantir a sobrevivência desta e das futuras gerações. Proteger a Amazônia é proteger a vida em todas as suas formas, inclusive a nossa.     


sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Fogo na floresta

Acre registra primeiros focos de incêndios florestais em Xapuri e em Rio Branco 



@fabiospontes


O mês de setembro nem bem começou e o Acre já tem registrado os dois primeiros focos de incêndios florestais em 2020; ou seja, aqueles que ocorrem dentro da floresta em pé. Se até aqui o fogo estava restrito a queimadas em áreas de agricultura e pecuária - além para limpeza de desmatamentos recentes - aos poucos os satélites vão registrando sua presença no interior da floresta, cujos danos ambientais são irreparáveis. 

Segundo dados do  Laboratório de Geoprocessamento Aplicado ao Meio Ambiente (LabGama), da Universidade Federal do re (Ufac), um dos focos de incêndio florestal foram detectados no município de Xapuri, mas fora da Reserva Extrativista Chico Mendes; segundo o monitoramento, a área da unidade de conservação com registro de incêndio florestal fica em seus limites no território de Rio Branco. 

A situação é preocupante após o Acre bater recorde no registro de queimadas em agosto, ocupando a terceira posição entre os estados da Amazônia Legal. Com as condições climatológicas favoráveis à propagação do fogo dentro da floresta em pé ainda se mantendo ao longo de setembro, a tendência é a ocorrência de incêndios florestais aumentar. 

Se agosto já foi um mês crítico, pesquisadores também se preocupam com setembro, tradicionalmente o mês do fogo no estado, em especial na região Leste. Desde 2019 o Acre também acumula aumentos recordes dos níveis de desmatamento - se mantendo este ano - o que cria muito material combustível para queimar nestes meses de “verão amazônico” que, conforme a Nasa, tende a ser mais severo e prolongado. 

Em maio, a agência espacial dos Estados Unidos divulgou estudo apontando que, entre os estados da Amazônia brasileira, o Acre é o que tem a maior probabilidade de ser atingido por incêndios florestais: 85%. O principal motivo para isso é o aquecimento das águas do Oceano Atlântico, que tem como efeito a redução da umidade na parte mais sul da Amazônia e uma concentração maior ao norte. O fenômeno é conhecido pela sigla em inglês AMO, cuja tradução é Oscilação Multidecadal do Atlântico. 

Este foi o mesmo fenômeno que levou o Acre a ter queimada uma área de 350 mil hectares de floresta no ano de 2005, sendo a Resex Chico Mendes a mais afetada A anomalia se repetiu em 2010, também causando grandes prejuízos ambientais. 

O baixo volume de chuvas típico desta época do ano fica ainda mais reduzido com o AMO, cujo outro efeito é retardar o início do período chuvoso que se inicia em outubro, o chamado inverno amazônico. O reduzido volume de pluviosidade (que consequentemente provoca a queda na umidade do ar) e as altas temperaturas criam o que cientistas definem como “estresse hídrico”. 

“Quando falamos em estresse hídrico nós estamos, em tese, falando direta ou indiretamente da redução de umidade no solo que vai causar um prejuízo para o bom funcionamento das plantas, das árvores. Ou seja, teremos um estresse por falta de água”, explica o professor William Flores,  professor da Ufac e doutor em Ciências das Florestas Tropicais pelo Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa).  

Diante das projeções científicas sérias e do já conhecimento tradicional de setembro ser marcado por bastante fogo, as ações de repressão às queimadas se mostram ainda mais necessárias para se evitar a repetição da tragédia de 15 anos atrás. 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

O recorde do fogo

Acre foi o terceiro estado que mais queimou na Amazônia em agosto 


Estado superou, em registro de queimadas, Mato Grosso e Rondônia; em julho desmatamento também já tinha superado MT; focos de calor em 2020 estão 18% acima e governo decreta emergência ambiental


Uma entre as mais de 3.000 queimadas registradas no Acre apenas em agosto (Foto: Fabio Pontes)


@fabiospontes

O Acre fechou o mês de agosto ocupando a terceira posição entre os estados que mais registraram focos de queimada, superando os tradicionais recordistas Mato Grosso e Rondônia em termos de impactos causados à Floresta Amazônica. No ranking do fogo do mês passado, o Acre só ficou atrás do Pará e do Amazonas, cujas áreas territoriais são até quatro vezes superior. 

Segundo os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o estado registrou, entre 1 e 31 de agosto, 3.578 focos de queimada. Já Mato Grosso, que tradicionalmente ocupa as manchetes ao lado do Pará, como um dos estados que lideram as estatísticas de desmatamento e incêndios, teve detectado 3.336 focos. O vizinho Rondônia teve 3.086 focos. 

Após apresentar um certo controle e até redução no registro de queimadas em 2020 - quando comparado com o ano passado - o Acre parece ter sofrido um boom de incêndios nos últimos dias de agosto. Entre 1 de janeiro e o dia 28 de agosto, por exemplo, o estado tinha uma redução de 12% na quantidade de focos detectados pelo monitoramento do Inpe quando se fazia um comparativo com o mesmo intervalo de 2019. 

Já no acumulado dos oito meses deste ano - diante de igual período do ano passado - há um acréscimo de 18%: 4.044 contra 3.426. Quase 90% desta detecção de queimadas ocorreu em agosto, mês marcado na região pelo uso indiscriminado do fogo para a limpeza ou abertura de roçados e pastagens, além do emprego para limpar áreas recentemente desmatada.   

Diante da aparente perda de controle das ações para conter o fogo, o governo decidiu decretar nesta terça, 1, situação de emergência ambiental. A medida também se fez necessária diante do atual nível crítico dos rios, com destaque para o Acre, responsável pelo abastecimento de água de 70% da população. 

Em maio, a agência espacial dos Estados Unidos, a Nasa, divulgou estudo apontando que, entre os estados da Amazônia brasileira, o Acre pode ser um dos mais impactados por uma estiagem mais rígida.  O principal motivo para isso, segundo a Nasa, é o aquecimento das águas do Oceano Atlântico, que tem como principal efeito a redução da umidade na parte mais sul da Amazônia. 

Essas condições ambientais mais a elevada área de floresta que foi desmatada tornam o Acre o mais propício a sofrer com os grandes incêndios florestais, assim como em 2005. Segundo projeções da Nasa, a chance de isso se repetir é de 85%. 

Em julho o Acre já tinha superado o Mato Grosso também quanto à detecção do desmatamento pela análise do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). De acordo com o monitoramento SAD, o Acre desmatou 140 km2 de floresta em julho, enquanto Mato Grosso perdeu 98 km2. Entre agosto de 2019 e julho passado o estado teve um desmatamento acumulado de 476 km2 - alta de 28% ante o período anterior. 


O fogo no interior 

Conforme o blog já tinha antecipado em 24 de agosto, o interior do Acre era a região do estado que mais apresentava focos de queimada, tendência que se manteve até o dia 31. Os municípios do Vale do Tarauacá/Envira, Purus e Juruá estão entre os recordistas de fogo. Dos 10 municípios que mais queimaram, apenas Rio Branco não está nestas regiões. 

O topo do ranking dos incêndios é ocupado por Feijó (1.067 F), Tarauacá (684), Manoel Urbano (275) e Sena Madureira (240). Logo após aparece Cruzeiro do Sul, município do Vale do Juruá que até alguns anos atrás estava bem na traseira dos dados do fogo no Acre. No último dia 24 estava na terceira colocação. 

O município registrou no mês passado 231 pontos de calor dentro de seu território; 68 a mais do que Rio Branco, conhecido por ter altas taxas de incêndios por seu entorno já ter perdido boa parte da vegetação nativa, sendo ocupada por áreas de pecuária e agricultura.  Cruzeiro do Sul, por sua vez, ainda possui uma região rural com muita floresta nativa. 

Abaixo da capital (no ranking do fogo) surgem três dos quatro municípios isolados: Jordão, Marechal Thaumaturgo e Porto Walter. Essa interiorização do fogo para as áreas mais bem preservadas e remotas do estado chama a atenção para dois fatores; 1) o avanço do desmatamento para uma região ainda bastante intacta da Amazônia e 2) o risco deste fogo se transformar em grandes incêndios florestais pelas atuais condições climatológicas. 

Essa interiorização da destruição não fica apenas às margens de rodovias ou ramais; as margens de rios e igarapés nestes municípios também passam a concentrar grandes áreas queimadas. Com a previsão de um ano mais quente e seco no Acre, a concentração do fogo próximo a área de florestas em pé preocupa.

Após agosto já ter sido marcado por temperaturas perto da casa dos 40 graus, baixíssima precipitação pluviométrica e umidade relativa do ar na casa dos 30%, a tendência é de setembro também apresentar as mesmas condições ambientais. Com isso, um pequeno fogo feito num roçado pode adentrar na floresta em pé, cujas consequências seriam inestimáveis. 

domingo, 30 de agosto de 2020

A fumaça e o vírus

Fumaça das queimadas aumenta risco de doenças respiratórias no Acre 


Nos dias mais críticos de incêndios, ar respirado pelos moradores da capital Rio Branco apresentava níveis de contaminação até 10 vezes superior recomendado pela OMS; falta de chuvas também ameaça abastecimento de água para 70% da população  


Bombeiro combate fogo em área de vegetação numa manhã de Rio Branco; já são mais de 3 mil ocorrências do tipo (Foto: Sérgio Vale/Amazônia Real)



@fabiospontes

Na noite do dia 16 de agosto, a taxa de poluição no ar respirado pela população em Rio Branco, capital do Acre, foi de 160.3 ug/m3 (microgramma por metro cúbico). O recomendado à saúde humana pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é de 25 ug/m3; ou seja, os rio-branquenses inalaram um ar seis vezes mais poluído. Dez dias depois, na madrugada de quinta-feira, 27, o sensor que mede a qualidade do ar instalado na região central de Rio Branco registrou uma máxima concentração de material particulado PM2.5 (material particulado fino ou, em inglês, particulate matter) de 386,11 ug/m3. 

A causa para um ar tão contaminado é a fumaça das queimadas que tem entre os seus componentes o monóxido de carbono e o dióxido de nitrogênio, além de micropartículas conhecidas como PM2.5. Estudos apontam que uma exposição prolongada a estes componentes pode levar ao desenvolvimento de doenças cardíacas por também entrarem na corrente sanguínea.

A “temporada de queimadas” começou no mês de julho e acontece em áreas de pecuária e agricultura após os desmatamentos, inclusive em áreas de floresta nativa. Em 2020 os efeitos da poluição da fumaça ficaram mais críticos diante da pandemia do novo coronavírus, decretada em 11 de março pelo OMS. Os sintomas da Covid-19 são semelhantes ao de problemas de saúde causados pela exposição a um ar poluído. Dessa forma, todos os casos de problemas respiratórios - seja por conta da infecção pelo Sars-CoV 2 ou por inalar fumaça -  vão para as estatísticas oficiais como SRAG: Síndrome Respiratória Aguda Grave.

A jornalista Angélica Paiva é o exemplo de como a saúde humana pode ser afetada pela fumaça das queimadas em tempos de coronavírus. No começo de agosto ela foi diagnosticada com Covid. Apresentou sintomas leves e fez o tratamento em casa. O principal problema, lembra ela, era ter que conviver com o vírus, mais as consequências de um ar tomado pela fumaça das queimadas.

 “Houve um dia em que o cheiro de fumaça estava tão forte que fiquei sem ar, e precisei fazer nebulização. Eu tive a sorte de a Covid não afetar os meus pulmões, mas o estrago que ela não fez, as queimadas completaram”, define Angélica Paiva.

Essa maior presença de material poluente no ar está relacionada diretamente com o aumento no registro das queimadas urbanas e rurais. Quanto mais vegetação é incendiada, mais partículas são emitidas e inaladas pela população, afetando, sobretudo, o sistema respiratório.

“Quando acontece a queimada ela vai emitir material particulado no ar. Essas partículas, dependendo do tamanho, causam problemas que vão desde algo simples como uma tosse, uma irritação no nariz ou nos olhos, até se desenvolver uma infecção pulmonar, a depender do tempo de exposição a esse ar poluído”, explica William Flores, professor da Universidade Federal do Acre (Ufac) e doutor em Ciências das Florestas Tropicais pelo Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Flores lidera a equipe do Laboratório de Geoprocessamento Aplicado ao Meio Ambiente (LabGama), responsável pela produção e análise de dados sobre a qualidade do ar no Acre. De acordo com ele, a maior presença de material particulado no ar agrava o quadro de saúde de pessoas infectadas pelo coronavírus, cujos efeitos principais é o ataque ao sistema respiratório. Pessoas portadoras de doenças respiratórias crônicas como a asma integram o chamado grupo de risco da Covid-19, e também são prejudicadas pela fumaça. 

 “Há estudos publicados nos Estados Unidos mostrando que em regiões onde o nível de poluição do ar é muito elevado você aumenta significativamente a probabilidade de morte por Covid”, comenta Flores.  

“Historicamente a Amazônia não é vista como uma região com ar poluído como são os grandes centros urbanos do país. Mas aqui temos esta atipicidade entre agosto, setembro e outubro que é o uso do fogo como uma tecnologia para a conversão de biomassa florestal para fins de adubação do solo”, diz. Porém, como o pesquisador ressalta, essa queima da biomassa também tem como efeito a liberação de gases poluentes que é absorvido pelo sistema respiratório. 

De acordo com o boletim epidemiológico desta sexta-feira (28) da Secretaria de Saúde do Acre (Sesacre), o estado tem registrado, desde o dia 17 de março, 24.462 pessoas foram infectadas pelo coronavírus, com 608 mortes.   

Ainda de acordo com dados da Sesacre, 1.316 pessoas foram hospitalizadas em Rio Branco, capital do Acre, durante este ano por SRAG. O pico das internações aconteceu em maio, quando a capital do estado estava em curva crescente nos casos da Covid-19, e as queimadas ainda eram uma realidade distante do cotidiano dos acreanos, como passou a ser desde meados de julho. 

Em junho e julho a quantidade de pessoas hospitalizadas por SRAG foi reduzido após o pico de maio. Foi exatamente neste período que o Acre começou a apresentar redução nos casos de infectados pelo coronavírus. Os dados da secretaria apontam uma expressiva diminuição de SRAG em agosto, quando o estado atingiu o maior nível na redução de contaminados e mortos por Covid-19, mas está no pico do registro de queimadas. 

De 274 pessoas internadas em julho, o número caiu para 71 até o dia 18 de agosto. Enquanto a Covid-19 parecia estar sob controle, o ar nas cidades ia ficando sem condições de respirar pela fumaça das queimadas que não paravam de aumentar nos meses mais secos e quentes.

Estimativa de estudo publicado pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), aponta que, em 2019, 2.195 pessoas moradoras dos estados que formam o bioma Amazônia foram hospitalizadas por problemas respiratórios causados pela fumaça oriunda do desmatamento. A maioria dos pacientes (1.080) era composta por pessoas acima de 60 anos, que também integram o grupo de risco da Covid-19.

Dos 3.325 focos de calor registrados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) no acumulado deste ano, 2.098 ocorreram entre 1 e 28 de agosto. Este pico se justifica por agosto ser o mês que apresenta as condições ideais para o uso do fogo: longos dias sucessivos sem chuva, baixa umidade e temperatura elevada. E é também em agosto que o ar respirado pelos acreanos está em suas piores condições. A situação é ainda mais preocupante por os 30 dias de setembro também apresentarem as mesmas caraterísticas. 

Em relação a 1o. de janeiro a 28 de agosto de 2009, quando o Inpe registrou 3.009 focos de calor no Acre, em 2020 o aumento de queimadas é de 10,5% em relação ao mesmo período do ano passado. 

As queimadas típicas desta época do ano na Amazônia - seja para fins de limpeza de roçados e pastagens ou para a queima de floresta recém-desmatada - representam a principal contribuição do Brasil para a emissão de gases do efeito estufa. Além de causar impactos diretos para o meio ambiente e a saúde da população local, estes incêndios causam desequilíbrio no clima de todo o planeta. 


Leia a reportagem completa na agência Amazônia Real  

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Os ventos da fumaça

Passagem de frente fria pode agravar situação da seca e das queimadas no Acre em 2020 


Rio Branco, a capital do Acre, tomada pela fumaça das queimadas (Foto: Sérgio Vale/2020)


@fabiospontes 


A passagem da forte massa de ar polar que derrubou as temperaturas no Acre no fim da semana passada trouxe um certo alívio para a população quanto ao desconforto causado pelo intenso calor, além de ter limpado o ar da fumaça das queimadas. Contudo, por ter sido uma frente fria bastante seca - trazendo pouquíssimo nível de chuvas - ela pode agravar a situação de um “verão amazônico” com previsão de ser um dos mais intensos e secos dos últimos anos. 

Em maio, a agência espacial americana, a Nasa, divulgou estudo apontando que, entre os estados da Amazônia brasileira, o Acre é o que tem a maior probabilidade de ser atingido por incêndios florestais: 85%. O principal motivo para isso, segundo a Nasa, é o aquecimento das águas do Oceano Atlântico, que tem como principal efeito a redução da umidade na parte mais sul da Amazônia e uma concentração maior ao norte.

O fenômeno é conhecido pela sigla em inglês AMO, cuja tradução para o português é Oscilação Multidecadal do Atlântico. Este foi o mesmo fenômeno que levou o Acre a sofrer uma seca severa no ano de 2005, que provocou a queima de 350 mil hectares de floresta em pé. 

Antes da passagem da frente fria, o clima no Acre já estava muito seco por conta do baixo volume de chuvas registrado desde meados de julho. Os fortes ventos gelados que sopraram no estado durante os últimos dias contribuiu ainda mais para se reduzir a umidade relativa do ar, deixando o ambiente bastante seco. Essa baixa umidade é o que os cientistas chamam de estresse hídrico, que cria a “tempestade perfeita” para que queimadas feitas em roçados ou pastagens adentrem na floresta fechada. 

“Toda vez que a gente tem uma friagem, a tendência é que ocorra uma diminuição da umidade. E essa que passou não tivemos grandes chuvas. Há a perspectiva que tenhamos um quadro de piora dos incêndios, na medida em que a umidade vai baixar””, explica o professor e pesquisador da Universidade Federal do Acre (Ufac) William Flores, doutor em Ciências das Florestas Tropicais.  

“Quando falamos em estresse hídrico nós estamos, em tese, falando direta ou indiretamente da redução de umidade no solo que vai causar um prejuízo para o bom funcionamento das plantas, das árvores. Ou seja, teremos um estresse por falta de água.” 

“Uma árvore funciona como se fosse uma bomba d’água. Como todo e qualquer ser vivo, ela usa muita água. Quando você tem muita disponibilidade de água essa bomba funciona de forma positiva. Mas quando temos uma situação de baixa pluviosidade, que é o caso agora, a planta via contribuir para a redução da umidade do solo, ela vai absorver mais água, fazendo com que tenhamos uma condição de seca do solo. Com o soco selo ela vai buscar água no seu entorno, que são os galhos e as folhas ainda úmidas caídas no chão”, completa ele. 

Ao ter sua água puxada pelas árvores, toda vegetação vai secar, transformando-se em material combustível, propenso a pegar fogo. Se antes aquelas folhas e galhos úmidos serviam como barreira para a entrada do fogo feto num roçado próximo, por exemplo, agora há muito mais chances daquela queimada se transformar num incêndio florestal. 

Foram essas as condições ambientais que levaram o Acre a sofrer com grandes incêndios no interior da floresta em 2005 e 2010. Este ano o estado tem conseguido reduzir sua quantidade de focos de queimadas, quando comparado com igual período de 2019, ano em que as queimadas ficaram quase fora de controle. Segundo dados do Inpe, o Acre diminuiu em 20% a quantidade de queimadas detectadas por seus satélites. 

Saber se essa redução vai se manter até o fim da temporada seca que tende a ser mais longa não se sabe. Ainda há o mês inteiro de setembro pela frente, marcado por altas temperaturas e baixa umidade, também marcado por um número elevado de queimadas.  

Mais queimadas representam mais fumaça sendo expelida para o ar respirado pelos acreanos.    


segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O interior do Acre está queimando

Municípios com floresta preservadas lideram ranking de queimadas no Acre 



Os dados do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostram um dado preocupante: o interior do Acre - onde está concentrada a maior área de floresta em pé - está pegando fogo, e muito fogo. No acumulado do ano, o Acre registra 2.120 focos de queimadas. Destes, mais de 80% são detectados em municípios que, até anos atrás, passavam longe das estatísticas de destruição da Amazônia no estado. 

É o caso do isolado Jordão, município cujo acesso só é possível via aérea ou fluvial. Essa dificuldade logística não detém o avanço do desmatamento e do fogo. Até essa segunda, 24, Jordão tinha registrado a mesma quantidade de focos de queimadas do que a capital Rio Branco, cujo entorno já está bastante devastado e tomado por fazendas: 88. 

Logo abaixo de Rio Branco está Marechal Thaumaturgo, outro município isolado cuja área é formada por terras indígenas e unidades de conservação. O município tem 75 focos de calor; são 30 a mais do que Xapuri, localizado em uma área já bastante devastada e pressionada pelo agronegócio. 

Juntos, os municípios dos Vale do Juruá, Purus e Tarauacá/Envira respondem por mais de 80% dos incêndios em vegetação capturados pelos satélites do Inpe em 2020; ressaltando que essas ainda são as regiões mais bem preservadas do Acre, mas que correm sérios riscos de sofrer com a degradação nos próximos anos. 

O campeão de queimadas este ano continua sendo Feijó, após já ocupar as primeiras posições em 2019, o ano do fogo no Acre. São 515 focos já registrados, o que representa 24% do total. 

Logo depois vem a vizinha Tarauacá: 439. Chama a atenção a terceira posição ser ocupada por Cruzeiro do Sul: 160. A capital do Juruá é outra região de floresta muito intacta, e os dados do Inpe acendem o alerta sobre o nível de destruição que avança sobre o município.  

Essa interiorização da destruição não fica apenas às margens de rodovias ou ramais; as margens de rios e igarapés nestes municípios também passam a concentrar grandes áreas queimadas. Com a previsão de um ano mais quente e seco no Acre, a concentração do fogo próximo a área de florestas em pé preocupa diante da possibilidade de ocorrer incêndios florestais, conforme relatei em reportagem para a Amazônia Real: 


Leia:  Florestas do Acre podem ser mais afetadas por incêndios, diz Nasa 


sexta-feira, 21 de agosto de 2020

A violência e o terror se espalham

Facções criminosas ameaçam integridade dos povos indígenas do Acre 


Essa semana, dois jovens Huni Kuin de Feijó foram executados de forma bárbara por integrantes da facção que domina a região do Tarauacá/Envira 


Porto do rio Envira, em Feijó, local de intenso movimento de indígenas no caminho entre cidade e aldeias (Foto: Fabio Pontes/2020)


@fabiospontes 

Além da invasão de seus territórios para retirada de madeira, pesca e caça ilegais, a pressão do desmatamento no entorno para expansão da pastagem e grilagem, as comunidades indígenas do Acre passaram a se ver ameaçadas por outro grave problema: o assédio das facções criminosas. A morte cruel de dois jovens Huni Kuin menores de idade essa semana no município de Feijó é o exemplo da infiltração destas organizações do crime entre uma parcela da população indígena acreana. 

Desde 2016, o Acre enfrenta uma crise de segurança pública por conta da atuação das facções oriundas de São Paulo e do Rio de Janeiro pelo controle da rota internacional do tráfico da droga produzida pela Bolívia e o Peru. Por ter uma extensa faixa de fronteira com estes dois países, o Acre se tornou estratégico para a entrada, no Brasil, da cocaína produzida pelos vizinhos. 

Com a quase ausência das forças policiais nesta faixa de fronteira formada por uma densa selva, os traficantes usam os rios e as trilhas na floresta para o transporte da droga. Outra estratégia de escoamento são os ramais (estradas de terra) que vão de um país a outro. Assim, comunidades ribeirinhas, indígenas e assentamentos passaram a ser assediadas pelas organizações criminosas. 

Cooptar jovens indígenas é visto como estratégico por eles dominarem o modo de sobrevivência no meio de uma floresta hostil. Com as habilidades de quem nasceu e foi criado na mata, eles sabem como poucos andar por dias em caminhos longe dos olhos da polícia.  

Dessa forma se tornam “soldados do crime”, podendo integrar uma das duas principais facções atuantes no Acre: o Comando Vermelho e o B13, grupo local aliado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). 

Ao se alistarem neste exército do crime, os jovens indígenas precisam seguir as suas regras de conduta. Desrespeitá-las tem como punição o pagamento com a própria vida - e geralmente uma morte bárbara. É o que pode ter ocorrido com os dois jovens Huni Kuin encontrados mortos na manhã de quinta, 20, às margens do igarapé do Diabinho, entre Feijó e Tarauacá. 

Um deles estava sem a cabeça; o outro com as orelhas cortadas. Os corpos foram encontrados por uma pessoa que passava pelo local e chamou a polícia. De acordo com o comandante da PM de Feijó, tenente Mendonça, as primeiras investigações apontam que os jovens foram mortos por quebra das regras da facção a que pertenciam, o Comando Vermelho. 

Eles foram retirados de suas casas na cidade às nove horas de terça-feira, 18, e achados mortos dois dias depois. Segundo o comandante, dois suspeitos foram presos por participação na execução, entre eles um menor; outros dois estão foragidos, incluindo também um menor de 16 anos. 

Em dezembro, o Comando Vermelho tomou de assalto o município de Tarauacá após, dias antes, ter conquistado 100% o território de Cruzeiro do Sul, a segunda maior cidade do Acre. Tarauacá e Feijó são cidades vizinhas, separadas menos de 50 km pela BR-364. Antes dessa invasão a região era controlada pelo B13/PCC. Ter seu domínio é estratégico para o tráfico de cocaína peruana, por os seus rios nasceram no país vizinho.  

É nesta região dos Vales do Juruá e Tarauacá/Envira que se concentram 90% das terras indígenas do Acre e, consequentemente, da população indígena. Por suas aldeias passam os rios mais estratégicos para o tráfico de drogas, deixando-os expostos a atuação destas organizações do crime. 

Em março do ano passado a agência Amazônia Real publicou reportagem mostrando as ameaças a que comunidades indígenas do Acre estavam expostas diante do avanço das facções pela zona rural, após deixar um banho de sangue pelas periferias das cidades acreanas. A reportagem citava a Terra Indígena Katukina/Kaxinawá - de onde eram os jovens executados  - como uma das mais expostas. 

A situação é grave e mostra a necessidade de proteger as populações indígenas e seus territórios da influência destes grupos criminosos que tanto mal têm feito ao Acre nos últimos anos, matando cruelmente centenas de jovens e aterrorizando a população. Que esta chaga urbana não se expanda para as comunidades ribeirinhas e indígenas onde ainda há um pouco de paz. O mal precisa ser cortado pela raiz. 


quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Clima para fogo

Florestas do Acre podem ser as mais afetadas por incêndios, diz Nasa 


Margem do rio Gregório, em Tarauacá, queimada em agosto do ano passado (Foto: Sérgio Vale/2019)


O aumento expressivo nas taxas de desmatamento no estado do Acre, as elevadas temperaturas e a previsão de um “verão amazônico” mais seco, fazem dessa porção da Amazônia Ocidental mais vulnerável e a sofrer com incêndios florestais neste ano de 2020. O número de queimadas deste ano na região é 23,5% maior do que o registrado há quatro anos, quando a região estava afetada pelo fenômeno El Niño. De 1º de janeiro a 13 de agosto deste ano, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou 1.497 focos de calor no estado contra 1.212 no mesmo de 2016. No igual período de 2019 foram 1.583 focos de calor, que apontam para uma queda de 5,4% nas queimadas.

A situação de 2020 é ainda preocupante diante dos dados levantados por instituições de pesquisas que apontam elevada concentração de desmate e queimadas nas regiões com a maior concentração de floresta nativa.

Em maio, a agência espacial dos Estados Unidos, a Nasa, divulgou estudo apontando que, entre os estados da Amazônia brasileira, o Acre é o que tem a maior probabilidade de ser atingido por incêndios florestais: 85%. O principal motivo para isso, segundo a Nasa, é o aquecimento das águas do Oceano Atlântico, que tem como principal efeito a redução da umidade na parte mais sul da Amazônia e uma concentração maior ao norte.

O fenômeno é conhecido pela sigla em inglês AMO, cuja tradução para o português é Oscilação Multidecadal do Atlântico. Além do Acre, seus efeitos são sentidos no sul do Amazonas, sudoeste do Pará, Mato Grosso e Rondônia. Os departamentos de Pando, na Bolívia, e Madre de Dios, no Peru, também são atingidos. Entre os três países, o departamento boliviano de Santa Cruz de la Sierra tende a ser o mais afetado por fogo em vegetação: 92%.

“A previsão da temporada de incêndios é consistente com o que vimos em 2005 e 2010, quando as temperaturas quentes da superfície do oceano Atlântico geraram uma série de furacões severos e provocaram secas recordes em todo o sul da Amazônia, que culminaram em incêndios florestais generalizados na Amazônia”, disse Doug Morton, chefe do Laboratório de Ciências Biosféricas do Goddard Space Flight, da Nasa, em entrevista publicada no site da agência norte-americana.

“Do ponto de vista das condições meteorológicas a probabilidade é tanto de termos chuvas abaixo da média ou temperaturas acima da média. Então você tem as condições para as ocorrências de algum tipo de incêndio florestal. Temos um cenário propício para isso”, diz Liana O. Anderson, pesquisadora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

“Existe essa relação do aumento da temperatura do oceano Atlântico que acaba deslocando a zona de convergência, que é o grande processo responsável pelas chuvas na Amazônia, um pouquinho mais para o norte. O deslocamento dessa grande massa de chuva que cruza toda região tropical move um pouquinho para o norte, provocando mais chuvas, e a parte sul da Amazônia enfrenta uma seca”, explica ela.

“Com essas condições de seca mais proeminente e tendendo a se agravar nos próximos meses, os riscos de incêndios florestais aumentam bastante”, completa.

O estudo da Nasa levou em consideração para elaborar o risco de incêndio florestal na Amazônia não apenas as condições climáticas causados pelo AMO, como também o histórico recente de desmatamento e registro de focos de queimada dos últimos anos. Em 2019, a maior floresta tropical do mundo concentrou níveis recordes de derrubada e queimadas, tendência que se mantém agora em 2020.

De acordo com o Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre janeiro e julho foram emitidos avisos de desmate para uma área de 4.730 km2 na Amazônia Legal.  Entre 1o. de janeiro e 13 de agosto foram 40.059 focos de queimadas na região.



domingo, 16 de agosto de 2020

A estratégia genocida

Se a pandemia matasse todos os índios, eles estariam comemorando, afirma líder Ashaninka sobre governo Bolsonaro 


Na avaliação de Francisco Piyãko, discursos e práticas do atual governo brasileiro passam a impressão de que a morte de indígenas pelo coronavírus seria a estratégia para a apropriação dos territórios tradicionais


"Nós somos muito fortes e estamos muito bem preparados para resistir." (Foto: Governo do Acre)



@fabiospontes 

A ineficiência do governo Jair Bolsonaro (sem partido) em conter o avanço do novo coronavírus sobre as comunidades indígenas do país é uma estratégia para causar o maior impacto possível nestas populações e, assim, pôr fim aos seus territórios tradicionais. Essa é a avaliação da liderança Francisco Piyãko, do povo Ashaninka, do Acre. 

“Qualquer doença que vier para matar os povos indígenas eles vão comemorar. Para eles, seria um ganho muito grande se os povos desaparecessem com esta pandemia”, afirma Piyãko. Até agora ele tem liderado um processo bem-sucedido de contenção do coronavírus entre o povo Ashaninka morador das aldeias da Terra Indígena Kampa do Rio Amônea, no município acreano de Marechal Thaumaturgo. 

Entre as ações desenvolvidas por eles está a ajuda aos Ashaninka que moram no outro lado da fronteira, no Peru. Os Ashaninka são descendentes do Império Inca e habitam esta região da Amazônia dividida por fronteiras imaginárias pelo colonizador europeu. 

Segundo Francisco Piyãko, não fossem as medidas adotadas pelas próprias populações indígenas para enfrentar a pandemia - como o autoisolamento dentro das aldeias e o uso de tratamentos tradicionais a partir de plantas da floresta - o impacto da Covid-19 teria sido bem mais devastador. “Se não tivéssemos força para suportar esta doença, teria sido um genocídio mesmo.” 

Nesta entrevista ao blog, concedida via ligação por WhatsApp desde uma área Ashaninka conhecida como Centro Yorenka Ãtame, Piyãko ainda comentou sobre a importância dos povos indígenas na preservação da Amazônia em meio ao mais novo avanço da destruição da floresta, com aumento recorde do desmatamento e das queimadas que ameaçam se transformar em grandes incêndios florestais. 


Leia a conversa: 


Quais aprendizados o isolamento social nas aldeias a que os povos indígenas tiveram de se submeter para escapar da pandemia do novo coronavírus trouxeram?    

Piyãko: Eu acho que todos os povos indígenas tiveram oportunidade de perceber a importância que tem o seu território, os seus costumes e tradições. Deu para fazer uma reflexão muito grande, porque por muito tempo tivemos dificuldades de compreender estes valores. Até hoje vivemos uma relação meio que confusa nos negócios ou num meio de vida fora da aldeia. O isolamento nos fez voltar um pouco para entender o porquê de aquele território protegido, rico de alimento, com suas roças tradicionais e seus conhecimentos tradicionais, não sentiram tanto impacto. Tem o seu conhecimento. Sem dependência de fora, então não sentiram tanto o impacto. Agora, aqueles que tinham uma dependência muito forte com a cidade, que viveram muito pouco a sua origem, o seu mundo, eles sentiram mais. Dá para perceber esta diferença. É um momento para uma grande reflexão sobre estes valores, e que talvez sejam uma oportunidade para se reconectar com seus princípios e para a valorização de seu território, para valorizar sua autonomia do ponto de vista do abastecimento e uma série de coisas.


E para os Ashaninkas do Rio Amônea, como está sendo essa experiência?

Piyãko: Na história do povo Ashaninka teve muitos momentos de enfrentamento de situações como esta, e creio que na história de outros povos indígenas também. Teve o tempo do sarampo, da coqueluche, da catapora e outras doenças que apareceram aqui na região e que mataram bastante o nosso povo, quando ainda não tinha vacina. Para enfrentar isso fazia o isolamento e esperava por anos até este tempo passar para poder retomar o contato. Então, agora, o nosso povo tem duas moradas, uma na aldeia e outra de refúgio. Cada família tem uma roça e uma casinha lá num cantinho, e num momento como este vai para este lugar. O que aconteceu agora foi uma demonstração que chamou muita atenção para nossa própria organização. Não esperávamos esta crise. Tivemos que reorganizar nosso comportamento. As famílias, de maneira individual, iam até a sede do município [Marechal Thaumaturgo] para buscar os benefícios de aposentadoria ou Bolsa Família. Então quase todas as famílias iam para a cidade de dois em dois meses. Mas, quando isso [a pandemia] aconteceu, a gente fez uma reunião e foi tomada uma decisão coletiva de que ninguém vinha mais. Enquanto esta doença estiver acontecendo ficou decidido que a organização assumiria o abastecimento através da cooperativa. A cooperativa centralizou todo o abastecimento na aldeia. Qual seria o básico para isso: passar um, dois ou três anos sem ir para a sede. Toda a necessidade de deslocamento será feita através de comissão representando o coletivo. Então a gente fez uma lista de prioridades, como o sal, o isqueiro, coisas básicas. Dez itens atendiam a demanda porque nossa comunidade tem um estoque muito grande [de alimentos a partir dos roçados]. Depende pouquíssimo de fora, de alimento ou vestimentas. Muitas coisas não são necessárias. Historicamente já temos esta estratégia, e até agora isso funcionou. Tanto que a gente não tem nenhum caso lá na aldeia [da Covid-19]. 


Como foi o efeito da pandemia na relação de vocês com os Ashaninkas que vivem na fronteira peruana?

Piyãko: Quando a gente está numa situação de guerra, a gente busca encontrar pessoas que estão lutando por uma mesma causa. O povo lá do Peru também está nesta mesma luta, então nós procuramos fazer reuniões com eles e nos colocamos à disposição para ajudá-los, porque eles estão numa situação difícil. Todos os seus negócios são do lado do Brasil. Eles não têm estradas e nem como receber mercadorias por avião [pelo lado peruano]. Encontramos eles numa situação de não ter o sal, o isqueiro, o básico para sobreviver. Estavam numa aflição muito grande, e nós fizemos uma reunião grande, nos colocamos à disposição e fizemos uma doação de suprimentos para que pudessem atravessar estas dificuldades todas. Eles agradeceram muito e são parceiros nossos. Esta situação não foi a primeira em que os apoiamos. Mas foi muito marcante, pois eles esperavam que nós ficássemos isolados do lado do Brasil e não buscássemos mais contatos. Mas, fizemos o contrário, pois evitamos que a pandemia chegasse até eles e que dali chegasse até nossa comunidade pela fronteira.


Na semana passada, o STF aprovou a ação movida pela Apib obrigando o governo federal a auxiliar os povos indígenas que sofrem com uma estratégia ineficaz de conter o coronavírus nas aldeias. Que avaliação você faz deste momento político em meio a uma crise de saúde?

Piyãko: Falar do governo brasileiro com relação à pandemia é afirmar que ele não levou a sério em momento nenhum. É muito triste ter um governante que não respeitou [as medidas de evitar a proliferação do vírus] e sempre procurou fazer com que muitos o seguissem. O governo tem uma influência muito grande. O que ele fala, sendo ou não verdade, conduz muitas pessoas para um caminho. Deveria ter se colocado numa postura de representar o povo. A gente tem um Ministério da Saúde sem ministro. E um governo que atira para todo lado e ainda querendo responsabilizar os outros. A Apib está atuando para proteger, tenta chamar a responsabilidade do Estado. Porque eu tenho certeza que se não tivéssemos adotado nossas próprias medidas como a gente fez em todas as terras indígenas, seria muito pior, porque o Estado não chegou em nossas terras com medidas preventivas. Foi muito pouco, a gente só lamenta isso.


Então na sua avaliação se os próprios povos não tivessem adotado medidas de proteção a situação seria ainda pior?

Piyãko: Muito pior. A sobrevivência foi baseada na força da natureza. Foi nossa força que salvou muitas vidas, incluindo os que foram contaminados e escaparam. Baseados na força da natureza, nos conhecimentos, nas crenças e na medicina tradicional. Isso nos ajudou muito. Se não tivéssemos força para suportar esta doença teria sido um genocídio mesmo. Teria morrido muito mais gente. Nosso entendimento é o mesmo que a Apib está falando, de que eles queriam que as comunidades fossem contaminadas e se acabassem. Em muitos momentos está clara a posição do governo brasileiro, não de todo o governo, mas dentro da Presidência. Porque se não tivesse os órgãos de defesa dos direitos dos povos indígenas, o Judiciário, o Supremo, o Ministério Público, para defender, nós teríamos pistoleiros em massa entrando nas aldeias paras tomar este território.


Você fala sobre a questão das terras indígenas também? 

Piyãko: Eu sinto que não é simplesmente uma ignorância do governo. Há uma intenção clara. Se a pandemia matasse todos os índios eles estariam comemorando.


O governo Jair Bolsonaro teria interesse no extermínio das populações indígenas para se apropriar de suas terras?

Piyãko: De tudo o que ele falou eu entendo isso. O que ele falou e alguns ministros já falaram, o coronavírus veio de mão cheia para que pudessem botar a mão nas terras. Afirmo a partir da leitura dos discursos do Jair Bolsonaro e todos os ministros que compactuam com a leitura dele. Não tenho outra explicação. Qualquer doença que vier para matar os povos indígenas eles vão comemorar. Está mais que claro que querem isso. Mas, dentro do governo, há as instituições que ainda cumprem seus papéis no que está assegurado no direito dos povos indígenas. Mas a partir da Presidência e de alguns ministros, eles inclusive entraram com um processo de reestruturação na Funai, no Ministério do Meio Ambiente e outras instituições. Eu estou falando do primeiro decreto, de 1º de janeiro de 2019, o que eles falaram sobre as comunidades indígenas. Tem uma clara intenção, sim. Para eles seria um ganho muito grande se os povos desaparecessem com esta pandemia. Para se apropriar do território estão tentando com estratégias e decretos, anular processos de demarcação de terras indígenas. Então é isso. Eu estou falando de leitura que faço, mas se você pegar o histórico do Jair Bolsonaro e dos ministros, vai ver que não acabaram ainda [com os territórios tradicionais] porque temos leis e instituições que estão segurando. Eu não estou inventando isso. A gente está vivendo isso em pleno século 21 a postura deste governo atual, do Jair Bolsonaro. Tudo de ruim que acontecer eles podem comemorar. Esta pandemia se acabasse com as terras eles iam fazer uma grande festa, soltar fogos.


Como os povos indígenas vão sair deste processo? Temos ainda uma pandemia e mais dois anos de Jair Bolsonaro - isso se não for reeleito em 2022.  Qual sua avaliação para o futuro?

Piyãko: Eu acho que o Jair Bolsonaro não vai conseguir acabar com os povos indígenas. Nós somos muito fortes e estamos muito bem preparados para resistir e atravessar, porque eu estou considerando isso uma tempestade que vai passar e o sol vai brilhar mais na frente e vamos viver tempos melhores. Nós vamos sair muito mais fortalecidos porque está juntando duas coisas: a questão ambiental e os povos indígenas estão numa mesma posição em relação ao seu valor de importância. Mas a sociedade brasileira está percebendo, como o mundo está percebendo, o erro que este governo está cometendo. Então é uma reação natural daqueles povos e da sociedade brasileira e do mundo reagir e não permitir que o interesse dele avance. Pois o que está ali não é o interesse do povo, é postura de um presidente com um mandato, e este mandato vai passar. Vamos sair mais fortes, pois nossa aliança passa a ser maior, não vamos permitir que o que conquistamos ao longo do tempo seja derrotado em quatro anos. Só teria um caminho para ele vencer os povos, que seria usar a força do Estado brasileiro e pôr as Forças Armadas para matar os índios, pois de outro jeito não tem. Nós temos os meios. Ninguém está fazendo guerra, se armando para enfrentar o governo, mas temos o meio para colocar para a sociedade brasileira e o mundo o que estamos passando neste governo. 


Nós estamos assistindo a um processo acelerado de destruição da Amazônia no governo Jair Bolsonaro. Qual o papel dos povos indígenas na manutenção desta floresta em pé? 

Piyãko: Já foi provado que os povos indígenas, as florestas e o meio ambiente como um todo nunca tiveram problema. Vivem numa harmonia muito grande. Se tirar a floresta, destruir a floresta, queimar a floresta os povos indígenas vão juntos. Se quiser usar a Amazônia para ajudar na economia do país tem que atualizar a visão para o século 21, sair do século passado. Nós temos muitos recursos. Basta apenas investir em tecnologia, ciência, para que ela produza sem ser destruída. Ela é sustentável. Nós precisamos pensar que a Amazônia é muito produtiva do ponto de vista do ponto de vista econômico também, mas não pode ser pensada para a soja, para o gado, para o garimpo, para o formato que está aí, pois este formato já está ultrapassado. Não existe mais. Nós defendemos um modelo de desenvolvimento econômico que respeite os povos, as tradições da Amazônia   


Os Ashaninka do Amônea fizeram uma Live para arrecadar recursos para auxiliar outras comunidades indígenas e ribeirinhas neste momento de dificuldade ocasionado pela pandemia. Como está a campanha? 

Piyãko: Nossa Campanha Ashaninka Pelos Povos da Floresta tem uma proposta clara, entendemos que a pandemia não vai passar tão cedo, não tem tempo determinado. Baseado nesta realidade e conhecendo a realidade regional entendemos que o apoio não deve ser um sacolão [cesta-básica]. Temos que pensar em um kit que dê mais força e tempo para as pessoas se organizarem e enfrentar esta situação no médio prazo. Isso começa num trabalho interno de passar a se sentir mais responsável por ela própria, e não passar este cuidado, esta responsabilidade, para o governo cuidar deles. A gente está tentando chegar até estas pessoas da floresta que muitas vezes não têm o canal. Não podem colocar a sua voz para atender suas demandas e suas necessidades. A partir desta semana estamos recebendo os primeiros 400 kits e vamos fazer as primeiras entregas. Já atingimos quase 400 mil reais de doações e para nós é uma satisfação muito grande. É muito importante poder circular com este apoio. Tem áreas que a gente vem trabalhando, para que estas regiões contem com nosso apoio. Eles sempre contaram. A gente tem um espaço e a gente estava sentindo que estamos protegidos na nossa casa, nossa terra. A gente quer que toda população da floresta possa viver isso. A gente entende que o isolamento na cidade é cruel, ficar entre quatro paredes, esperando o tempo passar, saindo com medo nas ruas. Numa floresta, basta fechar para que não entrem e saiam, mas a vida dentro é normal, no rio, nas florestas, no roçado, na família. Não tem um isolamento como o da cidade.  


Acesse ao site da campanha Ashaninka 


quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Agressão à História

Abandonada, casa de Chico Mendes se deteriora; memória de líder seringueiro é ameaçada


Em Xapuri, casa de Chico Mendes está fechada desde janeiro de 2019

@fabiospontes

Na terra natal do líder seringueiro Chico Mendes, não é só a reserva extrativista que leva seu nome que está ameaçada pelo desmatamento ocasionado pelo avanço da agropecuária e por projetos de leis apresentados pela bancada da motosserra que visam beneficiar o grupo formado pelos maiores desmatadores da unidade. Com o governo Gladson Cameli (PP), a própria História do acreano mais famoso no Brasil e no mundo está em risco. 

Desde que assumiu os rumos políticos do estado em janeiro do ano passado, o atual grupo de partidos tenta destruir tudo aquilo que esteja ligado à preservação da Amazônia e à proteção de suas populações tradicionais. Para eles, tudo isso não passa de coisa de petista. Ainda na visão deles, desprezar estas duas áreas é também uma forma de sepultar a memória de duas décadas de governos do PT no Acre. 

Essa visão estúpida tem se mostrado desastrosa e custado muito caro para o Acre. Em 2019 tivemos o maior registro de desmatamento dos últimos 11 anos - e um dos maiores em queimadas. Com perdão do trocadilho, mas nunca antes nossa imagem lá fora esteve tão queimada como agora. O Acre que servia de exemplo em políticas de proteção da floresta, agora supera o Mato Grosso em devastação. 

Além de pouco fazer para a manutenção da floresta em pé, o governo Gladson Cameli contribui para deixar em último plano a história de vida de uma das pessoas que mais lutaram pela defesa deste patrimônio, que foi Chico Mendes. Desde janeiro do ano passado, a casa de Chico Mendes, em Xapuri, transformada em museu para receber visitantes de todas as partes do mundo, está fechada. 

A gestão estadual decidiu não renovar o contrato que permitia a locação do imóvel pelo governo. O valor do aluguel era repassado para a família de Chico Mendes. Ainda no ano passado procurei o governo para saber se havia a perspectiva de o museu ser reaberto. Informaram-me de que negociações seriam feitas para tal. Quase dois anos depois, a situação é a mesma. 

Semanas atrás estive em Xapuri. A casa permanece fechada, deteriorando-se com a ação do tempo, do sol e da chuva. Os fios de energia que a ligavam ao poste agora estão pendurados na cerca. Sem o pagamento das faturas se acumulam na cerca, a empresa cortou o fornecimento. Para quem já viu e visitou a casa de Chico no auge de seu funcionamento enquanto museu, é desolador se deparar com ela em tal situação. 

O fechamento do imóvel não representa um ataque apenas à memória de Chico Mendes, mas também ao seu legado de lutas que fez o Acre ser conhecido internacionalmente e também o município de Xapuri. A história do filho mais ilustre da cidade a faz (ou fazia) receber dezenas - talvez centenas - de turistas todos os anos, movimentando a economia local. Restaurantes e hospedarias de Xapuri dependem diretamente deste fluxo de turistas em busca de conhecer melhor a vida de Chico Mendes; com a casa fechada, o movimento é zero. 

Outro retrato do desprezo pela região onde nasceu e viveu Chico Mendes é a pousada Cachoeira, no Seringal Cachoeira, onde ocorreram os últimos empates liderados por ele. Abandonada, a pousada vai se deteriorando dentro de uma área de floresta. Uma outra tristeza para quem já viu o apogeu daquele empreendimento. 

O governo pode alegar que a pandemia levou ao fechamento de ambos os lugares. No caso da pousada até pode ser, mas a casa de Chico Mendes está jogada às traças por pura omissão desde o começo do ano passado. Repetindo: este é um ataque não apenas à memória do líder seringueiro, mas à toda história do Acre e de Xapuri. 

Que Gladson Cameli possa rever seus conceitos de governança e pense mais como um estadista. É isso o que o Acre merece.       



Obs: O Ministério Público Federal poderia cobrar providências já que se trata de um patrimônio da União, pois a casa foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional  -  IPHAN.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Fronteira seca - muito seca

Vazante do rio Acre torna ineficaz fechamento da tríplice fronteira entre Brasil, Bolívia e Peru


Fronteira Brasil/Bolívia entre os estados do Acre e Pando, separada pelo igarapé Bahia (Foto: FPontes/2020)



O rio Acre é a demarcação natural da tríplice fronteira entre Brasil, Bolívia e Peru. Contudo, o acesso de um lado ao outro não se dá por via fluvial, mas por uma rodovia - a BR-317 -, as pontes e os ramais, que são as nossas estradas de terra. Essa interligação terrestre entre os países é conhecida como fronteira seca. Com a intensificação do “verão amazônico”, que reduz de forma significativa as chuvas na região, e, consequentemente, o nível dos rios, a fronteira fica ainda mais seca. 

No caso do rio Acre - manancial que depende diretamente da água que cai do céu para ficar num volume seguro para a navegação - nesta época do ano é possível ir de um lado ao outro da fronteira cruzando-o a pé. O nível é tão baixo que as praias às margens quase se conectam ao bancos de areia no leito do manancial. Tal comportamento ocorre com mais frequência nas regiões de cabeceira do rio, onde fica a tríplice fronteira.

Desde 20 de março as fronteiras brasileiras com os vizinhos estão fechadas por conta da pandemia do novo coronavírus. O trânsito de pessoas e veículos está proibido. Nas pontes que conectam um país ao outro apenas barricadas e soldados dos exércitos de ambos os países são vistos. A presença deles é o que impede o fluxo, sobretudo, de pessoas.

Com o nível crítico do rio Acre neste mês de agosto, brasileiros, bolivianos e peruanos conseguem se reconectar atravessando a pé o manancial - longe dos olhos dos guardas. Esta facilidade é também aproveitada pelos imigrantes que há meses esperam pela oportunidade de entrar ou sair do Brasil. Um grupo de venezuelanos mora em barracas montadas na ponte binacional Brasil-Peru, no município de Assis Brasil.

Atingidos em cheio pelo fechamento das fronteiras, traficantes de drogas também aproveitam a conexão geográfica facilitada pelo clima seco para fazer circular suas “mercadorias”. Não à toa a quantidade de drogas apreendidas nos últimos tempos no Acre disparou, após a escassez observada logo nas primeiras semanas após o fechamento das fronteiras. À época escrevi uma reportagem para a piauí relatando o caso.

O fechamento da tríplice fronteira causa muitos transtornos para os moradores da região conhecida como MAP, que é a sigla para Madre de Dios (Peru), Acre (Brasil) e Pando (Bolívia). Cobija, a capital do departamento de Pando, é a mais afetada por depender diretamente das integração econômica com as cidades acreanas de Brasileia e Epitaciolândia. Parte dos alimentos consumido na cidade de 100 mil pessoas sai dos mercados do outro lado da fronteira. 

A fronteira Pando-Acre também depende do turismo para movimentar sua economia. Muitos brasileiros vão a Cobija para comprar bugigangas baratas em Cobija, além de buscar atendimento médico mais em conta. Na capital de Pando também há faculdades de medicina onde estudam dezenas de brasileiros.

Com os guardas impedindo o vaivém de pessoas pelas passagens oficiais da fronteira, muitos se arriscam a atravessar o rio Acre e igarapés que separam um país do outro. Com a escassez de chuvas típica de agosto, é possível fazer a travessia internacional como a “água nas canela”, como diz o bom acreanês.

Segundo o boletim desta segunda-feira, 6, da Sala de Situação mantida pelo governo para acompanhar o nível dos rios e a quantidade de queimadas no estado, o rio Acre, em Brasíleia, atingiu a marca de 1,30m, o que o deixa em situação de alerta máximo por conta da vazante. O boletim não apresenta a medição em Assis Brasil, onde está a cabeceira do manancial.

A previsão para o trimestre julho-agosto-setembro do Instituto Nacional de Meteorologia (inmet) aponta uma probabilidade de chuvas abaixo do normal para o período na região da Bacia do Rio Acre; ou seja, com menos chuva o nível do rio vai descer ainda mais. Sinal nada bom, já que ele é a única fonte de abastecimento de água para 70% dos moradores do estado.

Se houver um colapso no fornecimento de água por aqui, bom seria que o governo brasileiro liberasse as fronteiras para sairmos por aí em busca de uma fonte. Aliás, creio ser muito difícil algum de nossos vizinhos aceitar a presença de pessoas oriundas de um país que é um dos epicentros do coronavírus no mundo.

Só nos resta fazer a dança da chuva para não morrermos de sede na pandemia...
    

Leia também: Destruição da Resex Chico Mendes ameaça acesso à água potável de quase 70% dos acreanos 

domingo, 9 de agosto de 2020

Um ano de fogo

Avanço do desmatamento e tempo seco fazem do Acre o mais propício para incêndios florestais

Área desmatada e queimada na Resex Chico Mendes, em Xapuri (Foto: Fabio Pontes/2019)

 

@fabiospontes

O ano de 2005 ainda está fresco na memória dos acrianos como um dos mais críticos quando o assunto são os meses de estiagem, que têm como uma de suas principais características as queimadas que destroem dezenas de quilômetros quadrados de vegetação, piorando a qualidade do ar numa época marcada pela baixa umidade. Há exatos 15 anos, o Acre vivia um de seus “verões amazônicos” mais intensos e trágicos.

Pelas cidades, os dias quase se transformavam em noite pela fumaça das queimadas que encobria o sol. Com os longos dias sucessivos sem chuva, o fogo que era usado para a limpeza dos roçados não encontrava dificuldades para se alastrar pelo interior da floresta cheia de vegetação seca.

Em 2005, o Acre teve 350 mil hectares de floresta em pé atingidos pelo fogo. Agora, em 2020, o Acre e todo o Sul da Amazônia podem voltar a viver uma tragédia ambiental como a de 15 anos atrás. Ao menos é o que aponta estudo da Nasa, a agência espacial norte-americana.

 Coordenador do Setor de Estudos de uso da Terra e Mudanças Globais (SETEM), da Universidade Federal do Acre, o ecólogo Foster Brown diz que o padrão climático de 2020 é semelhante ao das secas severas de 2005 e 2010. Para ele, apenas se houver algum nível de chuva a partir da segunda quinzena de agosto pode se amenizar os impactos do fogo, reduzindo os riscos de incêndios florestais.

O “verão amazônico” na porção mais sul do bioma costuma ocorrer entre maio e setembro, sendo seu pico de agosto a setembro. E é justamente nesses meses que as queimadas ocorrem com mais intensidade. Com os dias acumulados sem chuvas ou chuvas escassas, a vegetação está seca e no ponto ideal para ser queimada. As temperaturas altas mais a baixa umidade do ar também ajudam o fogo a agir com mais poder de destruição. 

“Tudo indica que vamos ter muitas queimadas. Se a floresta aguenta e não deixa o fogo entrar seria excelente. Mas se a seca se prolonga até o ponto em que a floresta fica suscetível, os incêndios nas áreas de derrubada vão penetrar e queimar grandes áreas de floresta”, diz Brown.

Entre os estados da Amazônia brasileira, segundo a Nasa, o Acre é o que apresenta o mais elevado nível de risco de queimadas descontroladas por conta do ambiente atmosférico, ocasionado pelo aquecimento do Atlântico: 85%. Em seguida estão Pará e Mato Grosso (82%), Rondônia (80%) e Amazonas (63%).
Recordes de desmatamento

Em 2020, a situação climática é agravada pelos níveis recordes de desmatamento da Amazônia detectados desde 2019, impulsionados pelo desmonte da política de proteção ambiental promovido pelo governo Jair Bolsonaro. Esta mesma postura foi seguida pelo atual governo acriano, que tem como sua principal política econômica para o estado o fortalecimento do agronegócio.

O resultado foi o incremento da área de floresta destruída, alcançado a marca de 706,75 km², o pior resultado dos últimos 11 anos na série histórica do Prodes/Inpe. 

Em 2020, a tendência de alta de derrubadas se mantém. De acordo com o Sistema de Alerta de Desmatamento em Tempo Real (Deter), também do Inpe, os avisos de desmatamento no Acre entre 1º de janeiro e 31 de julho representam uma área de 197,58 km².


Nova fronteira do desmatamento

O que chama a atenção é o “deslocamento” da concentração da área desmatada. Nos últimos tempos, a região com maior concentração de floresta destruída saiu do Leste do estado para o Centro e o Oeste. Essa mudança é preocupante por ser os Vales do Juruá e Tarauacá/Envira os que ainda apresentam a maior área de floresta preservada no estado.

Em 2019, os municípios de Feijó, Sena Madureira e Tarauacá foram os campeões no registro de focos de queimadas, com 1078, 856 e 722 focos, respectivamente. Em todo o Acre, foram 6.802 focos de calor detectados pelos satélites do Inpe. Estimativas apontam que 180 mil hectares de vegetação se transformaram em cinzas.

No acumulado de 2020 (até 6 de agosto), o estado tinha 830 focos, ocupando a oitava posição na Amazônia Legal. Tarauacá (182) e Feijó (141) voltam a liderar o ranking.

“Diante das projeções da Nasa de um ambiente propício para a propagação do fogo estamos preocupados que estas queimadas feitas em roçados ou para limpeza das áreas desmatadas saiam do controle e adentrem a floresta”, diz a pesquisadora Sonaira Silva, da Universidade Federal do Acre (Ufac). Ela é coordenadora do Laboratório de Geoprocessamento Aplicado ao Meio Ambiente (LabGama), que monitora os níveis de desmatamento e queimadas no estado, além da poluição do ar provocada pela fumaça.

 “Quando eu começo a analisar o que aconteceu no ano passado [em termos de desmate], o que aconteceu já em 2018 e o que está acontecendo agora em 2020, eu acho que a situação será muito pior”, afirma Sonaira.

Essa avaliação pessimista se dá exatamente por conta da nova fronteira do desmatamento no Acre.

Ameaça em região isolada da floresta

A Reserva Extrativista Alto Juruá é o exemplo do risco de o fogo sair do controle e entrar numa área de floresta intacta. Em 2019, segundo o Inpe, a unidade de conservação teve 8,46 km² desmatados. Durante os 12 meses do ano passado, a Resex teve 139 focos de queimada. Impacto que ocorre numa das regiões mais isoladas da Amazônia.

“Já está faltando chuva nesta região desde o último mês. Com a previsão da Nasa de que teremos agosto e setembro com chuvas baixas, estamos nos preparando para mapear incêndio florestal de novo este ano, e numa proporção maior”, diz Sonaira. Os incêndios florestais são aqueles que ocorrem no interior da mata fechada, enquanto as queimadas são em roçados, pastagens ou áreas desmatadas.

De acordo com Sonaira, a única forma de conter os incêndios florestais é a ocorrência de chuvas, mas que não conteriam as queimadas para os fins agrícolas. Dados da Sala de Situação mantida pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente apontam os municípios dos Vales do Tarauacá/Envira, Juruá e Purus como de risco alto e crítico para o fogo. Essa medição é feita com base no número sucessivo de dias sem chuvas.

Em 2020, o nível de chuvas no Acre ficou abaixo da média no período do “inverno amazônico”, que são os meses chuvosos de outubro a março. “O clima está mudando. Teve um evento anormal entre janeiro e março. Teve uma onda de calor muito forte, ocasionando uma interrupção nas chuvas. Já em janeiro observamos focos de calor em campo”, afirma a professora da Ufac.


Estratégias de combate ao fogo

Um dos resultados dos trabalhos desenvolvidos pelos pesquisadores do LabGAMA e do SETEM é fornecer informações às autoridades ambientais do estado e federais sobre as áreas mais críticas de desmatamento e risco de fogo no Acre. A partir destes levantamentos, os órgãos de fiscalização podem definir suas estratégias de ações, coibindo o problema onde de fato ocorre.

Na última segunda-feira, 3, o governo estadual lançou a operação Focus II, reunindo a Secretaria de Meio Ambiente (Sema), o Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac), Corpo de Bombeiros e Batalhão de Polícia Ambiental (BPA). Um dos focos é combater o desmate e a queima para a invasão de terras públicas, crime que se intensificou nos últimos três anos.

As ações federais no estado se resumem à Operação Verde Brasil 2, liderada pelo Exército. Até o momento, porém, não se tem observado atividades de grandes impactos. A principal atuação dos militares é garantir a escolta de agentes do ICMBio e Ibama em suas ações de fiscalização nas Unidades de Conservação federais, em especial a Resex Chico Mendes, bastante pressionada pelo avanço da pecuária e a venda ilegal de lotes de terra.


Queimadas de 2005: dia virava noite


Uma das áreas de floresta do Acre mais atingidas em 2005 foi a Reserva Extrativista Chico Mendes, no sudeste do estado. Do céu se via o fumaceiro a sair pelas copas das árvores. No chão, bombeiros e brigadistas tentavam controlar as chamas.

Morador da unidade de conservação, Júlio Barbosa de Aquino vivenciou o grande incêndio de 2005. Segundo ele, o fogo se estendeu durante todo o mês de setembro, sendo controlado apenas em outubro com o início das primeiras chuvas. Ele lembra que o incêndio dentro da mata começou a partir das pequenas queimadas nos roçados dos seringais. 

“O incêndio de 2005 foi causado, grande parcela dele, de forma acidental, se alastrou e perdemos o controle. Tinha mais de 200 brigadistas lutando contra o fogo, mais as pessoas da comunidade, mas naquele ano a seca estava muito forte”, diz ele, que hoje preside o Conselho Nacional das Populações Extrativistas, o antigo Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS).

Júlio Barbosa diz que os extrativistas aprenderam com a lição de 15 anos atrás. “Eu acho que estamos vivendo um cenário diferente de 2005. Apesar de ter a pressão muito grande do desmatamento, também há o receio de muita gente quanto ao uso do fogo. No meu entendimento há uma consciência maior”, diz. A apreensão de que as previsões de risco se concretizem e que grandes incêndios voltem a castigar a Reserva serão postas à prova nas próximas semanas.


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