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quarta-feira, 27 de maio de 2020

Um vírus que avança e ameaça

Jaminawa-Arara que estava em aldeia testa positivo em município isolado do Acre  




Os Jaminawa dos Vales do Acre e do Juruá já têm casos confirmados da Covid-19; no Juruá, aldeia pode ter sido impactada (Foto: Jardy Lopes/2019)


@fabiospontes 


Após ficar concentrado no perímetro urbano de Marechal Thaumaturgo, o coronavírus já afeta as comunidades indígenas do município isolado do Vale do Juruá, no extremo oeste do Acre. Nesta terça-feira, 26, foi confirmado o primeiro caso da Covid-19 entre os Jaminawa-Arara que moram nas aldeias da Terra Indígena Jaminawa/Arara do Rio Bajé. 

O indígena apresentava os sintomas da doença ainda enquanto estava em sua comunidade e foi para a cidade em busca de auxílio médico acompanhado de outras três pessoas. Ao ser examinado, testou positivo para a doença. Os demais companheiros também passam por avaliação clínica.

“Segundo as informações, na comunidade já tinha várias pessoas [com sintomas] e trouxeram uma pessoa para fazer o exame e deu positivo. A situação agora é o que fazer com esse pessoal lá na aldeia”, diz o prefeito de Marechal Thaumaturgo, Isaac Piyãko (PSD), da etnia Ashaninka.

De acordo com ele, a chefia do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) do Alto Juruá, sediada em Cruzeiro do Sul, já foi informada sobre a situação. A perspectiva é que um médico seja enviado até a aldeia para uma avaliação mais completa. “Com casos dentro de uma aldeia a gente sempre fica mais preocupado porque eles são mais vulneráveis, têm a imunidade baixa”, avalia o prefeito.

Acessível apenas por avião ou barco, Marechal Thaumaturgo tem uma situação preocupante por não contar com uma estrutura de saúde capaz de atender a população em caso de surto da Covid-19, como a falta de leitos de UTI. Segundo dados da Secretaria de Saúde, o município tem 42 casos confirmados da doença, com 35 descartados.  

Os primeiros testes positivos para a doença ocorreram no dia 11 de maio, de três pessoas que foram a Cruzeiro do Sul fazer compras para abastecer seus comércios e contrariam o vírus na principal cidade do Vale do Juruá. Diante da resistência de parte dos moradores de seguir as medidas de isolamento social, o vírus tem se espalhado de forma rápida pela pequena cidade.

Uma das preocupações com a chegada do vírus ao município se dá justamente com os povos indígenas, por representarem parcela significativa dos 18 mil moradores; eles integram o chamado grupo de risco por apresentarem imunidade baixa. Entre os Ashaninka são maioria. As outras etnias a morar pelas aldeias espalhadas pelo  município são os,  Kuntanawa, Apolina-Arara, Jaminawa, Jaminawa-Arara, os Arara e os Huni Kuin. 

Os Jaminawa do rio Bajé estão divididos em quatro aldeias: Buritizal, São Sebastião, Bom Futuro e Fazenda Siqueira. Elas estão distante entre uma hora e meia a três horas da sede urbana de Marechal Thaumaturgo.

Os povos que nelas habitam formam uma verdadeira união - ou mesmo casamento - de distintas etnias. Os Jaminawa-Arara formam a união de duas etnias: Jaminawa e os Arara (Shawãdawa). Os primeiros são originários das cabeceiras dos rio Acre, enquanto os Shawãdawa têm suas raízes no Alto Rio Juruá. Até hoje eles ainda ocupam terras em suas regiões de origem.   

Essas uniões ocorreram durante as invasões da Amazônia pelos donos de seringais que chegavam à região para obter lucros por meio da extração do látex. “Devido à situação de escravização, mudança forçada e tudo mais a que os indígenas do Acre ficaram sujeitos durante o período das correrias, da exploração da borracha. Houve circunstâncias em que esses povos se viram tão diminuídos numericamente que, para não desaparecer, acabaram se juntando, realizando casamentos, E os Jaminawa-Arara são considerados o resultado do casamento destes dois povos”, explica a antropóloga Andréia Baia, que estuda as populações indígenas do Juruá e Purus. 

Apesar desta união, ambos os povos fazem questão de manter as características de suas origens. Em alguns casos há aqueles que preferiram não recorrer a essa junção. “Existem algumas famílias que não se misturaram, que permaneceram sendo só Jaminawa ou só Shawãdawa. Elas formam os mesmos grupos, moram nas mesmas terras indígenas mas mantêm essa distinção”, completa a antropóloga.

Na região do Juruá estas populações vivem na Terra Indígena Jaminawa/Arara do Rio Bajé. Segundo dados do Dsei Alto Juruá, em Marechal Thaumaturgo elas somam 221 pessoas (dados de janeiro de 2020). Os Jaminawa-Arara também vivem em duas aldeias no município de Cruzeiro do Sul, na região do Igarapé Preto.

Por conta de seu elevado grau de mobilidade entre as aldeias e os centros urbanos, os Jaminawa estão entre os povos indígenas do Acre mais expostos à contaminação pelo novo coronavírus. Na semana passada, uma Jaminawa de Assis Brasil - na região do Alto Acre - foi detectada com a Covid-19. Segundo apurou o blog, desde o começo do ano ela vinha morando na cidade.

Em Assis Brasil, os Jaminawa vivem em aldeias das terras indígenas Cabeceira do Rio Acre e Mamoadate. Em abril, o blog mostrou o desafio dos Jaminawa que moram no perímetro urbano de Sena Madureira para regressar às suas aldeias ao longo dos rios Iaco e Purus para ficar em autoisolamento, longe da cidade. Grande parte destas aldeias não estão em terras indígenas demarcadas, o que os impede de contar com atendimento médico da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SesaI), do Ministério da Saúde. 

No Acre há muita confusão sobre os números oficiais da Covid-19, já que a secretaria federal leva em conta apenas os casos dos índios aldeados, ou seja, aqueles que moram nas aldeias. Levantamento feito pelo blog indica que ao menos cinco índios já foram testados positivos, a maioria moradores da cidade.

O caso de Marechal Thaumaturgo pode ser o primeiro ocorrido em aldeia, mas com o vírus contraído a partir de uma ida ao centro urbano, foco da doença. Entre os casos confirmados eles se espalham entre os Huni Kuin, os Jaminawa e Jaminawa-Arara. Desde o início da pandemia os povos indígenas do Acre decidiram se proteger vivendo isolados em seus territórios, impedindo a entrada de não-indígenas, além de reduzir, ao máximo, as idas às cidades


A Covid-19 e os povos indígenas

Oficialmente, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) não apresenta casos de contaminações ou mortes no Acre.  A realidade não é a mesma em toda a Amazônia. Os casos mais graves são registrados entre os povos indígenas do Amazonas. Segundo dados da Sesai, até esta terça (26) havia o registro de 905 indígenas testados positivos para a Covid-19, com 42 mortes. Há em análise 321 notificações.

Para a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) estes dados estão subnotificados, pois a secretaria não leva em conta os índios que moram nas cidades, mais expostos ao contágio. Nas contas da entidade, 143 indígenas já perderam a vida para o vírus e outros 1.256 estão contaminados. Ao todo, 67 diferentes povos foram atingidos pelo novo coronavírus.

As principais vítimas são os Kokama, moradores da região do Alto Solimões, no Amazonas. Oficialmente, o Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) do Alto Solimões registra a morte de 19 indígenas. Segundo as lideranças do povo, este número é muito maior pois muitos estão morrendo sem atendimento adequado nas cidades, em especial em Tabatinga, na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.     


Leia também: Contra pandemia, Yawanawa fecham o rio Gregório e fazem ‘lockdown’ na floresta



domingo, 24 de maio de 2020

O ancestral do agora

Indígenas reforçam modo de vida tradicional para enfrentar pandemia da Covid-19

 

Ashaninka do rio Amônia, por exemplo, recorrem a estratégia adotada pelos antepassados para casos de doença: ficar isolados em casas construídas dentro da mata, afastadas da sede da aldeia; isolamento também reforça práticas como a caça e a pesca fragilizadas após décadas de contato dos povos indígenas da Amazônia com "colonizador" 



Isolados em aldeia no rio Amônia, Ashaninka recorrem a "plano de contingência"   adotado pelos mais velhos décadas atrás para evitar danos causados por uma gripe, por exemplo (Fotos: Arisson Jardim/2019)  





A pandemia do novo coronavírus que leva as populações indígenas da Amazônia a viver em autoisolamento para evitar a chegada da Covid-19 a suas aldeias, tem sido enfrentada com o reforço do modo de vida e a relação ancestral com a floresta. Isso ocorre tanto no sentido do acesso à comida quanto ao de comportamento que assegura a segurança de toda a comunidade em tempos de adversidade, como os atuais.


É o exemplo dos Ashaninka e dos Yawanawa no Acre. Moradores da Terra Indígena do Rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo, os Ashaninka têm recorrido a um método usado por seus antepassados quando ficavam doentes, afetados por uma gripe, por exemplo. É tradição em cada família ter uma casa dentro da mata - afastada da aldeia - para ficar em isolamento nos dias que estão doentes, evitando que outras pessoas sejam contaminadas.

“As famílias estão posicionando seus pontos estratégicos em caso de entrada do vírus em nossa comunidade. Cada uma tem uma casa fora da aldeia. Isso já é da cultura Ashaninka. Você está ali na sede, mas você tem sempre um ponto, uma casa, um roçadinho afastado da beira do rio. O meu avô fazia muito isso quando tinha uma gripe forte. Passavam lá meses, depois voltavam para saber se estava tudo bem”, diz Francisco Piyãko, liderança do povo Ashaninka.

O município de Marechal Thaumaturgo já tem 35 casos confirmados da Covid-19. A chegada do vírus representa uma grande ameaça por conta da carência na estrutura do serviço público de saúde, como a falta de leito de UTI. Sem acesso rodoviário, pacientes que necessitem de tratamento intensivo teriam que ser levados para Cruzeiro do Sul de avião.

O município tem grande parte de sua população formada por indígena. São mais de 2.100 divididos em diversas etnias, sendo os Ashaninka a maioria. Outras etnias presentes são os Arara, Kuntanawa, Jaminawa e os Huni Kuin. Desde o início do surto os Ashaninka decidiram se autoisolar na aldeia Apiwtxa e impedir a entrada de não-indígenas. Uma das atividades desenvolvidas por eles é o turismo, atraindo pessoas de todo o mundo interessadas em viver e conhecer seu modo de vida ancestral.

Sua característica principal é a produção de alimentos no sistema agroflorestal (SAF). E esta prática sustentável é o que, agora, garante a segurança alimentar dos Ashaninka em tempos de pandemia. Desde meados de fevereiro os Ashaninka estão sem ir a Marechal Thaumaturgo, onde costumavam comprar parte dos alimentos.

“Durante este tempo organizamos nosso sistema de abastecimento por meio da nossa Cooperativa Agroextrativista Ashaninka do Rio Amônia, a Ayõpare. A cooperativa faz a compra e o abastecimento para atender a necessidade mais essencial. Este já era um modelo nosso antigo, mas só agora conseguimos colocar em prática. Isso tem sido muito importante. A nossa comunidade não tem passado nenhuma dificuldade de fome”, afirma Piyãko.

Segundo ele, a maior preocupação é evitar a entrada do vírus nas aldeias. Além do sistema cooperativo, eles vêm reforçando sua capacidade de produção de alimentos por meio dos roçados e do SAF. “Temos uma área rica, na qual trabalhamos toda a vida protegendo, de caça, de pesca. Nossos roçados estão bastante abastecidos, e as famílias estão aproveitando para ampliar ainda mais a nossa produção”, diz a liderança.

De acordo com ele, os Ashaninka vão ter garantido o acesso à alimentação durante este tempo de autoisolamento que os protege do novo coronavírus.

 “Nós estamos garantidos para um tempo longo. Por isso estamos trabalhando enquanto temos saúde para não termos nenhuma crise, porque ninguém sabe quando vai terminar esta situação toda.”    

Além de Marechal Thaumaturgo, os Ashaninka também estão presentes em Feijó. Por lá eles moram na Terra Indígena Kampa e Isolados do Rio Envira. Sua língua é a Aruak. Nos tempos pré-colombianos, os Ashaninka faziam parte do poderoso império Inca, que se espalhava dos Andes até a selva amazônica. Ainda hoje eles também estão presentes no outro lado da fronteira, no Peru..


Ancestralidade retomada



A chegada do europeu ao continente teve como impacto não apenas o estabelecimento de fronteiras entre um povo que era um só. Este contato com o homem branco afetou sobremaneira o modo de vida destas populações, além do genocídio ocasionado por encontros nem sempre amistosos, além das doenças “importadas”.      

A intensificação do contato dos povos indígenas da Amazônia – em especial no Acre – com o homem branco (a partir do começo do século 20) os forçou a perder seu modo de vida tradicional. Este perda ocorreu não de forma voluntária, mas forçada pelos donos dos antigos seringais que escravizavam essas populações na extração do látex, impondo a eles sua visão de mundo cristã-judaíca-ocidental.

Desta maneira, acabaram por abandonar sua espiritualidade baseada no culto e adoração às forças naturais da floresta, mais os modos de sobrevivência alimentar dentro da floresta.

Acostumados a tirar o sustento a partir da caça, da pesca e dos roçados, foram proibidos pelos “barões da borracha” de exercerem tais atividades para comprar tudo o que necessitavam nas casas de Aviamento, os locais nos seringais onde eram vendidos alimentos, suprimentos e ferramentas, criando um ciclo de dívidas entre seringueiro e seringalista que sempre deixava os primeiros impedidos de abandonar os seringais até que todos os débitos fossem quitados - sendo isso quase nunca possível.

Com o passar das décadas, a economia da borracha faliu e os seringais voltaram a ser aldeias, nas áreas já ocupadas pelos povos indígenas séculos atrás. Com a saída dos patrões, a influência cultural ocidental ocorreu por meio de missionários evangélicos na tarefa de realizar uma “neocatequização” dos índios. Este contato afetou sobretudo a relação dos povos indígenas com sua espiritualidade e ancestralidade.

Nas últimas décadas, contudo, os povos indígenas vêm recuperando e reforçando o modo de vida dos antepassados, valorizando toda a sua ancestralidade cultural. Contudo, ainda restam as marcas de séculos de colonização ocidental, em especial na relação com a produção alimentar. Muitas comunidades abandonaram práticas como a caça, a pesca e o roçado para depender dos alimentos industrializados vendidos nos mercados das cidades.

A invasão de seus territórios por caçadores e pescadores clandestinos reduz a oferta de alimentos. Obrigados a viver estes tempos em isolamento dentro das aldeias, eles necessitam recuperar a maneira de viver de seus avós e bisavós para ter alimento suficiente para toda a comunidade, por um tempo indeterminado. Este é um processo que nem sempre é fácil, demandando tempo para uma readaptação e coleta daquilo que foi plantado na terra.  A macaxeira e a banana são dois dos principais alimentos da dieta indígena. 

Quem tem sentido na pele essa readaptação são os Yawanawá do rio Gregório, em Tarauacá. Eles também estão sem ir a cidade para evitar a contaminação pelo coronavírus. Até uma barreira foi construída no rio para impedir o fluxo de pessoas entre as aldeias e o centro urbano. O município tem 105 casos confirmados da Covid-19.   

“Esse momento difícil que a humanidade está passando nos faz conectarmos com a nossa essência. Esse momento difícil que a humanidade está passando nos faz conectarmos com a nossa essência”, diz a liderança Biraci Yawanawa, o Bira, em entrevista ao blog no começo do mês.  

“Nós somos um povo conhecedor de muita medicina. Quando apareceu esses remédios da indústria da farmácia, dos hospitais, nós esquecemos todo o nosso conhecimento. Viramos preguiçosos de nosso saber da floresta. Agora precisamos nos reconectar com o nosso saber, nosso conhecimento, com a nossa ciência. Para mim é um momento de repensar toda a nossa história”, completa.



A Covid-19 e os povos indígenas



O autoisolamento tem sido crucial para proteger os indígenas acreanos do coronavírus. Oficialmente a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) não apresenta casos de contaminações ou mortes no Acre. O órgão só leva em consideração os casos ocorridos dentro das aldeias. Nas cidades, contudo, há informações de que ao menos cinco deles testaram positivo, sendo das etnia Huni Kuin e Jaminawa.

A realidade não é a mesma em toda a Amazônia. Os casos mais graves são registrados entre os povos indígenas do Amazonas. Segundo dados da Sesai, até sábado (23) havia o registro de 695 indígenas testados positivos para a Covid-19, com 34 mortes. Há em análise 220 notificações.

 Para a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) estes dados estão subnotificados, pois a secretaria não leva em conta os índios que moram nas cidades, mais expostos ao contágio. Nas contas da entidade, 103 indígenas já perderam a vida para o vírus e outros 610 estão contaminados. Ao todo 44 diferentes povos foram atingidos pelo novo coronavírus. 

As principais vítimas são os Kokama, moradores da região do Alto Solimões, no Amazonas. Oficialmente, o Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) do Alto Solimões registra a morte de 18 indígenas. Segundo as lideranças do povo, este número é muito maior pois muitos estão morrendo sem atendimento adequado nas cidades, em especial em Tabatinga, na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.  (colaboração de Arisson Jardim) 


Leia Também:  Coronavírus leva indígenas do Acre a "fechar aldeias" e interromper turismo 



quarta-feira, 20 de maio de 2020

Os vírus que ameaçam a Amazônia

Famílias de Resex na Amazônia relatam ameaça do coronavírus e abandono pelo Estado 

 

Extrativistas dizem que morador morreu esperando assistência por 3 dias, e que há 4 meses estão sem assistência médica; com ausência do ICMBio, antigos moradores que estavam na cidade retornam, podendo levar vírus para dentro da floresta 




Ida e vindas entre comunidades e cidades é a principal forma de contágio e colocar em risco vida de ribeirinhos, desamparados pelo poder público (Foto: Fabio Pontes/2014)



@fabiospontes

As ameaças às unidades de conservação (UC’s) na Amazônia no governo de Jair Bolsonaro (sem partido) se dão não apenas no que diz respeito à preservação dos seus recursos naturais - fauna e flora - mas também na sobrevivência das famílias que nelas vivem. Agora, com a pandemia do novo coronavírus, que se espalha de forma rápida pelos cantos mais remotos da região, a vida de milhares de extrativistas e ribeirinhos - que já não dispunham dos serviços públicos de saúde mais básicos - encontra-se ainda mais vulnerável.

É o que ocorre com as 600 famílias moradoras da Reserva Extrativista Riozinho da Liberdade, em Cruzeiro do Sul, no Acre. Em carta, as lideranças comunitárias relatam casos de pessoas que teriam contraído a Covid-19 - informando até uma morte - e a completa desassistência por parte das autoridades de saúde federal, estadual e municipal. Segundo o relato, os comunitários doentes não teriam combustível suficiente para chegar à cidade e realizar o tratamento adequado.

Localizada na Bacia do Juruá e medindo quase 325 mil hectares, a Resex Riozinho da Liberdade é uma unidade de conservação federal, portanto de responsabilidade do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Na semana passada, portaria do governo deu nova estrutura ao órgão, reduzindo suas coordenações regionais de 11 para 5 (uma para cada região do país) e colocando militares nos cargos de chefia. Agora, a gestão de todas as UCs do Norte estará centralizada em Santarém (PA).

A UC foi criada em fevereiro de 2005 e é vizinha à Terra Indígena Campinas/Katukina. Ambas as áreas são acessíveis e cortadas pela BR-364. O fluxo frequente de pessoas entre a sede urbana de Cruzeiro do Sul e a zona rural é apontada como o principal motivo para a chegada do coronavírus a estas comunidades mais remotas. Até o momento, Cruzeiro do Sul tem 234 casos confirmados da Covid-19, segundo a Secretaria Estadual de Saúde.

Uma das principais reclamações dos moradores da Resex do Liberdade é quanto à falta de assistência médica. “Inúmeras comunidades não recebem visitas de agentes de saúde ou médicos há meses”, diz uma carta assinada pelos moradores das comunidades Morro da Pedra e Periquito.

As duas unidades básicas de saúde (UBS) dentro da Resex são de gestão da Prefeitura de Cruzeiro do Sul.  Uma fica na entrada da UC, às margens da BR-364, e outra no Seringal São Pedro, na comunidade Periquito. “Na primeira UBS há atendimento periódico semanal. A segunda está sem atendimento há mais de quatro meses.”

“Temos poucos barcos de emergência com cada um tendo gasolina apenas para duas viagens. Em abril, um comunitário faleceu, passando três dias sem socorro, pois não havia barqueiro de emergência e gasolina disponível para o translado da comunidade até a BR-364, rodovia de acesso a postos de saúde e ao Hospital do Juruá”, reforçam.

Informações passadas ao blog dão conta de dois casos confirmados da Covid-19 dentro das comunidades ribeirinhas. A infecção teria ocorrido pelo contato com um “marreteiro” que subiu e desceu o rio nos últimos dias comprando a produção de farinha das famílias.

De acordo com a carta, antigos moradores que tinham deixado de viver dentro da unidade e estavam em Cruzeiro do Sul agora retornam para dentro das comunidades.

O retorno ocorre sem a devida autorização do conselho gestor e do ICMBio, e representa uma ameaça para a saúde dos ribeirinhos que não estiveram pela cidade nestes meses de pandemia. As lideranças também reclamam da falta de controle sanitário na ponte sobre o rio Liberdade, que dá acesso à Resex. É por ali que, diariamente, pessoas e mercadoria vindas de Cruzeiro do Sul têm acesso irrestrito à unidade de proteção federal.

“Não há fiscalização sanitária na ponte sobre o rio Liberdade, local  com mercados, de desembarque e embarque dos moradores, em canoas, vans e carros da linha. Os carros da linha, transporte entre a Resex e a cidade de Cruzeiro do Sul, vem lotados de gente até a Vila Liberdade”, completa a carta.

De Cruzeiro do Sul até a entrada da unidade na ponte do Liberdade são 80 quilômetros. A única barreira sanitária na rodovia está na comunidade Santa Luzia, cuja preocupação principal é com o fluxo de pessoas para a TI Campinas/Katukina. As lideranças afirmam ter pedido ajuda às secretarias estadual e municipal de Saúde para instalação de uma barreira na comunidade, mas não obtiveram resposta.

Além da ameaça provocada pelo coronavírus, as famílias extrativistas do riozinho da Liberdade sofrem com outro problema de saúde: a alta incidência de malária. Cruzeiro do Sul é um dos municípios da Amazônia com as maiores taxas de incidência de malária. Sem assistência médica ou acesso a medicamentos, são tratados com a “medicina da floresta”.

A Reserva Extrativista Riozinho da Liberdade foi criada há 15 anos como parte do projeto de amortização dos efeitos da pavimentação da BR-364 entre Cruzeiro do Sul e Rio Branco, a capital do Acre. A UC é cortada por sete quilômetros da estrada. Até a década de 1990 as famílias ribeirinhas viviam da extração da borracha, abandonada após a falência completa da atividade no Vale do Juruá. Hoje seus moradores tiram renda a partir da produção da farinha da mandioca, arroz e milho.

Com a falta de políticas e incentivos para desenvolver atividades econômicas de base florestal, as famílias vêm aumentando seus impactos sobre a área de floresta. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe), nos últimos 10 anos a Resex perdeu 11 quilômetros quadrados de floresta. Em 2019 ela ficou entre as três unidades de conservação federal no Acre com maior registro de focos de queimada, ficando atrás da líder Resex Chico Mendes e a Resex Alto Juruá.      
 

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Isolados, mas não protegidos

Isolamento geográfico não livra cidades da Amazônia de avanço do coronavírus


Em São Gabriel da Cachoeira (AM), já são 343 casos; em Marechal Thaumaturgo (AC), 11. Isolamento leva municípios com elevado população indígena a sofrer com carência em serviços mais básicos 

 

Banhado pelo rio Juruá, Marechal Thaumaturgo (AC) só é acessível por barco ou avião; dificuldade de acesso não impediu chegada do coronavírus (Foto: Gleilson Miranda/Governo do Acre)

 
@fabiospontes 


Em meio a sua vastidão e características geográficas próprias, a Amazônia conta com dezenas de cidades isoladas, cujos acessos só são possíveis via fluvial ou aérea. O Amazonas com sua imensa extensão territorial é um bom exemplo disso, com a maior parte de seus 62 municípios inacessíveis por estradas. As viagens em embarcações que duram dias e semanas são as principais formas de integração social e econômicas entre estas cidades e, destas, com a capital Manaus.

Este isolamento, contudo, não é a garantia de proteção efetiva diante do avanço do novo coronavírus pelo país. O Amazonas é um dos estados com os maiores números de mortes e de pessoas infectadas pelo vírus, situação agravada pela carência de infraestrutura mais básica nestes municípios isolados, incluindo serviço de saúde de qualidade; a falta de leitos de UTI deixa o quadro ainda mais grave diante da necessidade de intubação dos pacientes mais graves. 

Aqueles que necessitam de cuidados mais intensivos precisam ser transportados em aeronaves para os hospitais de Manaus, cujas vagas nas UTIs já estão superlotadas.  Segundo dados da Secretaria de Saúde do Amazonas, 48,8% das contaminações estão no interior. O estado tinha até este domingo, 17, 20.328 casos confirmados, com 1,413 vidas perdidas.

Com 22 municípios, o pequeno Acre tem quatro municípios apontados como isolado e de difícil acesso. Jordão, Porto Walter, Marechal Thaumaturgo e Santa Rosa do Purus. Deles, os dois últimos já têm casos confirmados da Covid-19.

Assim como no Amazonas, estas quatro cidades acreanas isoladas carecem dos serviços públicos mais essenciais, sendo a ausência de unidades hospitalares de baixa ou média complexidade a mais comum. Com o fim do programa Mais Médicos, muitos municípios do interior da Amazônia ficaram sem cobertura médica básica. Mesmo com altos salários propostos pelos governos locais, muitos profissionais se recusam a morar em cidades isoladas no meio da Floresta Amazônica.

Com população estimada em 18.867 pessoas, Marechal Thaumaturgo tem confirmado, até agora, 11 casos da Covid-19. Em Santa Rosa do Purus são duas confirmações. Os dois municípios têm como característica a predominância de indígenas. Em Santa Rosa a maioria é de Huni Kuin (Kaxinawá), seguidos em menor quantidade pelos Madijah (Kulina). 

Já em Marechal Thaumaturgo os Ashaninka são maioria. Em 2016 a cidade elegeu seu primeiro prefeito Ashaninka, Isaac Piyãko. Eleito pelo MDB, agora está filiado ao PSD. Outras etnias a morar pelo município são os Arara e também os Huni Kuin. Estes últimos estão espalhados praticamente por todo o Acre, formando a maioria da população indígena acreana. Entre as infecções detectadas não há entre índios.

O registro de casos nestes municípios isolados preocupa não apenas pela falta de estrutura de atender a população no caso de um eventual surto, como também pela possibilidade de o vírus chegar até as aldeias. Em Marechal Thaumaturgo há o registro de transmissão comunitária. Apesar de a maioria dos indígenas cumprir isolamento social nas aldeias, há idas frequentes deles ao centros urbanos para a compra de alimentos ou sacar dinheiro em bancos ou agências lotéricas.

São estas idas às cidades comuns em toda a região que preocupam as autoridades sanitárias indígenas, pois há o risco de eles regressarem para suas comunidades contaminados sem saber, proliferando o vídeo entre os parentes. É o que vem acontecendo no Amazonas, estado com a maior infecção e mortes de indígenas pela Covid-19. Segundo os dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), o Brasil tem 23 mortes oficiais registradas por Covid-19 entre os povos indígenas, sendo 16 no Amazonas.

O maior registro (11) ocorre nas comunidades do Alto Rio Solimões.  O número de casos confirmados em todo o Brasil é de 371. No Acre só há um caso confirmado da doença entre sua população indígena; trata-se de um Huni Kuin, de 25 anos, morador de Santa Rosa do Purus, infectado em Rio Branco, epicentro do coronavírus no estado.

O vírus chegou até Marechal Thaumaturgo por meio de um comerciante que foi a Cruzeiro do Sul comprar mercadoria, e regressou infectado. As duas cidades estão no leito do rio Juruá. Após a confirmação da doença, o prefeito Isaac Piyãko decidiu fechar os portos do município., além da restrição dos voos. A medida também foi adotada pela vizinha Prefeitura de Porto Walter.

A restrição na chegada por vias aérea e fluvial já estava implementada por Jordão, de maioria Huni Kuin. Ambos os municípios não têm casos confirmados.   Localizado no Alto Rio Negro, São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, é o município com a maior população indígena do Brasil, acessível apenas por barco ou avião. Por lá, até ontem, eram 343 casos confirmados, com 12 óbitos; nem todos de índios. O Dsei do Alto Rio Negro registrou duas mortes.

Ao que se vê, o isolamento geográfico e a imensidão da Amazônia não são suficientes para se ficar a salvo do novo coronavírus. A melhor medida mesmo é o isolamento social para se evitar o surto da doença em regiões tão carentes e desassistidas pelo Estado brasileiro. Só assim há alguma chance de  sobrevida em meio à pandemia.

Leia também:

 

Coronavírus leva indígenas do Acre a "fechar aldeias" e interromper turismo   

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Vírus e fumaça na Amazônia

O vírus bolsonarista ameaça a Amazônia 

 

Área de floresta incendiada em 2019, no interior do Acre (Foto: Sérgio Vale)

 
O Brasil passa hoje por uma das piores crises dos últimos anos. Aliás, quando não estamos mergulhados em uma crise? Essa, porém, é, sim, uma das mais graves, pois lida diretamente com a vida. Milhares de brasileiros estão morrendo por conta da pandemia do coronavírus. Uma situação que afeta todos os países do mundo em menor ou maior grau, agravada aqui por um presidente tresloucado e que tenta boicotar - a todo instante-  as medidas sanitárias de contenção da doença.

Para ele, a prioridade deve ser salvar a economia e, consequentemente, sua reeleição em 2022. Não importa se vão morrer cinco ou vinte mil pessoas. Questionado sobre as mortes, sua resposta é o trágico “e daí?”.  Se Jair Bolsonaro demonstra não ter o mínimo apreço pelas vidas de seus cidadãos, o que dirá da preservação ambiental. 

Muito em breve o Brasil tende a entrar em uma outra crise, desta vez a ambiental (se bem que acredito nunca termos saído dela desde primeiro de janeiro de 2019). Mais algumas semanas teremos, com mais intensidade, o período de estiagem na Amazônia. Maio é o mês de transição do “inverno amazônico” para o verão amazônico”, ao menos na parte mais sul da Amazônia abrangendo Acre, Rondônia, sul do Amazonas e Pará e o norte do Mato Grosso. O pico da seca (e queimadas) é entre agosto e setembro.

A situação é preocupante diante do cenário de 2019 quando - incentivados pelos discursos e práticas do governo Jair Bolsonaro - criminosos ambientais agiram a torto e a direito destruindo a floresta, grilando terras públicas, invadindo terras indígenas e unidades de conservação, fazendo uma verdadeira mata a dentro - e isso para todo o planeta assistir horrorizado.

O país já sabia que o governo Jair Bolsonaro seria trágico para a área ambiental. Seus discursos de campanha em 2018 sinalizavam para o desmonte das políticas ambientais - o que de fato ocorreu. O primeiro passo foi escolher um ministro do Meio Ambiente cuja tarefa é desestruturar a já precária estrutura dos órgãos de fiscalização ambiental, praticamente destruindo o Ibama e o ICMBio.

Agora militarizado, o Instituto Chico Mendes teve sua estrutura ainda mais reduzida. As unidades de conservação que já vinham sendo invadidas e incendiadas por desmatadores, estarão mais expostas com a completa fragilidade nas ações de fiscalização e proteção. A desmatada Reserva Chico Mendes, no Acre, por exemplo, será “gerenciada” desde a chefia do ICMBio para o Norte em Santarém, no Pará, distante milhares de quilômetros daqui.

As estruturas dos órgãos ambientais também ficarão comprometidas com a crise do coronavírus, que obriga o governo a centralizar recursos na Saúde. Isso num governo que já vinha passando a tesoura no orçamento de todos as áreas da administração, seguindo a ordem de austeridade imposta por Paulo Guedes e o mercado financeiro.

A crise do coronavírus elevou o alerta de preocupação com a Amazônia em 2020, fazendo especialistas avaliarem que a situação tende a ser pior do que no ano passado. Para mostrar certa ação diante do mundo e não afetar os interesses do grande agronegócio, o governo já adota medidas para que o Brasil não ganhe o noticiário internacional com as imagens da floresta em chamas, o que levaria importantes mercados mundo afora a deixar de comprar a carne e soja brasileiras. 

Como de costume do governo Bolsonaro, a primeira atitude para não termos um replay de 2019 foi acionar as Forças Armadas para, novamente, atuar na “proteção da Amazônia” por meio de uma GLO (Garantia da Lei e da Ordem).

Bolsonaro acredita que a entrada do Exército no ano passado nas ações de combate aos crimes ambientais na região foi o motivo para a queda no número de queimadas. Os militares, porém, entraram em campo quando as primeiras chuvas do “inverno amazônico” davam o ar da graça.

É certo que na Amazônia o Exército é a instituição de Estado com melhores condições de atuar pelo seu efetivo e estrutura logística para se mover numa região de precária infraestrutura. E a ação de soldados usando um fuzil Parafal também deixa os delinquentes ambientais um pouco mais intimidados, impedindo-os de agredirem e matarem fiscais do Ibama e ICMBio.

O fato é que, diante de todas as práticas do atual governo de desmonte da política ambiental, não tem “soldado universal” que salve a Amazônia da catástrofe. Além dessa fragilização, o governo Jair Bolsonaro fomenta atos criminosos, legalizando o que é ilegal, fazendo valer a velha máxima de que o “crime compensa”. Isso numa região em que, muitas das vezes, o que vale é a lei do mais forte, a lei da bala.

Exemplo disso é a chamada “MP da Grilagem”, que legaliza a posse de terras da União invadidas por grileiros e latifundiários; É o Estado tornando legal práticas criminosas feitas contra si próprio. São uma série de afrontas usando instrumentos legais (como uma Medida Provisória) para incentivar o crime.

Enquanto isso, as populações tradicionais da floresta veem seus territórios sendo invadidos por delinquentes crentes de que não sofrerão nenhuma punição. Dessa forma, a maior floresta tropical do mundo vai perdendo mais e mais áreas naturais, transformadas em campos para o gado e a soja.

E nós, aqui nos cantos mais esquecidos e abandonados deste país, vamos sofrendo com as consequências de um presidente insano. Logo o fogaréu na Amazônia vai começar. Além de precisarmos proteger nossos pulmões de um vírus mortal, teremos que resguardá-lo da fumaça, do ar poluído em meio a uma temperatura alta e umidade baixa. Cenários propícios para se desenvolver doenças respiratórios em meio a uma pandemia do coronavírus.

Tomara que todos estes prognósticos apocalípticos não passem disso: um prognóstico. Que possamos, muito em breve, acordar deste pesadelo e quem sabe, um dia, a Amazônia saia do noticiário policial. Enquanto sociedade estaremos aqui de olho em cada movimento; lutando para sobreviver ao coronavírus, e denunciando o que de ilegal e criminoso for praticado contra a floresta e sua população.


terça-feira, 12 de maio de 2020

Coronavírus e indígenas

Liderança e médica indígena negam surto da Covid-19 em aldeia do Acre 



Profissionais de saúde do Dsei do Alto Juruá realizam atendimento em aldeia dentro da TI Campinas/Katukina (Foto: Divulgação)

@fabiospontes

Distante menos de 50 km da sede urbana de Cruzeiro do Sul - a segunda maior cidade do Acre - a Terra Indígena Campinas/Katukina tem sido motivo de preocupação constante das autoridades de saúde indígena por conta do fluxo constante de seus moradores entre as aldeias e a cidade. O município, segundo o último boletim epidemiológico da Secretaria Estadual de Saúde, tem 85 casos confirmados da Covid-19; nenhum entre indígenas.

Para o vírus se proliferar pelas zonas rurais do entorno não é difícil, incluindo as terras indígenas. A ligação rodoviária entre cidade e a Campinas/Katukina deixa seus quase 900 moradores ainda mais expostos. Apesar de todas as recomendações das autoridades sanitárias e das lideranças do território, muitos Katukina insistem em ir a Cruzeiro do Sul alegando a necessidade de resolver problemas pessoais.

Até uma barreira sanitária colocada na entrada da TI, e que tinha profissionais de saúde e militares do Exército para coibir a permanência de não-indígenas dentro das aldeias, foi retirada após muitas reclamações deles. A barreira foi colocada próximo a uma comunidade rural, a Santa Luzia.

A preocupação com os Katukina atingiu seu nível máximo durante o fim de semana, quando passou a circular uma mensagem de voz por grupos de WhatsApp de uma das lideranças da Ti relatando um possível surto da Covid-19 dentro das aldeias.

“Infelizmente essa doença chegou até a nossa aldeia, mas como o pajé falou, ela não é o coronavírus que está na cidade, é outro tipo de coronavírus, mas está sendo muito forte aqui dentro da aldeia. 80% das pessoas da Terra Indígena Campinas Katukina estão doentes”, diz a voz do homem que se identifica como Vina Katukina.

Leia também: Localizada às margens de rodovia, território dos Katukina é o mais exposto ao coronavírus no Acre



O indígena afirma ter ficado uma semana em repouso na rede sem “poder receber atendimento médico e tomar remédio”, sendo tratado apenas pela “medicina da floresta”. Ele relata que a doença tem acometido crianças e idosos, além de os Katukina estarem passando por dificuldades como a falta de remédios e alimentos.

Vani Katukina chega a afirmar que dois indígenas Huni Kuin, de Santa Rosa do Purus, morreram por causa da Covid-19. No Acre não há registros de mortes de indígenas pelo novo coronavírus, apenas um caso confirmado.

O blog conseguiu conversar, via mensagem de voz de WhatsApp, com o cacique-geral da TI Campinas/Katukina, Fernando Katukina. Ele negou todas as informações, e disse que não há nenhum registro de contaminação entre seu povo. “Até esse momento não há nenhum registro de óbito nem de resultado positivo. Dizer que os katukina estão passando fome, desassistidos, isso não procede”, afirma.

“Enquanto liderança tenho andado de aldeia em aldeia conversado com o nosso povo sobre os cuidados para se ter neste momento de pandemia.” Segundo o cacique, muitas famílias deixaram de morar nas casas localizadas mais perto da rodovia e estão nas aldeias mata adentro. Fernando Katukina relata que a doença que hoje afeta alguns moradores da TI é uma gripe comum. “Os nossos idosos e idosas estão sadios, só os mais jovens que estão pegando [a gripe].”

Aline Diniz Nawa é médica indígena e trabalha para o Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) do Alto Rio Juruá, que atende a TI Campinas/Katukina. Ela nega a existência de casos confirmados da Covid-19 entre a população Katukina.   “Nós não temos nenhum caso positivado naquela região, não temos nenhum óbito, nada parecido com o que o parente está falando”, diz ela, também em mensagem de voz espalhada como tentativa de acalmar os ânimos entre a população indígena do Juruá.

“O que o parente colocou no áudio dele simplesmente não é verdade. Não existe outra forma de dizer isso. Eu quero que todos fiquem tranquilos, fiquem nas aldeias, mantenham-se o mais distante possível da cidade”, recomenda a médica. Mesmo com todas estas orientações, muitos Katukina insistem em ir com frequência a Cruzeiro do Sul. “Apesar de todo o nosso esforço para evitar que eles saiam, eles acabam saindo.”

Para os profissionais de saúde que atuam dentro da TI, estas indas e vindas dos indígenas entre as aldeias e Cruzeiro do Sul são a principal ameaça para a entrada do coronavírus no território. “A possibilidade do vírus chegar a essas aldeias é muito grande . O que retardr e o que previne de o vírus chegar é o comportamento dos próprios indígenas”, diz Iglê Monte, coordenadora do Dsei Alto Juruá.

Segundo ela, uma equipe formada por médicos e enfermeiros está dentro da TI todos os dias da semana. Monte afirma que os Katukina são os que apresentam maior resistência em seguir as orientações de isolamento social, enquanto outras populações indígenas do Vale do Juruá permanecem isolados em suas aldeias para evitar a contaminação.

sábado, 9 de maio de 2020

Ameaça concreta

Acre tem primeiro caso da Covid-19 entre população indígena



Santa Rosa do Purus, município com elevada população indígena Huni Kuin, fica às margens do rio Purus (Foto: Gleilson Mirada/Governo do Acre)


@fabiospontes

Em meio ao salto no número de casos da Covid-19 no Acre nos últimos dias, a doença também atinge os povos indígenas do estado. O primeiro contágio confirmado é de um Huni Kuin de 25 anos morador de Santa Rosa do Purus, um dos quatro municípios acreanos isolados, cujo acesso só é possível via fluvial ou aérea.

A confirmação do caso foi feita pela Secretaria Estadual de Saúde (Sesacre) em seu boletim diário. Procurada, a coordenadora do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) do Alto Rio Purus, Carla Mioto Niciani, não respondeu aos questionamentos da reportagem até o momento.

Com uma das maiores populações indígenas do Acre - sendo parte dela moradora do centro urbano - Santa Rosa do Purus é banhada pelo rio Purus, um dos mais importantes da Bacia Amazônica. Os Huni Kuin (também conhecidos como Kaxinawá) formam a maioria da população indígena do município, localizado na fronteira com o Peru.

Segundo informações do portal G1 Acre, o indígena teria se contaminado com o novo coronavírus em Rio Branco. A capital é o epicentro da doença no estado. Ele morava na capital desde o início do ano onde pretendia obter formação em técnico de enfermagem. Às vésperas de fazer a matrícula, foram iniciadas as medidas oficiais de distanciamento social.

O indígena voltou na última quarta-feira, 6, para Santa Rosa em um voo de uma empresa de táxi-aéreo, com outros nove passageiros. Na quinta, fez o teste rápido e deu positivo. Todos os demais passageiros e pilotos foram colocados em isolamento. O Huni Kuin mora no perímetro urbano do município, não em aldeias.

Segundo a Secretaria de Saúde, o indígena é um infectado assintomático, ou seja, que não desenvolveu os sintomas da Covid-19. Os seus familiares também não apresentam sintomas, e estão em observação.  

Segundo levantamento do Instituto Socioambiental (ISA) sobre o impacto do novo coronavírus na população indígena do Brasil, o Dsei Alto Rio Purus teve quatro casos já descartados da Covid-19. O outro Dsei que atende o estado, o do Alto Rio Juruá, não teve nenhum. Entre indigenistas e lideranças indígenas locais há uma grande queixa quanto à atuação do Dsei Alto Purus.

Um dos casos mostrados pelo blog é o dos Jaminawa de Sena Madureira, que, sem assistência, precisaram voltar às pressas para suas aldeias antes de alguém ser infectado. Informações dão conta de que a situação de abandono da população continua a mesma.

O atendimento da saúde indígena no Acre é de responsabilidade destes dois distritos: o do Alto Rio Purus e o do Alto Rio Juruá. A principal preocupação na região da Bacia do Juruá é com os Katukina, cuja terra indígena - a Campinas Katukina - é cortada ao meio por 18 km da BR-364. A proximidade com Cruzeiro do Sul leva muitos indígenas a insistir em estar pela cidade, ficando expostos ao coronavírus. A cidade já tem 46 casos confirmados da doença.

Enquanto isso, outras comunidades indígenas vão reforçando suas medidas de isolamento social, como os Yawanawa da TI do Rio Gregório e os Ashaninka do rio Amônia. Essa semana os Yawanawa eles construíram uma cerca sobre o rio impedindo a entrada e saída de pessoas. A ordem das lideranças é para se evitar ao máximo o contato com o meio urbano.

A medida se faz necessária diante do alto risco de letalidade do vírus caso se prolifere nas comunidades indígenas, que sofrem com a falta de assistência médica por parte do governo federal. Os dados do ISA apontam que, até o momento, 15 índios já morreram vítimas da Covid-19 no país. Já os casos confirmados são de 206, sendo a maioria no Amazonas, um dos estados mais impactados pela pandemia.

O Dsei do Alto Rio Solimões tem 100 confirmações da doença, com nove mortes. Os dois outros Dseis com mais casos são os de Manaus (25) e  Parintins (20), também do Amazonas.  

terça-feira, 5 de maio de 2020

Há uma cerca no meio do rio...

Contra pandemia, Yawanawa fecham o rio Gregório e fazem ‘lockdown’ na floresta



Cerca feita de troncos de árvores foi colocada de uma margem à outra do manancial; “vamos fechar a nossa casa. Não sai ninguém, não vem ninguém”, diz liderança em entrevista ao blog

 

Com pinturas e armas de guerra, Yawanawa observam embarcações no rio Gregório (Foto: Gleilson Miranda/2014)


@fabiospontes

A Aldeia Sagrada é a última entre as oito do povo Yawanawa dentro da Terra Indígena do Rio Gregório, no município de Tarauacá, no Acre. Encontra-se distante e isolada do restante de um mundo que sofre, a cada dia, com as consequências da pandemia do novo coronavírus, entre elas a fila de corpos de suas vítimas fatais. O isolamento geográfico na Floresta Amazônica agora representa uma vantagem para os Yawanawa e outros povos indígenas. Afinal de contas, o distanciamento social é a principal recomendação das autoridades mundiais de saúde para se evitar o contágio.

Muitos indígenas, contudo, precisam ir às cidades para resolver problemas e comprar suprimentos. Estas idas e vindas aos centros urbanos são vistas como perigosas diante do risco de entrarem em contato com alguém infectado e, sem saber, voltar para as aldeias com o vírus no organismo - o que seria uma tragédia para estas populações, já marcadas por um passado de mortes em massa provocadas por doença e as violentas “correrias” dos tempos dos seringais na Amazônia. 

Para descartar qualquer possibilidade de o coronavírus entrar em suas terras, os Yawanawa tomaram uma decisão radical: bloquearam o rio Gregório; ninguém sai, ninguém entra. O “lockdown” da floresta ocorre nos acessos às duas últimas aldeias: a Nova Esperança e a Sagrada, localizadas já no Alto Rio Gregório, próximo às cabeceiras. Usando troncos de árvores, os indígenas ergueram cerca de uma margem à outra do rio, impedindo a passagem das embarcações.   

São quase 370 pessoas vivendo na Nova Esperança - que é a aldeia central e a mais populosa - e a Sagrada. Eles decidiram reforçar as medidas de isolamento, visando, sobretudo, a proteção dos mais antigos e dos portadores de doenças crônicas. Das duas comunidades para rio acima só há muita floresta virgem, com registro da passagem de índios isolados alguns anos atrás. A região também fica próxima à fronteira com o Peru. 

“Para nós, perdermos nossos velhos é como perder nossos arquivos sagrados. Nós vamos queimar nossos museus. Vamos perder nossa memória, ficar um povo sem história”, diz Biraci Yawanawa, o Bira, liderança máxima da Nova Esperança e Aldeia Sagrada. Os idosos estão entre as principais vítimas fatais da Covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus.

Bira reconhece que o lockdown do rio Gregório terá impactos sérios na vida das duas comunidades, como a dificuldade de acesso a combustível para os geradores usados para fazer funcionar as bombas dos poços com água potável e a compra de munição usada na caça de subsistência. Outra dificuldade será no acesso a ferramentas e insumos para o preparo dos roçados. Com a chegada dos meses do “verão amazônico”, as comunidades tradicionais da Amazônia se preparam para preparar o solo da agricultura.

Em entrevista ao blog por WhatsApp (há acesso à internet na Aldeia Sagrada), Bira diz que, com o rio Gregório fechado, os Yawanawa vão reaprender o modo de vida dos ancestrais que viviam exclusivamente na e da floresta.

Práticas como a caça e a pesca serão feitas com mais intensidade nestes dias de distanciamento do “mundo civilizado”. Dessa forma estará garantida a segurança alimentar dos Yawanawa, além de assegurar que os efeitos da pandemia do coronavírus fiquem apenas nas notícias que recebem via redes sociais nas telas de seus celulares. A liderança também comentou sobre o atual momento vivido pelos povos indígenas com o governo de Jair Bolsonaro (sem partido).


Leia a entrevista:

Como foi essa decisão do povo Yawanawa de fechar o rio Gregório?

Bira:
Não diferente de outros povos indígenas que nós estamos vendo o resultado da pandemia, como no Amazonas e em Roraima, onde já chegou essa doença, nós também estamos vulneráveis. No nosso caso é mais delicado porque vivemos na cabeceira do rio, sem nenhum acompanhamento de médico, sem assistência. Se um vírus desse chegar aqui vai acabar com o nosso povo, principalmente os que estão no grupo de risco. Nós temos muitos diabéticos em nossa aldeia, pessoas com problemas de pressão alta, com asma. Nós temos nossos velhos e nossas velhas. Para o mundo dos brancos eles podem não representar nada, mas os velhos, para nós, são arquivos vivos, são nossos museus da nossa essência, da nossa cultura. Essa é uma situação muito séria que pode provocar um colapso dentro da nossa terra. A única coisa que eu, enquanto liderança, poderia fazer é dizer: Não! Basta! Vamos fechar nosso rio. Não sobe [o rio] mais ninguém. Decidimos fechar o rio por pelo menos 30 dias, até o fim de maio. Se nossa família de outras aldeias também não adotar essa medida séria, nós vamos ficar por tempo indeterminado, até que haja uma solução para essa doença, uma vacina.


Como será ficar todo este tempo sem poder ir à cidade? Muitos itens alimentares vocês precisam buscar lá, como o feijão, o arroz, açúcar, café. Como garantir a segurança alimentar nas aldeias?

Bira:
Sei que podemos passar por muitas necessidades porque já estamos acostumados a obter nosso material, nosso instrumento de trabalho. Já estamos na época de fazer os roçados. Não vamos poder comprar as ferramentas, além da munição para poder caçar, a gente trazer alimento para casa, gasolina que compramos para puxar água nos poços que precisam do gerador. Tudo vai faltar, eu sei disso. Mas meus ancestrais já viveram assim no passado e tenho certeza que vou sobreviver com o meu povo, e sem essa doença aqui dentro. Ela não vem sozinha, alguém tem que trazer. Portanto vamos fechar a nossa casa. Não sai ninguém, não vem ninguém. Nós vamos ficar assim até termos a segurança de poder voltar a receber outras pessoas.


Os Yawanawa foram pioneiros em desenvolver o turismo dentro das aldeias. Como está essa atividade agora?

Bira
: Nós, Yawanawa, sempre vivemos por conta própria. Nós não temos projetos com governo federal, estadual ou municipal, com ONGs. Sempre toda vida foi isso, receber grupos de pessoas, Nós criamos o Festival Yawanawa, criamos as Vivências atraindo pessoas do mundo inteiro, do Brasil. Com isso temos comprado as nossas necessidades, temos montado a nossa estrutura. Mas nós suspendemos tudo isso por tempo indeterminado. E se isso [Covid-19] não tiver cura, nós não vamos ter mais [o turismo]. Mas eu estou feliz porque pelo menos agora nós vamos poder voltar para dentro de nossa casa, estudar nossas medicinas, valorizar nossos remédios da floresta. Vamos ficar mais tempo nas aldeias para cuidar do nosso povo, viver em família.


Para o povo Yawanawa, qual a importância de se proteger os mais velhos?

Bira
: Para nós, perder nossos velhos, é como queimar nossos arquivos sagrados. Vamos queimar nossos museus, vamos perder nossa memória, ficar um povo sem história se nossos velhos morrerem. Essa doença tem matado muitos velhos. E para proteger nossos velhos, a nossa história, nós tomamos essa decisão. Ela pode ser radical, mas é o único instrumento que eu tenho para garantirmos um novo amanhecer depois da Covid-19.


Este isolamento mais radical vai forçar, digamos assim, os Yawanawa a retomar seu modo de vida ancestral em relação à segurança alimentar. Sem poder ir à cidade, terão que reforçar a prática da caça e da pesca. Os mais jovens certamente serão os mais impactados. Como a comunidade lidará com isso?

Bira: Como diz um tio meu, não há mal que não traga um bem. Esse momento difícil que a humanidade está passando nos faz conectarmos com a nossa essência. Nós somos um povo conhecedor de muita medicina. Quando apareceu esses remédios da indústria da farmácia, dos hospitais, nós esquecemos todo o nosso conhecimento. Viramos preguiçosos de nosso saber da floresta. Agora precisamos nos reconectar com o nosso saber, nosso conhecimento, com a nossa ciência. Para mim é um momento de repensar toda a nossa história. Amanhã não será mais o mesmo dia de hoje para toda a Humanidade. É um tempo de reconectar com nosso mundo espiritual. Eu estou num lugar chamado Aldeia Sagrada, onde houve o primeiro contato do Yawanawa com o homem branco. A minha geração foi de muito sofrimento, de ter que trabalhar para o seringalista, depois ser evangelizado pelos missionários protestante, depois ter de lutar pelo direito à terra. Hoje nossos jovens não têm mais isso. Eles estão vendo, sentindo os efeitos desta pandemia, o susto, o medo, o pânico. Os jovens Yawanawa estão vivendo a segurança que a nossa floresta oferece. Nós vivíamos aqui recebendo gente do mundo inteiro, e muitas das vezes viajando por todos os continentes. Mas agora tenho que parar para pescar, para plantar. Agora é um tempo de voltarmos para casa.


O senhor mora numa das regiões mais extremas e longínquas do país. É guardião de uma imensa área de floresta intacta. Desde a Aldeia Sagrada, qual a avaliação o senhor faz das atuais políticas (ou a falta delas) do atual governo brasileiro para os povos indígenas?


Bira:
Este é um governo que eu não sei nem assim comentar, comparar com outros presidentes, nem com os presidentes da ditadura. Nem os presidentes da ditadura foram tão carrascos como este atual governo. Isso ocorre descaradamente, assumido internacionalmente. Estamos vendo a aceleração no desmatamento, a invasão das terras indígenas, os assassinatos de lideranças indígenas importantes do Brasil. Nós estamos aqui simplesmente protegendo um bem da humanidade, deste país, e nós estamos sendo assassinados por isso. Não somos reconhecidos por isso. Nós não temos um único programa social voltado para a dignidade dos povos indígenas, não temos um programa de saúde, de respeito, que nos dê segurança e atenção. Nós não temos nada. Somos tratados como miseráveis, infelizmente. Mas nós somos os guardiões que guardamos este tesouro que é a floresta, e ela pertence ao Brasil. Somos brasileiros que cuidamos do Brasil e não somos respeitados. 
 

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domingo, 19 de abril de 2020

Um povo, uma estrada, várias ameaças

Localizada às margens de rodovia, território dos Katukina é o mais exposto ao coronavírus no Acre

 

Aldeia do povo Katukina localizada às margens da BR-364; rodovia e proximidade com cidade deixam indígenas mais vulneráveis a contato com vírus (Foto: Fabio Pontes/2019)

@fabiospontes


Se a grande maioria dos indígenas acreanos está relativamente protegida da contaminação pelo coronavírus por estar “confinada” dentro de suas aldeias em locais distantes e de difícil acesso, o mesmo não se pode dizer do povo Katukina. Por ter toda a extensão leste-oeste de seu território tradicional cortado pela BR-364 - no trecho em Cruzeiro do Sul - os Katukina estão sujeitos a todo tipo de impacto causado por uma rodovia, incluindo contato com pessoas portadoras do novo vírus.

Com uma área de 33 mil hectares, a Terra Indígena Campinas/Katukina está localizada a pouco menos de 60 km da sede urbana de Cruzeiro do Sul, a segunda maior cidade do Acre. Se em tempos passados essa proximidade poderia ser vista como vantajosa pelos próprios Katukina, neste momento de pandemia ela se mostra perigosa para um povo já marcado por uma história de violências e deslocamentos forçados - chegando bem perto do quase desaparecimento.

Para evitar que os Katukina sejam vítimas de contágio pelo coronavírus, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) afirma desenvolver um plano de contingência específico para a TI Campinas/Katukina. Essa atenção maior ocorre por causa da maior exposição provocada pelo traçado da BR-364, que conecta a região à capital Rio Branco. Ao todo, 18 km da rodovia cortam o território dos Katukina, com as aldeias estando bem próxima das margens.

Segundo dados do Instituto Socioambiental (ISA), 700 pessoas vivem dentro da TI. Para garantir mais segurança aos moradores, no trecho da rodovia em seu interior foram construídos vários quebra-molas para que os motoristas sejam obrigados a não exceder na velocidade. Em tempos de não isolamento social, é possível encontrar os Katukina andando às margens da rodovia em deslocamento entre as aldeias, sobretudo as que dispõem de escolas e postos de saúde.


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Por estarem próximos da cidade, os Katukina também costumam ir a Cruzeiro do Sul com frequência para sacar seus benefícios sociais nos bancos, e fazer as compras do mês nos supermercados.  

O Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) do Alto Juruá é o responsável por garantir os atendimentos de saúde ao povo. Segundo Iglê Monte, coordenadora do Dsei Alto Juruá, por conta da pandemia essa mobilidade precisou ficar restrita para evitar contágios. Oficialmente, Cruzeiro do Sul tem apenas dois casos confirmados da Covid-19. De acordo com dados da Secretaria Estadual de Saúde, até este sábado, 18, a cidade tinha 62 casos notificados, sendo 37 descartados e outros 23 em análise.

“A Campinas/Katukina é uma de nossas maiores preocupações e prioridades. Estamos tendo um monitoramento rigoroso. Temos um profissional nosso na barreira sanitária na saída da cidade onde está o pessoal da secretaria de Saúde e o Exército. Nós temos uma equipe todos os dias dentro da terra indígena com médico, enfermeiros e técnicos”, diz Iglê Monte, coordenadora do Dsei Alto Juruá.

Os Katukina que de fato mais precisam ir a Cruzeiro do Sul para a compra de alimentos recebem orientações e são supervisionados. Aqueles que ficam muito tempo longe das aldeias ficam em quarentena de sete dias e são consultados por uma infectologista antes de voltar para casa.

O povo Katukina e a BR-364

A história mais recente dos Katukina está intrinsecamente ligada à da BR-364. Eles próprios ajudaram na construção da rodovia no início da década de 1970. Era neste período que o regime militar brasileiro (1964-1985) iniciava sua política de desenvolvimento para a Amazônia, sendo a abertura de estradas uma das principais dela. A mais emblemática é a Rodovia Transamazônica, que tinha como promessa integrar a região ao restante do país, proporcionando “progresso” em meio à falência da economia extrativista.

Além do Acre, na Amazônia Legal, a BR-364 também passa por Rondônia e Mato Grosso. São 4.230 km entre Limeira (SP) e Mâncio Lima, a cidade no extremo Oeste do Brasil, localizada ao lado de Cruzeiro do Sul. Sua construção dentro do Acre foi feita pelos militares do 7o Batalhão de Engenharia de Construção (BEC), do Exército; hoje o batalhão está sediado em Rio Branco.

Após passarem por vários seringais dos Vales do Juruá e Tarauacá oferecendo sua mão-de-obra aos seringalistas entre a primeira e o início da segunda metade do século passado, os Katukina foram trabalhar na abertura da BR-364, fazendo a derrubada das árvores que estavam no traçado. Foi a forma de sobrevivência que eles encontraram à época. Como uma espécie de recompensa, eles foram autorizados pelo Exército a fixar moradia às margens da rodovia.

Para a antropóloga Edilene Conffaci de Lima, que assinou, em 2001, a Revisão do Componente Indígena do Estudo de Impacto Ambiental (EIA-RIMA) da BR-364, ao ocupar aquela área os Katukina apenas regressaram para uma terra que tinham morado no passado, de onde foram expulsos nos tempos das “correrias”.

Assim ficou conhecida a violenta expulsão dos indígenas de suas terra pelos seringalistas, que os vinham como ameaça e empecilho em seu processo de exploração da borracha na Amazônia. Indígenas eram torturados e mortos pelos capatazes dos seringalistas. Os Katukina - assim como todos os outros povos indígenas - também morriam por causa de doenças contraídas neste contato com os não índios.

Os que sobreviveram, fugiram para áreas mais remotas, longe da violência do homem branco. Uma delas foi a região do rio Gregório, em Tarauacá. Até hoje os Katukina têm aldeias por lá, formando, junto com os Yawanawa a Terra Indígena do Rio Gregório.

Quando escolheram ocupar as margens da rodovia, diz o estudo de Conffaci, os Katukina tinham como objetivo vender sua produção na cidade, além de poder ir a Cruzeiro do Sul comprar os alimentos industrializados. No começo moravam em uma única aldeia localizada mais para dentro da mata, próximo ao rio Campinas. Com a falência completa dos seringais no início da década de 1980, eles se dividiram em aldeias mais próximos da rodovia passando a desenvolver atividade mais agrícola.

Foi por este tempo que se iniciou o processo de demarcação da terra indígena, sendo ela homologada apenas em 1993. Também durante a década 1990 teve começo as obras de pavimentação da BR-364 entre Rio Branco e Cruzeiro do Sul. Esta obra foi concluída por completa durante os 20 anos dos governos petistas no Acre. Estima-se que mais de um R$ 1 bilhão foi gasto na obra, com algumas denúncias de corrupção. Outras duas TIs estão sob área de influência da rodovia: a Kaxinawá da Colônia 27, em Tarauacá, e a Katukina Kaxinawá, em Feijó.

Dos mais de 600 km entre as duas maiores cidades do estado, só restou floresta intacta justamente no trecho onde está a Terra Indígena Campinas/Katukina. No restante o que antes era mata nativa agora são grandes fazendas de gado. Na Amazônia, as estradas são apontadas como as grandes propulsoras do desmatamento. Os Katukina do Acre, contudo, mantiveram protegido seu território mesmo com as ameaças constantes proporcionadas por uma rodovia pavimentada. A entrada de invasores para a prática da caça ilegal é a mais comum delas.

Após um longo período de sofrimento e direitos violados ao longos das últimas décadas, que o governo brasileiro, agora, em meio a uma pandemia, consiga garantir a proteção e saúde do povo Katukina. Para eles, esta proteção é mais do que uma garantia, é um dever do Estado.


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domingo, 12 de abril de 2020

Povo Jaminawa: ameaças sem fim

Sem assistência, Jaminawa que vivem nas cidades voltam para aldeias sem fazer exames


Outros indígenas ainda continuam morando em situação de vulnerabilidade em bairros da periferia de cidades acreanas, com maioria das aldeias em áreas não demarcadas, Jaminawa vão para cidades evitar conflitos com invasores.



Jaminawa moradores da TI da Cabeceira do Rio Acre partem após consultas médicas em aldeia; área de 79 mil ha é uma das poucas demarcadas. Maioria vive em aldeias sem reconhecimento pelo governo (Foto: Jardy Lopes/2019)

@fabiospontes

Ao menos 100 pessoas do povo Jaminawa que vivem na cidade de Sena Madureira (distante 143 km da capital do Acre, Rio Branco) voltaram para suas aldeias de origem sem passar por exames que detectassem a presença do novo coronavírus. Com medo de serem infectados, os Jaminawa decidiram fazer este movimento de retorno por iniciativa própria, praticando o isolamento social dentro das comunidades localizadas às margens dos rios Yaco, Purus e Caeté. A única ajuda oficial foi por meio da Fundação Nacional do Índio (Funai), que forneceu recursos para a compra do combustível das embarcações; a verba, porém, foi insuficiente.

O problema é que, sem os indígenas terem passado por avaliação médica ou ficado em quarentena antes das viagens, não se sabe se algum deles está com o vírus, vindo a desenvolver a Covid-19, infectando os demais nas aldeias. Oficialmente, pelos dados da Secretaria Estadual de Saúde, Sena Madureira não tem casos confirmados de contaminação; houve 19 notificações, sendo 16 descartadas; outras três ainda estão em análise.  Segundo o IBGE, o terceiro maior município do Acre tem uma populaão estimada de 45,8 mil pessoas.

“A nossa preocupação é que as pessoas estão indo [para as aldeias] sem nenhum diagnóstico, se estão indo com o vírus ou não. Se chegar alguém lá infectado vai atingir as outras pessoas”, diz José Correia Jaminawa, 65 anos, liderança do povo Jaminawa em Sena Madureira. Ele conversou com a reportagem por telefone. 

Como a maioria dos indígenas que retornou não tem mais casa nas aldeias por morarem na cidade já há algum tempo, eles vão dividir espaço nas moradias dos “parentes”. Por se tratar de famílias numerosas – com muitos filhos -, manter a regra do distanciamento social para evitar possíveis contágios será quase impossível. Pessoas recém-chegadas das cidades estão dividindo o mesmo espaço de quem escolheu morar nas aldeias.

A liderança diz saber dos riscos que este retorno em massa sem passar por avaliações médicas representa, mas que é a única solução necessária no momento antes que o coronavírus se propague pela cidade. Ao ir ao polo do Dsei pedir ajuda, a única orientação dada foi para que eles fossem embora, ou seja, retornassem para as aldeias.

“A nossa preocupação é essa, mas eu não tenho outra solução. Aqui o polo [do Desei] não tem médico. Já há os médicos em Sena Madureira são poucos para atender tanto o público geral quanto nós. O meu medo é esse, que eu estou carregando esse pessoal para esconder e se no meio for alguém infectado? Aí vai acabar com o nosso povo”, afirma a liderança Jaminawa.

Para agravar a situação, os Jaminawa não terão assistência médica dentro das comunidades neste período de isolamento por o polo do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) do Alto Purus estar praticamente parado. “Só há os enfermeiros que a única coisa que fazem é encaminhar o pessoal para o hospital da cidade”, diz José Correia.

Os Deis são coordenados pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), que, por sua vez, está subordinada ao Ministério da Saúde.  A liderança Jaminawa também é o coordenador técnico regional da Funai em Sena Madureira, cujo escritório está em processo de fechamento. A região é de responsabilidade da Coordenação Regional do Alto Purus, sediada em Rio Branco.

A situação dos indígenas acreanos que estão sob a coordenação do Alto Purus contrasta com os da Coordenação Regional do Alto Juruá, responsável pelas populações que vivem nos municípios dos Vales do Envira/Tarauacá e Juruá. Além de ter levado os indígenas que estavam nas cidades de volta para suas aldeias, o Dsei obriga aqueles que estavam fora a passar por uma quarentena antes do retorno.


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Sem demarcação, sem segurança 

O recurso que ele obteve para levar seu povo de volta às aldeias (R$ 3,5 mil) foi repassado pelo órgão indigenista. O dinheiro não foi suficiente por causa da distância das comunidades, o que demanda uma grande quantidade de gasolina. Em Sena Madureira o preço médio do combustível é de R$ 5 o litro. Nas comunidades ribeirinhas da Amazônia, a gasolina é tão valiosa quanto o ouro. Ter alguns litros – em casos emergenciais – faz a diferença entra a vida e a morte.

Outra demanda apontada por ele é o envio de cestas básicas, já que a produção de alimentos nos roçados não é suficiente para atender toda a demanda. Até o momento não há sinalização para o envio deste auxílio para as aldeias.

Nos centros urbanos, os Jaminawa se encontram em situação de alta vulnerabilidade social, morando em bairros carentes de qualquer tipo de infraestrutura, sobretudo saneamento básico. Outro problema é a violência marcada pela guerra entre as facções criminosas. A maior parte depende de programas de transferência de renda - como o Bolsa Família - ou as aposentadorias do INSS. Outros obtêm renda com trabalhos provisórios (os bicos). 

O principal motivo a empurrar os Jaminawa para a cidade é a não demarcação das terras onde ficam as suas aldeias, o que provoca conflitos com invasores. Entre elas está a Terra Indígena Jaminawa do Rio Caeté e a Caiapucá, que se encontram em fase de identificação desde 2007, segundo dados do Instituto Socioambiental (ISA). “Nenhuma terra aqui é demarcada, e com essa política do governo brasileiro de não demarcar mais nenhum pedaço de terra piorou ainda mais”, lamenta a liderança.

O não reconhecimento destes territórios faz com que os indígenas entrem em conflitos com invasores, em especial madeireiros de olho nas imensas áreas de floresta preservada. A região de Sena Madeireira é bastante rica em madeiras nobres. Nos mais de 100 quilômetros da BR-364 até Rio Branco é intenso o tráfego de caminhões com toras.

Os Jaminawa se espalham pela parte leste do Acre e vivem em outras duas áreas já demarcadas. São elas a Terra Indígena Cabeceira do Rio Acre e a Terra Indígena Mamoadate. Esta última é a maior em extensão do Acre, com 314 mil hectares. Eles a dividem com outro povo, os Manxineru.

As duas TIs estão em outro extremo de onde ficam os Jaminawa de Sena Madureira. Mamoadate e Cabeceira do Rio Acre ficam no município de Assis Brasil, fronteira com o Peru. O acesso entre as duas cidade (Sena Madureira e Assis Brasil) se dá pelo rio Yaco, manancial que fica em péssimas condições de navegação nos seis meses de estiagem.



Vulneráveis nas cidades 

“Os Jaminawa se dividem entre Assis Brasil, Brasileia, Sena Madureira e Rio Branco porque eles têm um intenso trânsito entre os centros urbanos e as suas aldeias. Até já chegaram a ser vistos como problemáticos, viviam em situação de mendicância. Eles não têm a mesma organização dos índios do Juruá, em torno de uma associação como é o caso dos Ashaninka ou dos Yawanawa. Eles têm uma grande divergência interna. Cada aldeia tem uma liderança”, explica a antropóloga Fátima Ferreira, que trabalhou por três anos com os Jaminawa.

Historicamente, diz ela, José Correia Jaminawa é a principal liderança do povo, que está em maior quantidade na região de Sena Madureira. Há outras famílias que vivem em bairros da periferia de Rio Branco, Brasileia e Assis Brasil. Em Brasileia, fronteira com a Bolívia, há dois bairros formados pelos Jaminawa.

A principal preocupação dela é justamente com os que ainda estão nas cidades, mais expostos à contaminação pelo coronavírus. Quanto mais tempo eles ficam nos centros urbanos, mais dificultoso será o processo de retorno para as comunidades sem antes fazer os testes da Covid-19.

Apesar da grande densidade populacional indígena em Sena Madureira, Fátima diz que a falta de estrutura do Dsei Alto Purus e o fechamento do escritório da Funai representam a completa ausência do poder público em auxílio a estas populações. “O Estado abandonou os Jaminawa à própria sorte. Eles não têm política nenhuma de assistência na Saúde.”

Com este vácuo do poder público, comenta ela, pastores evangélicos passaram a ser referência para os indígenas. O problema é que os líderes religiosos da cidade negam a existência do coronavírus, enquanto outros dizem ter a cura para doença provocada por ele.

José Correia Jaminawa agora busca ajuda para conseguir comprar combustível e levar as 12 famílias que ainda estão em Sena Madureira, além da compra das cestas básicas. Ele próprio conta os dias e as horas para voltar à aldeia. A liderança espera apenas por recursos para a compra da gasolina e a saída de sua filha de um hospital de Rio Branco.  José Correia também quer ter a garantia de que “todos os parentes” possam retornar em segurança para as comunidades de origem.

Desassistidos pelo governo brasileiro, os próprio Jaminawa tiveram que agir para escapar da contaminação do novo coronavírus. Estar longe dos centros urbanos e voltar para as aldeias é, neste momento, a melhor opção. A incapacidade do Estado de realizar um simples exame pode, contudo, transformar uma solução em problema.    

A reportagem não conseguiu contato com as coordenações regionais da Sesai e da Funai do Alto Purus. 


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terça-feira, 7 de abril de 2020

Aldeias protegidas

Exame para Covid-19 dá negativo em indígena Huni Kuin do Acre

Indígenas em embarcação às margens do rio Tarauacá; exame descartou Covid-19 em Huni Kuin que esteve no México (Foto: Fabio Pontes/2014)

@fabiospontes


A Secretaria de Saúde do Acre confirmou na manhã desta terça-feira, 7, que o resultado do exame para detecção do coronavírus em um indígena da etnia Huni Kuin deu negativo. Ele era apontado como o primeiro caso suspeito entre a população indígena do estado por ter feito uma viagem recente ao exterior e ter apresentado sintomas da Covid-19, como a falta de ar.

O caso chamou a atenção no fim de março por a prefeita de Tarauacá, Marilete Vitorino (PSD), ter exposto a situação do Huni Kuin, queixando-se das autoridades de Saúde de Rio Branco por ter permitido a viagem de uma pessoa suspeita de estar infectada, e por não ter feito a quarentena. Segundo a prefeita, ele  teria saído fugido da UPA de Rio Branco, o que a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) nega.

O Huni Kuin de 44 anos mora em uma aldeia no município de Jordão.  Sua etnia também é conhecida como Kaxinawá, sendo a mais populosa entre os povos indígenas do Acre.

A Sesai e a Fundação Nacional do Índio (Funai) reprovaram a forma como a prefeita tratou a situação, expondo o indígena a uma situação de constrangimento. Para as duas instituições, o comportamento estigmatiza e provoca ainda mais atitudes preconceituosas contra a população indígena.

De acordo com Iglê Monte, coordenadora do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) do Alto Juruá, ele deixou a UPA do Segundo Distrito (unidade indicada pela Secretaria de Saúde como referência para os casos da Covid-19), em Rio Branco, após receber o atestado médico de que não possuía sintomas da doença causada pelo novo coronavírus. A declaração foi assinada no dia 20 de março.

O Kaxinawá saiu de sua aldeia em Jordão no começo de fevereiro. Entre o dia 5 de fevereiro e 3 de março ficou no México. Ao voltar para o Brasil, esteve por quase 15 dias entre Santa Catarina e o Paraná, onde sentiu dores de cabeça e falta de ar por ser asmático. No dia 20 de março chegou a Rio Branco, procurando atendimento médico na UPA.

O indígena seguiu os procedimentos corretos ao procurar a unidade hospitalar por ter feito uma viagem ao exterior. Após receber a alta médica, ele seguiu viagem para Tarauacá (distante 408 km da capital) e, de lá, pretendia ir para Jordão, cujo acesso só é possível via fluvial ou aérea. Porém, por recomendação da Sesai, precisaria ficar em quarentena antes de voltar para a comunidade.

Enquanto cumpria seu isolamento social no hotel, o indígena voltou a sentir falta de ar, o que o levou a procurar o hospital de Tarauacá. Ao expor seu histórico de viagem mais a dificuldade de respirar, foi logo colocado como suspeito da Covid-19. O resultado do exame, porém, deu negativo. Segundo a coordenadora do Dsei Alto Juruá, a falta de ar foi provocada pela asma.

Entre os povos indígenas da Amazônia brasileira, já há quatro casos confirmados de contaminação pelo novo coronavírus. Segundo a agência Amazônia Real, o primeiro teste positivo ocorreu no primeiro dia de abril. Trata-se de uma indígena de 20 anos da etnia Kokama, do Amazonas, que teve contato com um médico da Sesai que estava infectado. Ela é Agente Indígena de Saúde.De acordo com o jornal O Globo, outros três familiares dela também contraíram a a Covid-19.

No Acre, os povos indígenas decidiram ficar numa espécie de autoisolamento dentro de suas comunidades para evitar o contágio. As aldeias estão fechadas para a entrada de não-indígenas. A Funai também proibiu este acesso. A ordem das lideranças indígenas é que ninguém entra e ninguém sai até que a pandemia passe.


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segunda-feira, 30 de março de 2020

A ideologia do coronavírus

O governador do Acre, Gladson Cameli (PP), tem se queixado com frequência do que ele classifica como politicagem que está ocorrendo em torno do coronavírus no estado. A crítica é mais do que pertinente. De fato o momento exige deixar todas as desavenças partidárias-ideológicas de lado para, unidos, enfrentarmos uma situação que – queira Deus não – caminha para ser catastrófica num estado pobre e carente como o Acre.

Mas vamos aos fatos, senhor governador, que tem conduzido de forma acertada as ações do Estado para conter o coronavírus, apesar de ter cedido a pressões de setores do empresariado. Se há alguém fazendo politicagem com a crise do coronavírus essas pessoas estão dentro de seu próprio governo, e o senhor sabe muito bem disso.

A oposição tem sido muito cordial com vossa excelência. Lógico que uma pequena parte dela (isolada) tenta usar a situação para atingir o Palácio Rio Branco, o que deve ser condenável. No mais, líderes partidários e parlamentares oposicionistas abriram mão do embate político para unir esforços na mitigação da pandemia por aqui. O problema maior parece estar no próprio quintal de Cameli.

Dias atrás a parentela do vice-governador, Major Rocha (PSDB), estava nas ruas de Rio Branco fazendo uma “adesivaço” contra o senador Sérgio Petecão (PSD) – aliado do governador e que muito pode ajuda-lo em Brasília enquanto primeiro-secretário do Senado Federal. O foco do clã Rocha está apenas nas eleições que talvez ocorram ou não este ano e nas de 2022. Aliás, o major da Polícia Militar parece ser a pessoa menos qualificada para lidar com situações de crise.

Desaparece quando a guerra entre as facções criminosas se acirra no estado, e agora na do coronavírus também tomou um chá de sumiço. Espero que esteja em alguma feira de armas para liquidar este vírus comunista. E eis aqui outro ponto: cargos comissionados nomeados por Gladson Cameli estão nas redes sociais espalhando a mentira de que quem trouxe o coronavírus para o Acre foram os petistas.

Isso tudo porque os primeiros casos notificados no estado terem surgido a partir de uma reunião de petistas em Capixaba. Ora, os dois primeiros registros da Covid-19 foram de pessoas que estiveram em compromissos fora do Acre, sobretudo em São Paulo, o epicentro da doença no Brasil.

Outra estratégia dos aliados do governador é espalhar que os 20 anos de governos petistas no Acre deixaram a Saúde pública um caos. Todos sabem que fui um dos jornalistas mais críticos ao petismo acreano desde que comecei na profissão, no fim do segundo mandato de Jorge Viana (1999-2006). Ter feito tal trabalho não me leva ao arrependimento, pois sigo os princípios de um jornalismo crítico e investigativo. Mesma postura que mantenho agora em relação ao governo do PP.

Mas aqui vale um ponto: a estrutura de Saúde deixada pelos governos do PT foi bem melhor do que aquela recebida por eles em 1999, após quatro anos do governo Orleir Cameli, tio de Gladson. E aqui não vou apontar o dedo para ninguém em respeito à memória do ex-governador já falecido e por este não ser o momento. Mas quem é acreano sabe como estavam nossos hospitais ao fim da década de 1990.

Lógico que a gestão petista na Saúde não foi a mais perfeita do mundo. Contudo, estamos falando de um estado em praticamente toda a população depende do SUS para suas necessidades médicas. Manter este sistema funcionando em perfeição é um desavio que ninguém ainda encontrou. Quem sabe agora com os gênios e paladinos da ética à frente do sistema possam oferecer ao povo do Acre uma saúde pública de primeiro mundo que foi prometida e não entregue pelo PT.

Os cargos comissionados, no afã de manter suas boquinhas no governo, acusam os petistas de malversação e corrupção na gestão da Saúde, o que resultou na deficiência atual do Acre em lidar com a Covid-19. Falam sem apresentar provas e esquecem que, em pouco mais de 14 meses no poder, já há denúncias de corrupção contra o governo, esta na área da Educação, com desvio da merenda escolar. Portanto, antes de apontar o dedo para os outros, olhem para o próprio umbigo.

Portanto, o governador Gladson Cameli está certíssimo em criticar a politicagem estúpida que fazem no trato desta pandemia, e precisa dar a ordem para seus aliados pararem de falar porcarias e espalhar fakes News pelas redes sociais. Elas poderiam ser usadas de uma forma bem melhor, como conscientizar as pessoas sobre a importância de manter o distanciamento social, reduzindo os efeitos catastróficos do novo coronavírus. Os exemplos que temos mundo afora não são nada bons.