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domingo, 11 de outubro de 2020

A mudança para pior

 Mudanças climáticas e políticas comprometem futuro da Amazônia - e dos amazônidas 


A cada dia que se passa, nós moradores da Amazônia, sentimos os efeitos das mudanças climáticas em nosso cotidiano. As temperaturas que já são altas de janeiro a dezembro estão cada vez mais elevadas. Para piorar, as chuvas ficam mais raras. É um clima quase de sertão na maior floresta tropical do mundo. Isso, por si só, desequilibra todo o ecossistema da região, agravada pela intensificação da ação humana. As alterações do clima, aliadas às políticas que fragilizam a proteção ambiental, fazem aumentar as dúvidas sobre a sobrevivência da Amazônia e seus 25 milhões de habitantes nas próximas décadas.

E aqui, neste canto do planeta chamado Acre, temos sentido muito os impactos das mudanças do clima e da aceleração  do processo de destruição da floresta ocasionado por um novo grupo político que assumiu os rumos do estado em 2019, carregando o que há de mais velho no pensamento político-econômico. Enquanto sofremos com um clima mais quente e seco em pleno período de transição para o “inverno amazônico”, os satélites do Inpe não deixam de captar o crescimento dos focos de queimadas. 

Este é o pior ano em uma década no registro de fogo em território acreano. Já superamos até 2010, visto como o mais crítico no período. Assim como agora, há dez anos enfrentávamos os efeitos de uma alteração do clima ocasionado pelo aquecimento do oceano Atlântico. Conhecido pela sigla em inglês AMO, seu efeito é reduzir a quantidade de chuvas na região sul da Amazônia. 

Entre 1 de janeiro a 10 de outubro de 2010, o estado teve 8.338 focos de queimadas. Agora, em mesmo intervalo de tempo, são 8.673. O que mudou de lá para cá? Quem ocupa a cadeira de governador. Naquele 2010 o Acre era governado por Arnóbio Marques de Oliveira Júnior, o Binho Marques (PT). Militante petista dos tempos de Chico Mendes e Marina Silva nos seringais, Binho deu continuidade à política de florestania implementada pelo antecessor, Jorge Viana (PT). 

Entre um dos objetivos dessa política estava a proteção da floresta contra o avanço da ação humana. Uma década depois, o Acre é governado por Gladson de Lima Cameli, cujo endereço partidário atual é desconhecido. Em 2018 foi eleito pelo Progressistas prometendo fazer do agronegócio a locomotiva da economia acreana, sepultando a florestania dos tempos petistas. 

Sua principal promessa para o setor era flexibilizar as regras ambientais do estado e tirar a fiscalização realizada pelo Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac) do pescoço de quem queria produzir no campo. Em março de 2019, já como governador, Cameli declarou - em um ato público - que ninguém mais precisava pagar as multas do Imac “porque agora quem está mandando sou eu”. 

O resultado está aí: o Acre passou a quebrar recordes atrás de recordes quanto ao desmatamento e as queimadas. Em 2019 a área de floresta que veio a chão foi a maior da década. Em 2020, o rastro do fogo em solo acreano também já é o pior. Os efeitos das modificações no comportamento do clima ficaram agravadas pela mudança do ambiente político que estimula e deixa na impunidade quem agride a natureza. 

O governo nega que estimule tais práticas. Mostra que atua no combate aos crimes contra o meio ambiente. Apresenta até um centro integrado de gerenciamento, o Cigma. Ao mesmo tempo recebe em seu gabinete parte do setor ruralista insatisfeito com a atuação do Imac, cobrando a flexibilização da lei ambiental prometida na eleição de 2018. Cameli responde que trabalha para reduzir a burocracia, e o fogo vai ardendo pela zona rural.     

Todo este componente também é piorado com o cenário político em Brasília, cujo presidente e seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, trabalham para a boiada passar sem o mínimo pudor. O desmonte do Ibama e ICMBio tem impacto devastador para a proteção da Amazônia, incluindo até as unidades de conservação que, em tese, deveriam estar livres desta degradação. 

A Reserva Extrativista Chico Mendes, no sudeste acreano, é a que mais queima hoje na região. Já são mais de mil focos dentro da unidade, fragilizada por falta de políticas do governo estadual e federal para o fomento à economia de base florestal. 

Enquanto a borracha e a castanha se desvalorizam, o boi fica a cada dia mais competitivo. O resultado é a transformação   dos seringais em pasto.  E ainda tem o efeito do projeto de lei (PL 6024) da deputada Mara Rocha (PSDB) e do senador Márcio Bittar (MDB) que desafeta áreas da Resex para beneficiar seus maiores desmatadores. 

O clima está mudando. Não me lembro de ter passado por um outubro com temperaturas tão quentes como nestes dias. Nesta época deveríamos estar convivendo com as primeiras chuvas de nosso inverno. Contudo, elas estão raras. As chuvas estão caindo em quantidade cada vez menor e num intervalo de tempo mais curto. Com isso, a floresta perde umidade; os rios ficam em níveis críticos. 

Na contramão, o fogo não para de se expandir. Fogo que, diga-se, é resultado não da ação da natureza, mas do homem. O homem que agora se sente respaldado pelo governador e pelo presidente para transformar a floresta em pasto, crente de que não será punido.  A “punição” passou a ser um tal Programa de Regularização Ambiental (PRA) que, na prática, não é cumprido pela grande maioria dos produtores. Ninguém quer saber de recompor a floresta desmatada, reduzir o pasto.

Com estes dois fatores atuando ao mesmo tempo - um clima diferente e a política de “passar a boiada” - aumenta-se o ceticismo sobre o futuro da maior floresta tropical do mundo, essencial para se manter a sobrevivência humana. Para justificar sua política do agronegócio, o governador do Acre disse que é fácil falar em preservação da Amazônia “quando se tem que colocar comida na boca de 26 milhões de amazônidas”. 

A se manter este ritmo de devastação da floresta, caro governador, não saberemos quantos amazônidas vão entrar em sua contabilidade para garantir comida nos próximos anos. Não dá para sobreviver sem as chuvas que alimentam nossos rios e irrigam o grão plantado pelo homem do campo. Sem floresta não há vida. Essa é a equação.     

        


quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Fumaça internacional

Na tríplice fronteira, Acre tem até oito vezes mais registros de queimadas em 2020 


Área queimada em fazenda às margens da BR-317, que interliga o Acre à Bolívia e ao Peru (Foto? Jardy Lopes/2019)


@fabiospontes 

Além de passar a não dar o melhor dos exemplos em termos de preservação da Amazônia dentro do Brasil desde o ano passado, o Acre também é boa referência na tríplice fronteira com a Bolívia e o Peru. Dos três estados que formam a região conhecida pela sigla MAP - Madre de Dios (Peru), Acre (Brasil) e Pando (Bolívia), o estado brasileiro foi o campeão em registro de focos de queimadas em 2020, tendo até oito vezes mais casos do que os vizinhos. 

De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que monitora o fogo no MAP, o Acre teve, entre 1 de janeiro a 6 de outubro, 8.062 focos de queimadas. Logo em seguida está Madre de Dios, com 1.524 focos, e Pando com 1.346 focos. Sozinho, o Acre representou 73% do total das queimadas captadas pelos satélites do Inpe na tríplice fronteira. 

Este protagonismo do estado no uso do fogo para limpeza de roçados ou áreas com recente desmatamento desmistifica o argumento usado ao longo dos últimos anos de que a fumaça inalada pelos acreanos é oriunda das queimadas nos países e estados vizinhos. Em agosto, o Acre superou até Rondônia e Mato Grosso na quantidade de focos. De possíveis importadores de fumaça tóxica, o Acre passou a exportar ar poluído para a vizinhança. 

Em setembro do ano passado, produzi reportagem especial mostrando os impactos das queimadas na Amazônia formada por Brasil, Peru e Bolívia. Naqueles tempos sem pandemia era possível ir de um lado ao outro da fronteira; agora elas estão fechadas e sem previsão de reabertura. Já em 2019 o Acre também era o grande patinho feio na preservação da floresta entre os três países. 


Leia a reportagem especial: 


O Fogo sem Fronteiras 


domingo, 4 de outubro de 2020

Uma história de resistência

Pandemia e os povos indígenas sete meses depois


Ti Kampa do Rio Amonea, do povo Ashaninka; isolamento e modo tradicional de vida evitam chegada do coronavírus (Foto: Agência Acre) 



@fabiospontes


O Brasil chega ao sétimo mês de efeitos da pandemia do novo coronavírus. Até este começo de outubro são mais de 145 mil vidas perdidas para a Covid-19. O número poderia ser bem menor se o país tivesse contato com uma política e estratégia nacionais de enfrentamento ao problema. Porém, desde o começo, lá em março, o governo de Jair Bolsonaro atuou para boicotar todas as medidas sanitárias adotadas por governos estaduais e prefeituras para conter o contágio. 

Preferiu tratar a doença como uma “gripezinha” cujas mortes não iam passar de 800. Ultrapassamos mais de 100 mil em seis meses, com o genocídio podendo ter sido bem maior caso as lideranças locais tivessem seguido o mesmo caminho do presidente da República.  

A pandemia não fez distinção de raça, credo, condições financeiras ou localização geográfica. O coronavírus chegou até as comunidades mais isoladas e remotas da Amazônia, como as aldeias indígenas. Os índios brasileiros ficaram ainda mais vulneráveis diante de uma política claramente anti-índigena adotada pelo governo desde janeiro do ano passado. 

Não sabemos ao certo quantos deles perderam a vida ou foram contaminados pela nova doença. O governo deixa de fora da contabilidade oficial os casos de indígenas que moram nas cidades, considerando em suas estatísticas apenas os aldeados. Mesmo assim, também se trata de um dado impreciso diante da incapacidade do estado levar atendimento de saúde de qualidade às comunidades em locais de difícil acesso, esquecidas do restante do país.    

De acordo com dados da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), em todo o país estima-se em 837 índios mortos pela Covid-19, com 34.816 contaminados. São 158 diferentes povos afetados. Destes números, segundo a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), 670 mortes ocorreram aqui na região. O número se explica por a Amazônia ter a maior população indígena do país. 

No Acre, ainda conforme a entidade, são 27 mortes e 2.161 casos confirmados. Há registros de casos entre 14 das 16 etnias do estado. Desde o começo acompanhei o impacto do coronavírus entre os 24 mil indígenas acreanos que, além de sofrerem com a ineficiência do governo federal, ainda sentem o desprezo do governo local, deixando para agir apenas em agosto, e mesmo assim de forma atabalhoada. 

Para relembrar toda essa situação de março para cá, fiz uma seleção das principais reportagens publicadas aqui no blog sobre o tema. Foi e tem sido uma cobertura desafiadora. Toda apuração ocorre a distância, via telefone, conversando com as lideranças via WhatsApp desde suas aldeias nas localidades mais distantes do estado. Foi assim com a liderança Bira Yawanawa. Das cabeceiras do rio Gregório, em Tarauacá, ele contou como os Yawanawa adotaram um lockdown da floresta, construindo uma cerca no rio para controlar a entrada e a saída das embarcações.  

Não fossem essas medidas simples de autoisolamento adotadas pelos líderes, o impacto da Covid-19 entre as comunidades indígenas teria sido bem maior em toda a Amazônia. Outra medida de resultado foi recorrer à medicina tradicional, produzindo chás a partir das infinitas folhas e raízes da floresta. Muitos daqueles que apresentaram sintomas da doença foram tratados apenas com os chás e as rezas dos pajés. 

A preservação das tradições e conhecimentos seculares destes povos da Amazônia nunca se mostrou tão importante como agora. Infelizmente, parte desta memória foi perdida com a morte dos mais velhos e velhas. Agora, aos jovens cabe a missão de manter vivo tudo aquilo que aprenderam. Somente assim vão ter a sabedoria necessária para estes tempos de resistência a ataques promovidos por aquele que deveria protegê-los.   


Confira    


Coronavírus leva indígenas do Acre a "fechar aldeias" e interromper turismo


Sem assistência, Jaminawa que vivem nas cidades voltam para aldeias sem fazer exames





























quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Áreas (nem tão) protegidas

Com desmonte do ICMBio, áreas protegidas da Amazônia têm aumento de queimadas 


Flona Jamanxim e Resex Chico Mendes lideram o ranking do fogo no bioma; as duas unidades são alvo de projeto de desafetação e pressões políticas locais  


Floresta derrubada e queimada em seringal da Resex Chico Mendes, em Xapuri, campeã do fogo em 2019 e vice em 2020 (Foto: Fabio Pontes/2019)


@fabiospontes

Com a continuidade do processo de desmonte das estruturas dos órgãos ambientais conduzido pelo governo Jair Bolsonaro, os registros de focos de queimada dentro de unidades de conservação na Amazônia aumentaram em 2020. Entre janeiro e setembro deste ano foram detectados 3.953 focos nas áreas protegidas federais dentro do bioma.  A quantidade é 20% superior à registrada em igual período de 2019, com 3.290 focos. A Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, no Acre, e a Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim, no Pará, se revezam nas duas primeiras posições entre as unidades mais afetadas pelo fogo. Em 2020 a UC paraense ficou na primeira posição, com 882 focos. 

Após ser a campeã das queimadas em 2019, a Resex Chico Mendes ficou em segundo, com 667 focos; ano passado foram 784 pontos. Os dados são do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A prática do queima nestas áreas tem como objetivo principal a ampliação de áreas para a criação de boi. Há uma grande pressão das fazendas de gado no entorno. 

Vale ressaltar que, além de sofrer com o desmonte dos órgãos que deveriam protegê-las, as duas unidades são pressionadas por interesses políticos locais para reduzir suas áreas, a chamada desafetação, para beneficiar o setor da agropecuária. 

Em novembro do ano passado a deputada federal Mara Rocha (PSDB-AC) apresentou  projeto de lei (PL 6024) que retira de dentro da Resex Chico Mendes as áreas de moradores que transformaram os antigos seringais em médias e grandes fazendas de gado. Dois deles já foram condenados pela Justiça para deixar a reserva, mas recorrem da decisão. 

Sem previsão de a matéria ser votada pela Câmara, a deputada tem pressionado a presidência do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) para que essas áreas deixem de integrar a Resex. A tucana diz agir em nome de “pequenos produtores rurais” que já desenvolviam a agropecuária antes da UC ser criada, em março de 1990. 

Este é o mesmo argumento usado por quem quer diminuir o tamanho da Flona do Jamanxim, assim como também houve o trabalho de pressão política sobre o ICMBio. Em sentença de 2018, a Justiça Federal proibiu o órgão de definir novos limites para a Jamanxim, o que só pode ser feito com aprovação do Congresso Nacional. Desde 2017 o PL 8107, que modifica os limites da Flona Jamanxim, tramita pela Câmara. 

Além da Resex Chico Mendes, o PL 6024 ainda atinge o Parque Nacional da Serra do Divisor, localizado em uma das áreas mais bem preservadas da Amazônia. O objetivo é fazer com que a unidade deixe de ser um parque e se transforme numa Área de Proteção Ambiental (APA), cujas regras de proteção são bem mais flexíveis. 

O efeito da proposta já é sentido com o aumento dos registros de queimada. Até setembro foram 104 focos dentro do parque; em igual intervalo de tempo do ano passado o Inpe registrou 60 focos. O Parque da Serra do Divisor está, até aqui, entre as 10 unidades de conservação da Amazônia mais impactadas pelo fogo. 

Há ao menos dois meses a gestão da unidade é feita de forma cumulativa; além do parque, o servidor do ICMBio ainda precisa dar conta de duas reservas extrativistas: a do Alto Juruá e a Riozinho da Liberdade. Somente a Serra do Divisor tem  uma área de 837 mil hectares. A Resex do Alto Juruá é a sétima entre as 10 mais queimadas em 2020 na Amazônia, com 126 focos. 

O ICMBio é o órgão responsável pela gestão das unidades de conservação do país e, assim como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), passa por um acelerado processo de desestruturação pelo governo Bolsonaro. 

No Acre, o ICMBio conta apenas com oito funcionários concursados; destes, seis atuam diretamente nas 11 unidades de conservação federais do estado. Este acúmulo de áreas protegidas nas mãos de um único chefe faz parte da nova estrutura desenhada pelo Ministério do Meio Ambiente, que acabou por fragilizar ainda mais a atuação.  Cada estado antes contava com uma coordenação regional. Essa estrutura foi extinta, e toda a gestão das UCs no Norte é feita a partir do escritório em Santarém, no Pará. 

Na terra de Chico Mendes o instituto ainda tem seis cargos comissionados (DAS), alguns deles nas chefias das UCs, mais estagiários e os brigadistas contratados para atuar apenas nos meses das queimadas. Como atestam os números do Inpe, o trabalho deles não foi suficiente para apagar o fogo alimentado pelo desmonte da política ambiental brasileira promovido pelo governo Bolsonaro. 


Leia mais: PL da bancada da motosserra acelera degradação da Resex Chico Mendes 

domingo, 27 de setembro de 2020

A rodovia da destruição (mais uma)

Cruzeiro do Sul/Pucallpa: uma rodovia de resultados econômicos duvidosos, mas de  danos sociais e ambientais concretos 



Parque Nacional da Serra do Divisor: UC será impactada por rodovia e é alvo de PL que o transforma em APA (Foto: Fabio Pontes/2019)


@fabiospontes 

A semana que passou foi de muita ambiguidade e confusão no governo acreano de Gladson Cameli (partido indefinido, outra confusão) no que diz respeito à questão ambiental. Aliás, ambíguo e confuso são os dois atributos da atual gestão em todos os setores. Enquanto na quarta Cameli recebia a visita do vice-presidente, Hamilton Mourão, para mostrar as ações desenvolvidas pelo Acre no combate ao desmatamento que não para de crescer, no fim de semana a agenda com ministros de Jair Bolsonaro (sem partido) foi para tratar de projeto que pode ser visto como um dos mais desastrosos para a proteção da Amazônia - não só a brasileira. 

Ao lado do ministro caçador de unicórnios Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e de Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional), Cameli cumpriu agenda em sua cidade natal, Cruzeiro do Sul, para tratar do projeto de interligação rodoviária da capital do Juruá - como é conhecida - com a cidade peruana de Pucallpa, departamento de Ucayali.  

Caso de fato saia do papel, a rodovia terá seu traçado passando dentro daquela que pode ser considerada uma das últimas áreas mais bem preservadas da Amazônia no continente. E isso não é uma hipérbole. Na Bacia do Rio Juruá também está concentrada uma das maiores concentrações em biodiversidade do Planeta Terra, como atestam estudos científicos. Por ali há espécies ainda desconhecidas pela Humanidade. 

Aquela densa selva amazônica dos dois lados da fronteira é a casa para dezenas de povos indígenas contactados e daqueles que optaram por viver em isolamento voluntários. Ao se olhar de cima por imagens de satélite toda a região de rios, serras e floresta que separa Cruzeiro do Sul de Pucallpa, tem-se uma dimensão do impacto que uma rodovia pode ocasionar. Como sabemos, as estradas são o principal vetor de expansão da destruição da Amazônia - e não importa em qual lado da fronteira elas estejam. 

Até agora não se tem o projeto concreto do traçado da rodovia, prometido para ser entregue até o fim do ano pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit). A rodovia tem como principal entusiasta o líder da bancada da motosserra, o senador bolsonarista e ex-marxista Márcio Bittar (MDB). Junto com a deputada federal Mara Rocha (PSDB), Bittar é autor do Projeto de Lei 6024 que transforma o Parque Nacional da Serra do Divisor em Área de Proteção Ambiental (APA), cujas regras de preservação são bem mais brandas do que um parque. 

A unidade de conservação está justamente no caminho da rodovia. O PL foi apresentado com a justificativa de eliminar a barreira legal para a construção da rodovia. Todavia, o decreto de criação do parque (de 16 de junho de 1989) já previa a possibilidade da passagem de uma estrada por aquelas bandas. 

O verdadeiro interesse em rebaixar a Serra do Divisor para APA é a de explorar as suas riquezas da superfície e subterrâneas, incluindo o gás xisto. Bittar também é entusiasta da atividade minerária e extrativa das pedras que compõem aquele cenário de serras que separam o Brasil do Peru.  

Ao que tudo indica, o entusiasmo pela estrada Cruzeiro do Sul/Pucallpa se dá de forma mais intensa muito mais (e talvez apenas) do lado de cá da fronteira. Pucallpa não precisa nem um pouco desta interligação com o Acre, por já possuir rodovias que a conectam com todo o Peru. E, sejamos sinceros, não temos nada a oferecer para o mercado de Ucayali.   

Até o momento não se sabe qual seria o empenho do governo peruano em também tocar o projeto. A agenda do chanceler Ernesto Araújo aqui foi o sinal da disposição de Brasília em iniciar as negociações diplomáticas com Lima. A dúvida é saber até onde os vizinhos estariam dispostos a tirar alguns milhões de soles de seu orçamento para bancar o empreendimento. 

A rodovia da integração entre Acre e Peru construída na primeira década dos anos 2000 teve praticamente toda a sua construção arcada pelo governo brasileiro. Estaria o posto Ipiranga com disposição para liberar alguns milhões e até bilhões de reais para um empreendimento de resultados econômicos questionáveis? 

Lá de cima percebe-se que os peruanos estão totalmente de costas para a fronteira amazônica com o Brasil, muito mais voltados para sua relação histórica com o oceano Pacífico. Para Cruzeiro do Sul a estrada também não demonstra trazer grandes benefícios, pois o município está conectado ao restante do Brasil pela BR-364. 

A interligação com o Pacífico é o principal argumento dos atuais líderes acreanos para defender a ligação rodoviária de Cruzeiro do Sul com Pucallpa, apresentando como a grande redenção econômica do estado. Apresentam tal argumento como se fosse a descoberta da pólvora, a invenção da roda. Contudo, o Acre já tem uma conexão com os portos peruanos por meio da Rodovia Interoceânica, ou a Carretera del Pacífico, que até hoje também não nos trouxe a redenção econômica tão prometida por seus idealizadores (os petistas). 

Portanto, não existe nenhum argumento lógico do ponto de vista ambiental, econômico e logístico para uma rodovia cujo único legado seria a devastação de um dos últimos santuários da Amazônia. Já não bastasse as consequências de uma política desastrosa para a proteção da maior riqueza acreana, o governo Gladson Cameli atua para bancar uma estrada que ligaria o nada a lugar-nenhum. 

“Vai ser uma esculhambação total. Não vai ter controle de nada. A expansão das margens de desmatamento vai ocorrer de maneira intensa. Se hoje o órgão ambiental [ICMBio] não tem controle, imagine com uma estrada. Vai ser pura especulação fundiária. Isso vai servir para facilitar a invasão de terras públicas”, disse Miguel Scarcello, secretário da SOS Amazônia em entrevista ao blog em julho. 

O governo Gladson Cameli proporcionaria muito mais desenvolvimento e garantiria a “comida na boca dos amazônidas” - como ele próprio afirmou essa semana - se investisse em políticas públicas de valorização dos produtos florestais tão abundantes no Vale do Juruá e tão subestimados. Garantir mercado e preço a estes produtos é assegurar renda e qualidade de vida para milhares de acreanos que vivem na floresta sem ser preciso destruí-la para colocar boi ou soja. 

Ao invés de querer privilegiar o grande agronegócio que beneficia apenas um punhado de ruralistas, Cameli deveria centrar esforços para fortalecer a agricultura familiar, que é quem realmente coloca comida na boca dos amazônidas. Indo no sentido contrário, prefere deixar como legado projetos que contribuem para acelerar a devastação da mais importante floresta tropical do Planeta. 



Imagem de satélite mostra a separação entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa, formada por uma selva intocada - até agora (Fonte: Google Earth)



quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Uma resposta à altura

Temos o cuidado para o fogo não entrar na floresta, diz liderança indígena 


Desde que os biomas brasileiros passaram a sofrer com o desmatamento e as queimadas recordes a partir de sua chegada ao Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem preferido transferir a responsabilidade pelo caos para os outros. Enquanto ele e seu ministro da destruição do Meio Ambiente, Ricardo Salles, atuam para desmontar a estrutura dos órgãos ambientais do país, a estratégia é responsabilizar setores da sociedade pela atual tragédia ambiental brasileira. 

Em 2019 a opção foi culpar as ONG’s; agora em 2020 os povos indígenas e as demais populações tradicionais da Amazônia e do Pantanal passaram a ser alvo dos discursos presidenciais. De acordo com Bolsonaro, as atuais queimadas registradas nos dois biomas é resultado do fogo feito em roçado por indígenas e pequenos produtores que sai do controle e adentra na mata fechada. 

Não é novidade para ninguém que os povos indígenas fazem uso do fogo para limpeza de seus roçados. Detentores de uma relação ancestral com o fogo, eles sabem como poucos fazer o uso controlado para evitar, justamente, aquilo de que são acusados agora. 

“Ele não conhece a realidade da população indígena. Não conhece o trabalho que a gente faz no roçado. Nunca esteve numa aldeia para saber como nós queimamos um roçado”, diz Ismael Shanenawa, agente agroflorestal indígena da aldeia Shane Kaya, da Terra Indígena Katukina/Kaxinawá, no município de Feijó (AC). 

“A gente vem aprendendo isso de geração em geração. O meu avô, o meu pai, que derrubam um roçado, a gente faz uma queimada controlada. A gente sabe queimar, não deixa o fogo espalhar. A gente tem o maior cuidado quando vai tocar fogo para ele não se espalhar pela floresta”, ressalta ele. 

A pedido do blog, Ismael gravou este vídeo com o depoimento sobre como o povo Shanenawa faz o uso da queima para preparo do solo, além de comentar as atuais afirmações do presidente da República. 


Assista: 





Nota: Dos 151 mil hectares de áreas queimadas no Acre entre o fim de julho até o dia 19 de setembro, apenas 1% está dentro de terras indígenas, conforme levantamento do Laboratório de Geoprocessamento Aplicado ao Meio Ambiente (Labgama), da Universidade Federal do Acre. Já dos 6.553 focos de queimadas detectados pelo Inpe entre agosto e 24 de setembro, somente 179 foram dentro de terras indígenas, que correspondem por 14,56% do território acreano. Ou seja, o impacto dos indígenas no ambiente é mínimo.    


terça-feira, 22 de setembro de 2020

Análise

 Os governos militares são um desastre para a Amazônia 


As falas e as práticas dos integrantes do alto escalão (todos oriundos dos quartéis) do atual governo brasileiro atestam: os militares na condução dos rumos políticos do Brasil representam um verdadeiro desastre na proteção da Floresta Amazônica. Foi assim no passado durante os 20 anos de ditadura resultante de um golpe em 1964, e agora no governo democraticamente eleito de Jair Bolsonaro, que não tem muita afeição pela democracia. 

Desde o retorno dos militares ao Palácio do Planalto no início do ano passado, a Amazônia - e todos os demais biomas - voltou a registrar níveis recordes de desmatamento e queimadas. Não que os comandantes das Forças Armadas sejam os responsáveis diretos pela atual devastação ambiental do Brasil, mas sim seu comandante-em-chefe, o presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, um militar dono de uma carreira bastante questionável nos quadros do Exército. 

Bolsonaro tem uma posição claramente contrária à proteção dos recursos naturais do país, bem como das populações tradicionais que vivem nestes biomas. Sua visão é a do desenvolvimento a todo e qualquer custo, nem que para isso tenha que passar a boiada. 

A sua eleição e consequente chegada ao Planalto foi a libertação tão desejada por aqueles que se sentiam reprimidos pelos órgãos ambientais durante os governos passados, e se sentem à vontade para cometer os mais variados crimes aqui na região - da grilagem de terras públicas à ampliação dos garimpos -  convictos de que têm o respaldo do líder máximo da nação. 

Tanto assim que uma das principais práticas do governo Bolsonaro é o desmonte de órgãos como Ibama e ICMBio. O resultado está aí para o mundo todo ver e se aterrorizar. As duas atitudes do governo para lidar com a situação são a de 1) colocar a culpa pelo caos nas costas das comunidades tradicionais e 2) recorrer aos militares para tentar amenizar os prejuízos e mostrar à comunidade internacional que algo está sendo feito para não prejudicar seu principal avalista político-econômico: o agronegócio. 

O mesmo agronegócio que por aqui chegou e se expandiu durante a ditadura militar (1964-1985) da qual Bolsonaro é um saudosista. A política de “ocupação” e “desenvolvimento” adotada pelo regime foi a de entregar vastas áreas da Amazônia para produtores do centro-sul do país para a transformarem em pasto. Em contrapartida, o Estado abria estradas cujos efeitos são sentidos até hoje. 

O resultado dessa política do “integrar para não entregar” e da “terra sem homem para homens sem-terra” foi a expulsão de milhares de famílias que moravam no interior da floresta para formar grotões de miséria nas periferias das cidades, além de criar confrontos pela posse da terra que resultaram em dezenas, centenas, de assassinatos. 

É essa mesma política destruidora que agora ganha corpo no Brasil, passados 30 anos do fim da ditadura militar - e com o retorno dos militares ao poder. Enquanto um capitão com a faixa presidencial abre a porteira para a boiada passar, um general no cargo de vice tenta (sem sucesso) proteger a Amazônia de seu próprio governo. 

Como os dados atestam, nesta disputa o general está sem muito poder de fogo diante de um capitão que não está nem um pouco preocupado em proteger a maior riqueza natural brasileira da qual os militares tanto dizem se orgulhar: a Amazônia Os militares precisam entender que os maiores inimigos da Amazônia não estão fora, mas dentro do próprio quintal. 

Ao que tudo indica, se a devastação continuar no ritmo que está, nem mais uma floresta as Forças Armadas terão para defender da “cobiça internacional”. Os próprios militares podem entrar para a história como os principais responsáveis pela perda da Floresta Amazônica por meio de políticas desastrosas quando governavam o país nos anos de chumbo e agora nesta nossa cambaleante democracia.    


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quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Cicatrizes

Áreas queimadas no Acre estão 17% superiores às registradas em 2019  




O total de áreas de vegetação atingidas pelo fogo entre os meses de julho e agosto de 2020 é o maior já registrado dos últimos três anos no Acre. De acordo com o  Laboratório de Geoprocessamento Aplicado ao Meio Ambiente (LabGama), da Universidade Federal do Acre (Ufac), foram identificados 64.367 hectares de cicatrizes de queimadas em todo o território do estado neste período. O número está 17% acima do registrado em igual intervalo de 2019, e 126% ao de 2018. 

Cicatrizes de queimadas são as áreas tomadas pelo fogo e que deixam como vestígio todo material orgânico carbonizado, sendo captadas pelos satélites da Nasa. Agosto foi o mês mais crítico deste triênio em áreas devastadas pelos fogo no Acre, com mais de 50 mil hectares de vegetação transformados em cinzas. O dado se alinha com o registro recorde de focos de queimadas detectados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), quando o Acre ficou na terceira posição entre os nove estados da Amazônia Legal. 

O estado registrou, entre 1 e 31 de agosto, 3.578 focos de queimada. Já Mato Grosso, que tradicionalmente ocupa as manchetes ao lado do Pará, como um dos estados que lideram as estatísticas de desmatamento e incêndios, teve detectado 3.336 focos. O vizinho Rondônia ficou com 3.086 focos.  No acumulado de 2020 o Acre tem 5.953 focos captados pelos satélites do Inpe - 17% a mais do que 2019. 

Os dados do Labgama ainda não constam a área queimada de setembro. Apesar de muitas previsões nada otimistas para o clima - como a ocorrência de uma seca severa -, em alguns pontos do estado têm caído chuva, o que contribui para reduzir o impacto do fogo. 

Segundo o estudo da Ufac, as categorias fundiárias que mais registraram áreas queimadas em 2020 são as terras públicas e os projetos de assentamento. Cada uma delas teve uma média de vinte mil hectares afetados pelo fogo. Chama a atenção o fato de terras públicas ocuparem o topo do ranking, o que demonstra o avanço do desmatamento nestas áreas para fins de grilagem. 

A invasão de terras de propriedade da União ou do estado passou a ser o problema ambiental mais grave enfrentado pelo Acre de 2019 para cá. Além de aumento recorde de queimadas, o estado agora figura com níveis recordes de desmatamento. Ano passado atingiu a maior marca da última década: 700 quilômetros quadrados. 

Entre 1 de janeiro e 31 de agosto deste ano, o Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Inpe, já emitiu 3.316 alertas para o território acreano, somando uma área de 331 quilômetros quadrados de desmatamento.    

Entre as unidades de conservação mais impactadas pela ação humana a Reserva Extrativista Chico Mendes lidera tanto no quesito derrubadas quanto queimadas. O Deter captou 34 quilômetros quadrados de desmatamento dentro da reserva em 2020, enquanto as cicatrizes de queimadas já somam 2.431 hectares. De janeiro até a segunda quinzena de setembro a UC apresenta focos de queimadas.      


sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Projeto concretizado

Áreas protegidas alvos da bancada da motosserra estão no topo do ranking do fogo no Acre 



A Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes e o Parque Nacional da Serra do Divisor estão entre as unidades de conservação federais no Acre com maiores registros de queimadas no acumulado de 2020. É o que aponta o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Estas são, justamente, as duas áreas de proteção visadas pela bancada da motosserra liderada pela deputada federal Mara Rocha (PSDB) e o senador Márcio Bittar (MDB). 

Por meio do Projeto de Lei 6024, a bancada quer reduzir o tamanho da Resex Chico Mendes para beneficiar um pequeno grupo de moradores formado pelos maiores desmatadores, e reduzir a categoria da Serra do Divisor de parque para área de proteção ambiental (APA). 

Conforme o blog mostrou no primeiro semestre, a simples apresentação do projeto poderia acarretar em impactos imensuráveis para estas duas UC’s, em especial para a Serra do Divisor, onde está concentrada uma das mais ricas regiões de floresta e biodiversidade da Amazônia. Os dados do Inpe agora atestam a problemática, com o parque ocupando a terceira posição no ranking do fogo no Acre até o dia dez de setembro, com 70 focos detectados. 

A unidade, localizada no Vale do Juruá, registrava entre 1 de janeiro e ontem 70 focos de queimadas, ficando atrás apenas da Resex do Alto Juruá e da Resex Chico Mendes, que já há muito tempo ocupa a primeira posição nas análises de fogo e desmatamento. No acumulado de 2020 a Resex Chico Mendes tem 240 focos captados pelos satélites de monitoramento.  

Apesar de os números serem alarmantes, o que chama a atenção e preocupa é o crescimento do impacto da ação humana nas duas mais importantes áreas protegidas do Vale do Juruá: o Parque Nacional da Serra do Divisor e a Resex Alto Juruá, que são vizinhas. Juntas, elas concentram 155 focos, ou 27,4% do total das queimadas observadas nas unidades de conservação federais do Acre. 

Os dados atestam a mudança dos impactos causados na devastação da Amazônia acreana de 2019 para cá, mostrando que nem mesmo áreas protegidas por lei passam incólumes por este processo. A “migração da destruição” é preocupante por ir para a região que mais concentra floresta em pé no Acre, e possuir uma das mais ricas biodiversidade do planeta. 

Outra ameaça para a região do Juruá e que aos poucos vai se concretizando em ações práticas é o projeto da construção de uma rodovia entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa, no Peru, cujos impactos nos dois lados da fronteira são inestimáveis. Essa semana o vice-governador do Acre, Major Rocha, irmão da deputada Mara Rocha, anunciou que ainda em 2020 o Departamento Nacional de Infraestrutura Terrestre (Dnit) lança o edital de licitação para o projeto da rodovia internacional. O anúncio foi feito após reunião com um dos diretores do Dnit.   


Entenda mais sobre os efeitos do PL 6024, apresentado em novembro do ano passado pela deputada  Mara Rocha na Câmara dos Deputados.  


Vai ser uma destruição insana da natureza, diz secretário-geral da SOS Amazônia ao analisar impactos do PL 6024 no Juruá 

terça-feira, 8 de setembro de 2020

O GT que mais dá trabalho

Atrasado e atrapalhado, governo do Acre tenta lidar com pandemia entre povos indígenas 



Entre indígenas de aldeias e moradores das cidades, Acre tem quase 2 mil casos da Covid-19 (Foto: Divulgação/Governo AC)



O governo do Acre passou os últimos cinco meses de pandemia do novo coronavírus sem dar a mínima atenção para os impactos que ela provocou - e ainda provoca - entre os 16 distintos povos indígenas do estado. Impactos estes não só na saúde, mas também econômicos e de segurança alimentar de comunidades que precisam se isolar nas aldeias para evitar ainda mais mortes e casos da Covid-19. Ao invés de adotar alguma medida, a gestão Gladson Cameli preferiu deixar tudo nos ombros do governo federal. 

Sobre a atuação deste não é necessário fazer comentários. Mas vale lembrar: primeiro foi preciso o Congresso aprovar uma lei obrigando Jair Bolsonaro a colocar em prática medidas eficazes para amenizar dos impactos da pandemia. Com sua caneta, o presidente vetou os artigos mais importantes. O movimento indígena precisou recorrer ao Supremo Tribunal Federal para evitar o completo genocídio. 

O fato de termos 24 mil indígenas acreanos que também sentiam os efeitos da pandemia não sensibilizou os atuais burocratas do governo local. Foi somente após cinco meses e quase 2.000 casos confirmados da Covid-19 entre a nossa população indígena que o governo Cameli decidiu criar, no dia 18 de agosto, um Grupo de Trabalho (GT) para acompanhamento e elaboração de estudos sobre a propagação do vírus nos territórios indígenas. 

Quem atua na área indigenista do estado muito pouco ou nada entendeu sobre o que de fato pretende fazer o GT. Se a proposta é primeiro levantar informações para depois ter alguma atitude, é possível que elas venham a ocorrer quando a vacina já esteja sendo aplicada. Ou seja, o grupo de trabalho teria um trabalho em vão. 

A confusão começa pela sua própria composição, que deixou de fora os dois principais órgãos que atuam diretamente na questão: a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, e a Fundação Nacional do Índio (Funai). A Sesai está na linha de frente por meio de seus dois Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei’s) no Acre: o do Alto Rio Purus e do Alto Rio Juruá. 

Tanto assim que, na semana passada, o Ministério Público Federal (MPF) precisou intervir, recomendando uma reformulação no grupo para que ocorra a inclusão de representantes da Funai e dos Dsei’s. No dia 13 de julho, o MPF já tinha emitido recomendação para que a Secretaria Estadual de Saúde incorporasse os dois órgãos federais no Comitê de Acompanhamento Especial da Covid-19, algo que não aconteceu até agora, conforme destaca o procurador da República Lucas Costa Almeida Dias no parecer que pede mudanças no GT. 

Para ele, a ausência de membros da Funai e dos distritos especiais “compromete a implementação de qualquer plano governamental efetivo que respeite o diálogo e a interlocução como lugar-comum para a solução de problemas”. “A interlocução com tais órgãos mostra-se como medida imprescindível para a correta implementação de ações imediatas e urgentes, notadamente diante da expertise de seus servidores (que atuam na linha de frente) e diante da diversidade de povos indígenas existentes no Acre”, ressalta ele. 

O procurador ainda aponta a pouca quantidade de indígenas em número e de diversidade de povos no grupo criado por Cameli. Ao todo o GT conta com 14 membros do governo e três lideranças indígenas. Todos os trabalhos estarão centralizados em Rio Branco, quando os maiores impactos da Covid-19 acontece nas comunidades das bacias do Purus e do Juruá.  

As trapalhadas do governo Gladson Cameli no trato da questão indígena não são novidades. Tanto a pauta dos povos tradicionais do estado quanto as questões ambientais foram colocadas em terceiro plano diante da agenda voltada para o setor rural e do agronegócio, bandeiras políticas do atual governador. 

Um de seus primeiros atos ao assumir o cargo em 2019 foi extinguir a Assessoria Especial dos Povos Indígenas, ligada à Casa Civil, e que era a única representação destas comunidades no governo estadual. Após críticas, a assessoria foi recriada, mas colocada bem longe do gabinete do governador, na Secretaria de Assistência Social. 

E dessa forma os povos indígenas do Acre vão resistindo aos desprezos do governo Gladson Cameli e às ofensivas do governo Jair Bolsonaro aos seus direitos de sobrevivência e de posse de seus territórios tradicionais - além da pandemia do coronavírus.   

sábado, 5 de setembro de 2020

Análise - Dia da Amazônia

 Acre: do governo da floresta ao governo sem floresta 


Com 87% de floresta intacta, Acre passa de mocinho para vilão na proteção da Amazônia



Na semana que celebramos o Dia da Amazônia, neste cinco de setembro, o Acre recebeu uma das piores notícias quanto à preservação de sua maior e insubstituível riqueza natural: em agosto ocupamos a deplorável terceira posição no ranking das queimadas entre os nove estados que formam a Amazônia Legal. Deixamos comendo fuligem Mato Grosso e Rondônia, que por muito tempo ocupam as manchetes sobre a devastação do bioma dentro de seus territórios. 

Em julho já tínhamos batido outro recorde: também superamos Mato Grosso no quesito desmatamento. Usando aquele velho bordão político, nunca antes na história deste estado sua cobertura florestal na casa dos 87% esteve tão ameaçada como agora. O momento político vivido pelo Acre e pelo Brasil é o grande responsável por essa devastação num estado que por muito tempo nem merecia nota de rodapé quando se falava em incêndios ou desmatamento na Amazônia. 

Saímos de um período consagrado como “governo da floresta” - ou também a florestania - durante os 20 anos de gestões petistas para uma época que agora podemos chamar de o governo sem floresta”. Tinha minhas críticas aos governos do PT no Acre, mas não podemos negar que foi naqueles tempos que o estado detinha uma certa vanguarda nas políticas de proteção da floresta, servindo até de exemplo para outros estados da região. De repente, da noite para o dia, tudo mudou e hoje não somos o melhor dos exemplos.   

Culpar apenas Jair Bolsonaro por este avanço da devastação da Floresta Amazônica já virou clichê e motivo para se ganhar curtidas nas redes sociais. Sabemos que o presidente do Brasil atua no sentido inverso de assegurar a proteção do meio ambiente, não só aqui da Amazônia. Se é capaz de boicotar as medidas sanitárias para se evitar o contágio por coronavírus que já matou mais de 120 mil brasileiros, o que dirá a proteção da floresta. 

Tão ou quão responsável por essa omissão criminosa de proteção da Amazônia estão os governadores da região. Afinal, são suas decisões e falas que influenciam diretamente o comportamento da população local, de quem eles estão mais próximos, diferente de um presidente que prefere ficar no Palácio da Alvorada falando porcarias para seus fiéis. 

Assim é no pequeno estado do Acre, onde é possível se esbarrar com o governador em qualquer esquina. 


E, sim, as falas e práticas (e até a ausência de ambas) do atual mandatário do Palácio Rio Branco são os grandes responsáveis pelo atual cenário de destruição da Amazônia aqui nestas bordas. Situação que se agrava com as mesmas atitudes vindas de Brasília. Tanto Gladson Cameli quanto Jair Bolsonaro acionaram o gatilho para a destruição do bioma. A eleição de parlamentares com visões retrógradas (a maioria) também contribui para o cenário devastador.  

 

Aqueles que por muitos anos estavam contidos por fiscalizações e punições que ainda existiam saíram do armário com as eleições, em 2018, de Cameli e Bolsonaro. O resultado disso é uma devastação jamais vista no Acre em tempos recentes, chegando até aos locais mais remotos e de difícil acesso. É assustador ver municípios como Jordão e Marechal Thaumaturgo no topo do ranking do fogo no mês passado.   

A prova disso estão nos dados do Inpe. Em 2019, primeiro ano de Gladson Cameli, o desmatamento da Amazônia no Acre bateu todos os recordes dos últimos 11 anos: 700 km2. Perdemos não apenas floresta (vida), mas também investimentos internacionais por meio do programa de compensação por redução do desmatamento. 

De uma certa forma, desde sua campanha para governador, Gladson Cameli já dava sinais de que ia colocar em prática aquilo que hoje chamamos de “passar a boiada” - trágica frase proferida pelo ministro da destruição do Meio Ambiente, cujo nome - para nossa paz de espírito - é melhor nem ser aqui citado. 

Se eleito, falava Cameli, ia flexibilizar as normas ambientais para facilitar a vida de quem queria produzir, incluindo fragilizar as fiscalizações ambientais por meio do Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac). “Tirar o Imac do pescoço do produtor”, era o que ouvíamos nos debates e programas eleitorais. 

Seu mote era fazer do agronegócio o grande carro-chefe da economia acreana, em detrimento de uma política de valorização dos recursos florestais.  Quando assumiu a cadeira de governador, vivia mais em Rondônia do que aqui em busca de se inspirar no modelo de desenvolvimento do estado vizinho. 

Modelo este cujos efeitos sociais e ambientais conhecemos bem. Como governador fez aquilo que poucos políticos costumam fazer; cumprir suas promessas para atender ao setor rural. A primeira atitude foi deixar de pagar o subsídio dos produtores de borracha, alegando revisão dos contratos deixados pela gestão anterior. 

Somente em agosto último, após 20 meses de calote, o governo decidiu repassar o dinheiro para as pequenas famílias extrativistas que tanto dependiam do subsídio para melhorar sua renda. Outra medida foi extinguir o Instituto de Mudanças Climáticas (IMC), vista como herança petista. O problema é que esta herança é responsável por gerenciar 25 milhões de euros enviados pela Alemanha e Reino Unido para o Acre conter o desmatamento, investindo justamente em acesso a tecnologias aos pequenos produtores rurais. Vendo a trapalhada que cometera, recriou o órgão.  

Depois veio a trágica fala de num palanque em Sena Madureira desmoralizando a atuação do Imac, dizendo que ninguém mais precisava pagar as multas aplicadas “porque agora quem está mandando sou eu”.  

A consequência de tudo isso vivemos hoje: desmatamento e queimadas recordes. Queimadas que expelem para o ar uma fumaça tóxica que somos obrigados a respirar quase todos os dias neste período de estiagem severa. Diante de tantas lambanças, não houve outra opção senão decretar emergência ambiental. 

E assim chegamos a mais um cinco de setembro tendo muito mais a lamentar do que comemorar. Vale deixar o alerta para toda a sociedade acreana: proteger a floresta não é coisa de petista, de comunista; é garantir a sobrevivência desta e das futuras gerações. Proteger a Amazônia é proteger a vida em todas as suas formas, inclusive a nossa.     


sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Fogo na floresta

Acre registra primeiros focos de incêndios florestais em Xapuri e em Rio Branco 



@fabiospontes


O mês de setembro nem bem começou e o Acre já tem registrado os dois primeiros focos de incêndios florestais em 2020; ou seja, aqueles que ocorrem dentro da floresta em pé. Se até aqui o fogo estava restrito a queimadas em áreas de agricultura e pecuária - além para limpeza de desmatamentos recentes - aos poucos os satélites vão registrando sua presença no interior da floresta, cujos danos ambientais são irreparáveis. 

Segundo dados do  Laboratório de Geoprocessamento Aplicado ao Meio Ambiente (LabGama), da Universidade Federal do re (Ufac), um dos focos de incêndio florestal foram detectados no município de Xapuri, mas fora da Reserva Extrativista Chico Mendes; segundo o monitoramento, a área da unidade de conservação com registro de incêndio florestal fica em seus limites no território de Rio Branco. 

A situação é preocupante após o Acre bater recorde no registro de queimadas em agosto, ocupando a terceira posição entre os estados da Amazônia Legal. Com as condições climatológicas favoráveis à propagação do fogo dentro da floresta em pé ainda se mantendo ao longo de setembro, a tendência é a ocorrência de incêndios florestais aumentar. 

Se agosto já foi um mês crítico, pesquisadores também se preocupam com setembro, tradicionalmente o mês do fogo no estado, em especial na região Leste. Desde 2019 o Acre também acumula aumentos recordes dos níveis de desmatamento - se mantendo este ano - o que cria muito material combustível para queimar nestes meses de “verão amazônico” que, conforme a Nasa, tende a ser mais severo e prolongado. 

Em maio, a agência espacial dos Estados Unidos divulgou estudo apontando que, entre os estados da Amazônia brasileira, o Acre é o que tem a maior probabilidade de ser atingido por incêndios florestais: 85%. O principal motivo para isso é o aquecimento das águas do Oceano Atlântico, que tem como efeito a redução da umidade na parte mais sul da Amazônia e uma concentração maior ao norte. O fenômeno é conhecido pela sigla em inglês AMO, cuja tradução é Oscilação Multidecadal do Atlântico. 

Este foi o mesmo fenômeno que levou o Acre a ter queimada uma área de 350 mil hectares de floresta no ano de 2005, sendo a Resex Chico Mendes a mais afetada A anomalia se repetiu em 2010, também causando grandes prejuízos ambientais. 

O baixo volume de chuvas típico desta época do ano fica ainda mais reduzido com o AMO, cujo outro efeito é retardar o início do período chuvoso que se inicia em outubro, o chamado inverno amazônico. O reduzido volume de pluviosidade (que consequentemente provoca a queda na umidade do ar) e as altas temperaturas criam o que cientistas definem como “estresse hídrico”. 

“Quando falamos em estresse hídrico nós estamos, em tese, falando direta ou indiretamente da redução de umidade no solo que vai causar um prejuízo para o bom funcionamento das plantas, das árvores. Ou seja, teremos um estresse por falta de água”, explica o professor William Flores,  professor da Ufac e doutor em Ciências das Florestas Tropicais pelo Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa).  

Diante das projeções científicas sérias e do já conhecimento tradicional de setembro ser marcado por bastante fogo, as ações de repressão às queimadas se mostram ainda mais necessárias para se evitar a repetição da tragédia de 15 anos atrás. 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

O recorde do fogo

Acre foi o terceiro estado que mais queimou na Amazônia em agosto 


Estado superou, em registro de queimadas, Mato Grosso e Rondônia; em julho desmatamento também já tinha superado MT; focos de calor em 2020 estão 18% acima e governo decreta emergência ambiental


Uma entre as mais de 3.000 queimadas registradas no Acre apenas em agosto (Foto: Fabio Pontes)


@fabiospontes

O Acre fechou o mês de agosto ocupando a terceira posição entre os estados que mais registraram focos de queimada, superando os tradicionais recordistas Mato Grosso e Rondônia em termos de impactos causados à Floresta Amazônica. No ranking do fogo do mês passado, o Acre só ficou atrás do Pará e do Amazonas, cujas áreas territoriais são até quatro vezes superior. 

Segundo os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o estado registrou, entre 1 e 31 de agosto, 3.578 focos de queimada. Já Mato Grosso, que tradicionalmente ocupa as manchetes ao lado do Pará, como um dos estados que lideram as estatísticas de desmatamento e incêndios, teve detectado 3.336 focos. O vizinho Rondônia teve 3.086 focos. 

Após apresentar um certo controle e até redução no registro de queimadas em 2020 - quando comparado com o ano passado - o Acre parece ter sofrido um boom de incêndios nos últimos dias de agosto. Entre 1 de janeiro e o dia 28 de agosto, por exemplo, o estado tinha uma redução de 12% na quantidade de focos detectados pelo monitoramento do Inpe quando se fazia um comparativo com o mesmo intervalo de 2019. 

Já no acumulado dos oito meses deste ano - diante de igual período do ano passado - há um acréscimo de 18%: 4.044 contra 3.426. Quase 90% desta detecção de queimadas ocorreu em agosto, mês marcado na região pelo uso indiscriminado do fogo para a limpeza ou abertura de roçados e pastagens, além do emprego para limpar áreas recentemente desmatada.   

Diante da aparente perda de controle das ações para conter o fogo, o governo decidiu decretar nesta terça, 1, situação de emergência ambiental. A medida também se fez necessária diante do atual nível crítico dos rios, com destaque para o Acre, responsável pelo abastecimento de água de 70% da população. 

Em maio, a agência espacial dos Estados Unidos, a Nasa, divulgou estudo apontando que, entre os estados da Amazônia brasileira, o Acre pode ser um dos mais impactados por uma estiagem mais rígida.  O principal motivo para isso, segundo a Nasa, é o aquecimento das águas do Oceano Atlântico, que tem como principal efeito a redução da umidade na parte mais sul da Amazônia. 

Essas condições ambientais mais a elevada área de floresta que foi desmatada tornam o Acre o mais propício a sofrer com os grandes incêndios florestais, assim como em 2005. Segundo projeções da Nasa, a chance de isso se repetir é de 85%. 

Em julho o Acre já tinha superado o Mato Grosso também quanto à detecção do desmatamento pela análise do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). De acordo com o monitoramento SAD, o Acre desmatou 140 km2 de floresta em julho, enquanto Mato Grosso perdeu 98 km2. Entre agosto de 2019 e julho passado o estado teve um desmatamento acumulado de 476 km2 - alta de 28% ante o período anterior. 


O fogo no interior 

Conforme o blog já tinha antecipado em 24 de agosto, o interior do Acre era a região do estado que mais apresentava focos de queimada, tendência que se manteve até o dia 31. Os municípios do Vale do Tarauacá/Envira, Purus e Juruá estão entre os recordistas de fogo. Dos 10 municípios que mais queimaram, apenas Rio Branco não está nestas regiões. 

O topo do ranking dos incêndios é ocupado por Feijó (1.067 F), Tarauacá (684), Manoel Urbano (275) e Sena Madureira (240). Logo após aparece Cruzeiro do Sul, município do Vale do Juruá que até alguns anos atrás estava bem na traseira dos dados do fogo no Acre. No último dia 24 estava na terceira colocação. 

O município registrou no mês passado 231 pontos de calor dentro de seu território; 68 a mais do que Rio Branco, conhecido por ter altas taxas de incêndios por seu entorno já ter perdido boa parte da vegetação nativa, sendo ocupada por áreas de pecuária e agricultura.  Cruzeiro do Sul, por sua vez, ainda possui uma região rural com muita floresta nativa. 

Abaixo da capital (no ranking do fogo) surgem três dos quatro municípios isolados: Jordão, Marechal Thaumaturgo e Porto Walter. Essa interiorização do fogo para as áreas mais bem preservadas e remotas do estado chama a atenção para dois fatores; 1) o avanço do desmatamento para uma região ainda bastante intacta da Amazônia e 2) o risco deste fogo se transformar em grandes incêndios florestais pelas atuais condições climatológicas. 

Essa interiorização da destruição não fica apenas às margens de rodovias ou ramais; as margens de rios e igarapés nestes municípios também passam a concentrar grandes áreas queimadas. Com a previsão de um ano mais quente e seco no Acre, a concentração do fogo próximo a área de florestas em pé preocupa.

Após agosto já ter sido marcado por temperaturas perto da casa dos 40 graus, baixíssima precipitação pluviométrica e umidade relativa do ar na casa dos 30%, a tendência é de setembro também apresentar as mesmas condições ambientais. Com isso, um pequeno fogo feito num roçado pode adentrar na floresta em pé, cujas consequências seriam inestimáveis. 

domingo, 30 de agosto de 2020

A fumaça e o vírus

Fumaça das queimadas aumenta risco de doenças respiratórias no Acre 


Nos dias mais críticos de incêndios, ar respirado pelos moradores da capital Rio Branco apresentava níveis de contaminação até 10 vezes superior recomendado pela OMS; falta de chuvas também ameaça abastecimento de água para 70% da população  


Bombeiro combate fogo em área de vegetação numa manhã de Rio Branco; já são mais de 3 mil ocorrências do tipo (Foto: Sérgio Vale/Amazônia Real)



@fabiospontes

Na noite do dia 16 de agosto, a taxa de poluição no ar respirado pela população em Rio Branco, capital do Acre, foi de 160.3 ug/m3 (microgramma por metro cúbico). O recomendado à saúde humana pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é de 25 ug/m3; ou seja, os rio-branquenses inalaram um ar seis vezes mais poluído. Dez dias depois, na madrugada de quinta-feira, 27, o sensor que mede a qualidade do ar instalado na região central de Rio Branco registrou uma máxima concentração de material particulado PM2.5 (material particulado fino ou, em inglês, particulate matter) de 386,11 ug/m3. 

A causa para um ar tão contaminado é a fumaça das queimadas que tem entre os seus componentes o monóxido de carbono e o dióxido de nitrogênio, além de micropartículas conhecidas como PM2.5. Estudos apontam que uma exposição prolongada a estes componentes pode levar ao desenvolvimento de doenças cardíacas por também entrarem na corrente sanguínea.

A “temporada de queimadas” começou no mês de julho e acontece em áreas de pecuária e agricultura após os desmatamentos, inclusive em áreas de floresta nativa. Em 2020 os efeitos da poluição da fumaça ficaram mais críticos diante da pandemia do novo coronavírus, decretada em 11 de março pelo OMS. Os sintomas da Covid-19 são semelhantes ao de problemas de saúde causados pela exposição a um ar poluído. Dessa forma, todos os casos de problemas respiratórios - seja por conta da infecção pelo Sars-CoV 2 ou por inalar fumaça -  vão para as estatísticas oficiais como SRAG: Síndrome Respiratória Aguda Grave.

A jornalista Angélica Paiva é o exemplo de como a saúde humana pode ser afetada pela fumaça das queimadas em tempos de coronavírus. No começo de agosto ela foi diagnosticada com Covid. Apresentou sintomas leves e fez o tratamento em casa. O principal problema, lembra ela, era ter que conviver com o vírus, mais as consequências de um ar tomado pela fumaça das queimadas.

 “Houve um dia em que o cheiro de fumaça estava tão forte que fiquei sem ar, e precisei fazer nebulização. Eu tive a sorte de a Covid não afetar os meus pulmões, mas o estrago que ela não fez, as queimadas completaram”, define Angélica Paiva.

Essa maior presença de material poluente no ar está relacionada diretamente com o aumento no registro das queimadas urbanas e rurais. Quanto mais vegetação é incendiada, mais partículas são emitidas e inaladas pela população, afetando, sobretudo, o sistema respiratório.

“Quando acontece a queimada ela vai emitir material particulado no ar. Essas partículas, dependendo do tamanho, causam problemas que vão desde algo simples como uma tosse, uma irritação no nariz ou nos olhos, até se desenvolver uma infecção pulmonar, a depender do tempo de exposição a esse ar poluído”, explica William Flores, professor da Universidade Federal do Acre (Ufac) e doutor em Ciências das Florestas Tropicais pelo Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Flores lidera a equipe do Laboratório de Geoprocessamento Aplicado ao Meio Ambiente (LabGama), responsável pela produção e análise de dados sobre a qualidade do ar no Acre. De acordo com ele, a maior presença de material particulado no ar agrava o quadro de saúde de pessoas infectadas pelo coronavírus, cujos efeitos principais é o ataque ao sistema respiratório. Pessoas portadoras de doenças respiratórias crônicas como a asma integram o chamado grupo de risco da Covid-19, e também são prejudicadas pela fumaça. 

 “Há estudos publicados nos Estados Unidos mostrando que em regiões onde o nível de poluição do ar é muito elevado você aumenta significativamente a probabilidade de morte por Covid”, comenta Flores.  

“Historicamente a Amazônia não é vista como uma região com ar poluído como são os grandes centros urbanos do país. Mas aqui temos esta atipicidade entre agosto, setembro e outubro que é o uso do fogo como uma tecnologia para a conversão de biomassa florestal para fins de adubação do solo”, diz. Porém, como o pesquisador ressalta, essa queima da biomassa também tem como efeito a liberação de gases poluentes que é absorvido pelo sistema respiratório. 

De acordo com o boletim epidemiológico desta sexta-feira (28) da Secretaria de Saúde do Acre (Sesacre), o estado tem registrado, desde o dia 17 de março, 24.462 pessoas foram infectadas pelo coronavírus, com 608 mortes.   

Ainda de acordo com dados da Sesacre, 1.316 pessoas foram hospitalizadas em Rio Branco, capital do Acre, durante este ano por SRAG. O pico das internações aconteceu em maio, quando a capital do estado estava em curva crescente nos casos da Covid-19, e as queimadas ainda eram uma realidade distante do cotidiano dos acreanos, como passou a ser desde meados de julho. 

Em junho e julho a quantidade de pessoas hospitalizadas por SRAG foi reduzido após o pico de maio. Foi exatamente neste período que o Acre começou a apresentar redução nos casos de infectados pelo coronavírus. Os dados da secretaria apontam uma expressiva diminuição de SRAG em agosto, quando o estado atingiu o maior nível na redução de contaminados e mortos por Covid-19, mas está no pico do registro de queimadas. 

De 274 pessoas internadas em julho, o número caiu para 71 até o dia 18 de agosto. Enquanto a Covid-19 parecia estar sob controle, o ar nas cidades ia ficando sem condições de respirar pela fumaça das queimadas que não paravam de aumentar nos meses mais secos e quentes.

Estimativa de estudo publicado pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), aponta que, em 2019, 2.195 pessoas moradoras dos estados que formam o bioma Amazônia foram hospitalizadas por problemas respiratórios causados pela fumaça oriunda do desmatamento. A maioria dos pacientes (1.080) era composta por pessoas acima de 60 anos, que também integram o grupo de risco da Covid-19.

Dos 3.325 focos de calor registrados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) no acumulado deste ano, 2.098 ocorreram entre 1 e 28 de agosto. Este pico se justifica por agosto ser o mês que apresenta as condições ideais para o uso do fogo: longos dias sucessivos sem chuva, baixa umidade e temperatura elevada. E é também em agosto que o ar respirado pelos acreanos está em suas piores condições. A situação é ainda mais preocupante por os 30 dias de setembro também apresentarem as mesmas caraterísticas. 

Em relação a 1o. de janeiro a 28 de agosto de 2009, quando o Inpe registrou 3.009 focos de calor no Acre, em 2020 o aumento de queimadas é de 10,5% em relação ao mesmo período do ano passado. 

As queimadas típicas desta época do ano na Amazônia - seja para fins de limpeza de roçados e pastagens ou para a queima de floresta recém-desmatada - representam a principal contribuição do Brasil para a emissão de gases do efeito estufa. Além de causar impactos diretos para o meio ambiente e a saúde da população local, estes incêndios causam desequilíbrio no clima de todo o planeta. 


Leia a reportagem completa na agência Amazônia Real  

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Os ventos da fumaça

Passagem de frente fria pode agravar situação da seca e das queimadas no Acre em 2020 


Rio Branco, a capital do Acre, tomada pela fumaça das queimadas (Foto: Sérgio Vale/2020)


@fabiospontes 


A passagem da forte massa de ar polar que derrubou as temperaturas no Acre no fim da semana passada trouxe um certo alívio para a população quanto ao desconforto causado pelo intenso calor, além de ter limpado o ar da fumaça das queimadas. Contudo, por ter sido uma frente fria bastante seca - trazendo pouquíssimo nível de chuvas - ela pode agravar a situação de um “verão amazônico” com previsão de ser um dos mais intensos e secos dos últimos anos. 

Em maio, a agência espacial americana, a Nasa, divulgou estudo apontando que, entre os estados da Amazônia brasileira, o Acre é o que tem a maior probabilidade de ser atingido por incêndios florestais: 85%. O principal motivo para isso, segundo a Nasa, é o aquecimento das águas do Oceano Atlântico, que tem como principal efeito a redução da umidade na parte mais sul da Amazônia e uma concentração maior ao norte.

O fenômeno é conhecido pela sigla em inglês AMO, cuja tradução para o português é Oscilação Multidecadal do Atlântico. Este foi o mesmo fenômeno que levou o Acre a sofrer uma seca severa no ano de 2005, que provocou a queima de 350 mil hectares de floresta em pé. 

Antes da passagem da frente fria, o clima no Acre já estava muito seco por conta do baixo volume de chuvas registrado desde meados de julho. Os fortes ventos gelados que sopraram no estado durante os últimos dias contribuiu ainda mais para se reduzir a umidade relativa do ar, deixando o ambiente bastante seco. Essa baixa umidade é o que os cientistas chamam de estresse hídrico, que cria a “tempestade perfeita” para que queimadas feitas em roçados ou pastagens adentrem na floresta fechada. 

“Toda vez que a gente tem uma friagem, a tendência é que ocorra uma diminuição da umidade. E essa que passou não tivemos grandes chuvas. Há a perspectiva que tenhamos um quadro de piora dos incêndios, na medida em que a umidade vai baixar””, explica o professor e pesquisador da Universidade Federal do Acre (Ufac) William Flores, doutor em Ciências das Florestas Tropicais.  

“Quando falamos em estresse hídrico nós estamos, em tese, falando direta ou indiretamente da redução de umidade no solo que vai causar um prejuízo para o bom funcionamento das plantas, das árvores. Ou seja, teremos um estresse por falta de água.” 

“Uma árvore funciona como se fosse uma bomba d’água. Como todo e qualquer ser vivo, ela usa muita água. Quando você tem muita disponibilidade de água essa bomba funciona de forma positiva. Mas quando temos uma situação de baixa pluviosidade, que é o caso agora, a planta via contribuir para a redução da umidade do solo, ela vai absorver mais água, fazendo com que tenhamos uma condição de seca do solo. Com o soco selo ela vai buscar água no seu entorno, que são os galhos e as folhas ainda úmidas caídas no chão”, completa ele. 

Ao ter sua água puxada pelas árvores, toda vegetação vai secar, transformando-se em material combustível, propenso a pegar fogo. Se antes aquelas folhas e galhos úmidos serviam como barreira para a entrada do fogo feto num roçado próximo, por exemplo, agora há muito mais chances daquela queimada se transformar num incêndio florestal. 

Foram essas as condições ambientais que levaram o Acre a sofrer com grandes incêndios no interior da floresta em 2005 e 2010. Este ano o estado tem conseguido reduzir sua quantidade de focos de queimadas, quando comparado com igual período de 2019, ano em que as queimadas ficaram quase fora de controle. Segundo dados do Inpe, o Acre diminuiu em 20% a quantidade de queimadas detectadas por seus satélites. 

Saber se essa redução vai se manter até o fim da temporada seca que tende a ser mais longa não se sabe. Ainda há o mês inteiro de setembro pela frente, marcado por altas temperaturas e baixa umidade, também marcado por um número elevado de queimadas.  

Mais queimadas representam mais fumaça sendo expelida para o ar respirado pelos acreanos.    


segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O interior do Acre está queimando

Municípios com floresta preservadas lideram ranking de queimadas no Acre 



Os dados do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostram um dado preocupante: o interior do Acre - onde está concentrada a maior área de floresta em pé - está pegando fogo, e muito fogo. No acumulado do ano, o Acre registra 2.120 focos de queimadas. Destes, mais de 80% são detectados em municípios que, até anos atrás, passavam longe das estatísticas de destruição da Amazônia no estado. 

É o caso do isolado Jordão, município cujo acesso só é possível via aérea ou fluvial. Essa dificuldade logística não detém o avanço do desmatamento e do fogo. Até essa segunda, 24, Jordão tinha registrado a mesma quantidade de focos de queimadas do que a capital Rio Branco, cujo entorno já está bastante devastado e tomado por fazendas: 88. 

Logo abaixo de Rio Branco está Marechal Thaumaturgo, outro município isolado cuja área é formada por terras indígenas e unidades de conservação. O município tem 75 focos de calor; são 30 a mais do que Xapuri, localizado em uma área já bastante devastada e pressionada pelo agronegócio. 

Juntos, os municípios dos Vale do Juruá, Purus e Tarauacá/Envira respondem por mais de 80% dos incêndios em vegetação capturados pelos satélites do Inpe em 2020; ressaltando que essas ainda são as regiões mais bem preservadas do Acre, mas que correm sérios riscos de sofrer com a degradação nos próximos anos. 

O campeão de queimadas este ano continua sendo Feijó, após já ocupar as primeiras posições em 2019, o ano do fogo no Acre. São 515 focos já registrados, o que representa 24% do total. 

Logo depois vem a vizinha Tarauacá: 439. Chama a atenção a terceira posição ser ocupada por Cruzeiro do Sul: 160. A capital do Juruá é outra região de floresta muito intacta, e os dados do Inpe acendem o alerta sobre o nível de destruição que avança sobre o município.  

Essa interiorização da destruição não fica apenas às margens de rodovias ou ramais; as margens de rios e igarapés nestes municípios também passam a concentrar grandes áreas queimadas. Com a previsão de um ano mais quente e seco no Acre, a concentração do fogo próximo a área de florestas em pé preocupa diante da possibilidade de ocorrer incêndios florestais, conforme relatei em reportagem para a Amazônia Real: 


Leia:  Florestas do Acre podem ser mais afetadas por incêndios, diz Nasa 


sexta-feira, 21 de agosto de 2020

A violência e o terror se espalham

Facções criminosas ameaçam integridade dos povos indígenas do Acre 


Essa semana, dois jovens Huni Kuin de Feijó foram executados de forma bárbara por integrantes da facção que domina a região do Tarauacá/Envira 


Porto do rio Envira, em Feijó, local de intenso movimento de indígenas no caminho entre cidade e aldeias (Foto: Fabio Pontes/2020)


@fabiospontes 

Além da invasão de seus territórios para retirada de madeira, pesca e caça ilegais, a pressão do desmatamento no entorno para expansão da pastagem e grilagem, as comunidades indígenas do Acre passaram a se ver ameaçadas por outro grave problema: o assédio das facções criminosas. A morte cruel de dois jovens Huni Kuin menores de idade essa semana no município de Feijó é o exemplo da infiltração destas organizações do crime entre uma parcela da população indígena acreana. 

Desde 2016, o Acre enfrenta uma crise de segurança pública por conta da atuação das facções oriundas de São Paulo e do Rio de Janeiro pelo controle da rota internacional do tráfico da droga produzida pela Bolívia e o Peru. Por ter uma extensa faixa de fronteira com estes dois países, o Acre se tornou estratégico para a entrada, no Brasil, da cocaína produzida pelos vizinhos. 

Com a quase ausência das forças policiais nesta faixa de fronteira formada por uma densa selva, os traficantes usam os rios e as trilhas na floresta para o transporte da droga. Outra estratégia de escoamento são os ramais (estradas de terra) que vão de um país a outro. Assim, comunidades ribeirinhas, indígenas e assentamentos passaram a ser assediadas pelas organizações criminosas. 

Cooptar jovens indígenas é visto como estratégico por eles dominarem o modo de sobrevivência no meio de uma floresta hostil. Com as habilidades de quem nasceu e foi criado na mata, eles sabem como poucos andar por dias em caminhos longe dos olhos da polícia.  

Dessa forma se tornam “soldados do crime”, podendo integrar uma das duas principais facções atuantes no Acre: o Comando Vermelho e o B13, grupo local aliado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). 

Ao se alistarem neste exército do crime, os jovens indígenas precisam seguir as suas regras de conduta. Desrespeitá-las tem como punição o pagamento com a própria vida - e geralmente uma morte bárbara. É o que pode ter ocorrido com os dois jovens Huni Kuin encontrados mortos na manhã de quinta, 20, às margens do igarapé do Diabinho, entre Feijó e Tarauacá. 

Um deles estava sem a cabeça; o outro com as orelhas cortadas. Os corpos foram encontrados por uma pessoa que passava pelo local e chamou a polícia. De acordo com o comandante da PM de Feijó, tenente Mendonça, as primeiras investigações apontam que os jovens foram mortos por quebra das regras da facção a que pertenciam, o Comando Vermelho. 

Eles foram retirados de suas casas na cidade às nove horas de terça-feira, 18, e achados mortos dois dias depois. Segundo o comandante, dois suspeitos foram presos por participação na execução, entre eles um menor; outros dois estão foragidos, incluindo também um menor de 16 anos. 

Em dezembro, o Comando Vermelho tomou de assalto o município de Tarauacá após, dias antes, ter conquistado 100% o território de Cruzeiro do Sul, a segunda maior cidade do Acre. Tarauacá e Feijó são cidades vizinhas, separadas menos de 50 km pela BR-364. Antes dessa invasão a região era controlada pelo B13/PCC. Ter seu domínio é estratégico para o tráfico de cocaína peruana, por os seus rios nasceram no país vizinho.  

É nesta região dos Vales do Juruá e Tarauacá/Envira que se concentram 90% das terras indígenas do Acre e, consequentemente, da população indígena. Por suas aldeias passam os rios mais estratégicos para o tráfico de drogas, deixando-os expostos a atuação destas organizações do crime. 

Em março do ano passado a agência Amazônia Real publicou reportagem mostrando as ameaças a que comunidades indígenas do Acre estavam expostas diante do avanço das facções pela zona rural, após deixar um banho de sangue pelas periferias das cidades acreanas. A reportagem citava a Terra Indígena Katukina/Kaxinawá - de onde eram os jovens executados  - como uma das mais expostas. 

A situação é grave e mostra a necessidade de proteger as populações indígenas e seus territórios da influência destes grupos criminosos que tanto mal têm feito ao Acre nos últimos anos, matando cruelmente centenas de jovens e aterrorizando a população. Que esta chaga urbana não se expanda para as comunidades ribeirinhas e indígenas onde ainda há um pouco de paz. O mal precisa ser cortado pela raiz. 


quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Clima para fogo

Florestas do Acre podem ser as mais afetadas por incêndios, diz Nasa 


Margem do rio Gregório, em Tarauacá, queimada em agosto do ano passado (Foto: Sérgio Vale/2019)


O aumento expressivo nas taxas de desmatamento no estado do Acre, as elevadas temperaturas e a previsão de um “verão amazônico” mais seco, fazem dessa porção da Amazônia Ocidental mais vulnerável e a sofrer com incêndios florestais neste ano de 2020. O número de queimadas deste ano na região é 23,5% maior do que o registrado há quatro anos, quando a região estava afetada pelo fenômeno El Niño. De 1º de janeiro a 13 de agosto deste ano, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou 1.497 focos de calor no estado contra 1.212 no mesmo de 2016. No igual período de 2019 foram 1.583 focos de calor, que apontam para uma queda de 5,4% nas queimadas.

A situação de 2020 é ainda preocupante diante dos dados levantados por instituições de pesquisas que apontam elevada concentração de desmate e queimadas nas regiões com a maior concentração de floresta nativa.

Em maio, a agência espacial dos Estados Unidos, a Nasa, divulgou estudo apontando que, entre os estados da Amazônia brasileira, o Acre é o que tem a maior probabilidade de ser atingido por incêndios florestais: 85%. O principal motivo para isso, segundo a Nasa, é o aquecimento das águas do Oceano Atlântico, que tem como principal efeito a redução da umidade na parte mais sul da Amazônia e uma concentração maior ao norte.

O fenômeno é conhecido pela sigla em inglês AMO, cuja tradução para o português é Oscilação Multidecadal do Atlântico. Além do Acre, seus efeitos são sentidos no sul do Amazonas, sudoeste do Pará, Mato Grosso e Rondônia. Os departamentos de Pando, na Bolívia, e Madre de Dios, no Peru, também são atingidos. Entre os três países, o departamento boliviano de Santa Cruz de la Sierra tende a ser o mais afetado por fogo em vegetação: 92%.

“A previsão da temporada de incêndios é consistente com o que vimos em 2005 e 2010, quando as temperaturas quentes da superfície do oceano Atlântico geraram uma série de furacões severos e provocaram secas recordes em todo o sul da Amazônia, que culminaram em incêndios florestais generalizados na Amazônia”, disse Doug Morton, chefe do Laboratório de Ciências Biosféricas do Goddard Space Flight, da Nasa, em entrevista publicada no site da agência norte-americana.

“Do ponto de vista das condições meteorológicas a probabilidade é tanto de termos chuvas abaixo da média ou temperaturas acima da média. Então você tem as condições para as ocorrências de algum tipo de incêndio florestal. Temos um cenário propício para isso”, diz Liana O. Anderson, pesquisadora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

“Existe essa relação do aumento da temperatura do oceano Atlântico que acaba deslocando a zona de convergência, que é o grande processo responsável pelas chuvas na Amazônia, um pouquinho mais para o norte. O deslocamento dessa grande massa de chuva que cruza toda região tropical move um pouquinho para o norte, provocando mais chuvas, e a parte sul da Amazônia enfrenta uma seca”, explica ela.

“Com essas condições de seca mais proeminente e tendendo a se agravar nos próximos meses, os riscos de incêndios florestais aumentam bastante”, completa.

O estudo da Nasa levou em consideração para elaborar o risco de incêndio florestal na Amazônia não apenas as condições climáticas causados pelo AMO, como também o histórico recente de desmatamento e registro de focos de queimada dos últimos anos. Em 2019, a maior floresta tropical do mundo concentrou níveis recordes de derrubada e queimadas, tendência que se mantém agora em 2020.

De acordo com o Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre janeiro e julho foram emitidos avisos de desmate para uma área de 4.730 km2 na Amazônia Legal.  Entre 1o. de janeiro e 13 de agosto foram 40.059 focos de queimadas na região.