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segunda-feira, 30 de março de 2020

A ideologia do coronavírus

O governador do Acre, Gladson Cameli (PP), tem se queixado com frequência do que ele classifica como politicagem que está ocorrendo em torno do coronavírus no estado. A crítica é mais do que pertinente. De fato o momento exige deixar todas as desavenças partidárias-ideológicas de lado para, unidos, enfrentarmos uma situação que – queira Deus não – caminha para ser catastrófica num estado pobre e carente como o Acre.

Mas vamos aos fatos, senhor governador, que tem conduzido de forma acertada as ações do Estado para conter o coronavírus, apesar de ter cedido a pressões de setores do empresariado. Se há alguém fazendo politicagem com a crise do coronavírus essas pessoas estão dentro de seu próprio governo, e o senhor sabe muito bem disso.

A oposição tem sido muito cordial com vossa excelência. Lógico que uma pequena parte dela (isolada) tenta usar a situação para atingir o Palácio Rio Branco, o que deve ser condenável. No mais, líderes partidários e parlamentares oposicionistas abriram mão do embate político para unir esforços na mitigação da pandemia por aqui. O problema maior parece estar no próprio quintal de Cameli.

Dias atrás a parentela do vice-governador, Major Rocha (PSDB), estava nas ruas de Rio Branco fazendo uma “adesivaço” contra o senador Sérgio Petecão (PSD) – aliado do governador e que muito pode ajuda-lo em Brasília enquanto primeiro-secretário do Senado Federal. O foco do clã Rocha está apenas nas eleições que talvez ocorram ou não este ano e nas de 2022. Aliás, o major da Polícia Militar parece ser a pessoa menos qualificada para lidar com situações de crise.

Desaparece quando a guerra entre as facções criminosas se acirra no estado, e agora na do coronavírus também tomou um chá de sumiço. Espero que esteja em alguma feira de armas para liquidar este vírus comunista. E eis aqui outro ponto: cargos comissionados nomeados por Gladson Cameli estão nas redes sociais espalhando a mentira de que quem trouxe o coronavírus para o Acre foram os petistas.

Isso tudo porque os primeiros casos notificados no estado terem surgido a partir de uma reunião de petistas em Capixaba. Ora, os dois primeiros registros da Covid-19 foram de pessoas que estiveram em compromissos fora do Acre, sobretudo em São Paulo, o epicentro da doença no Brasil.

Outra estratégia dos aliados do governador é espalhar que os 20 anos de governos petistas no Acre deixaram a Saúde pública um caos. Todos sabem que fui um dos jornalistas mais críticos ao petismo acreano desde que comecei na profissão, no fim do segundo mandato de Jorge Viana (1999-2006). Ter feito tal trabalho não me leva ao arrependimento, pois sigo os princípios de um jornalismo crítico e investigativo. Mesma postura que mantenho agora em relação ao governo do PP.

Mas aqui vale um ponto: a estrutura de Saúde deixada pelos governos do PT foi bem melhor do que aquela recebida por eles em 1999, após quatro anos do governo Orleir Cameli, tio de Gladson. E aqui não vou apontar o dedo para ninguém em respeito à memória do ex-governador já falecido e por este não ser o momento. Mas quem é acreano sabe como estavam nossos hospitais ao fim da década de 1990.

Lógico que a gestão petista na Saúde não foi a mais perfeita do mundo. Contudo, estamos falando de um estado em praticamente toda a população depende do SUS para suas necessidades médicas. Manter este sistema funcionando em perfeição é um desavio que ninguém ainda encontrou. Quem sabe agora com os gênios e paladinos da ética à frente do sistema possam oferecer ao povo do Acre uma saúde pública de primeiro mundo que foi prometida e não entregue pelo PT.

Os cargos comissionados, no afã de manter suas boquinhas no governo, acusam os petistas de malversação e corrupção na gestão da Saúde, o que resultou na deficiência atual do Acre em lidar com a Covid-19. Falam sem apresentar provas e esquecem que, em pouco mais de 14 meses no poder, já há denúncias de corrupção contra o governo, esta na área da Educação, com desvio da merenda escolar. Portanto, antes de apontar o dedo para os outros, olhem para o próprio umbigo.

Portanto, o governador Gladson Cameli está certíssimo em criticar a politicagem estúpida que fazem no trato desta pandemia, e precisa dar a ordem para seus aliados pararem de falar porcarias e espalhar fakes News pelas redes sociais. Elas poderiam ser usadas de uma forma bem melhor, como conscientizar as pessoas sobre a importância de manter o distanciamento social, reduzindo os efeitos catastróficos do novo coronavírus. Os exemplos que temos mundo afora não são nada bons.     

sexta-feira, 27 de março de 2020

Elogiar não presta

Até o início desta semana, o governador do Acre, Gladson Cameli (PP) vinha sendo bastante elogiado nas redes sociais - até por seus adversários políticos e críticos (incluindo eu) - por conta das medidas adotadas para conter o avanço do coronavírus no estado. Mas bastou elogiar demais para vir as primeiras lambanças. A mais óbvia foi flexibilizar o decreto que restringe a circulação de pessoas, determinando o fechamento do comércio.

A segunda foi em não garantir a estrutura necessária no sistema público de Saúde para a realização dos testes para a Covid-19. Em entrevista à TV Gazeta nesta sexta-feira, 27, o responsável pelo Laboratório Charles Mérieux, o médico Andreas Stocke, afirmou que os números oficiais divulgados pela Secretaria de Saúde sobre os casos confirmados de contaminação pelo novo coronavírus podem estar bem abaixo da realidade. Ou seja, há um elevadíssimo número subnotificações.

Estes são aquelas pessoas que se contaminaram pelo coronavírus, desenvolveram a Covid-19 mas não procuraram os hospitais da rede pública para fazer exames ou buscar um tratamento, preferindo ficar isolados em casa.

Este é o caso do jornalista Arisson Jardim, assessor de imprensa do deputado Daniel Zen (PT). O parlamentar foi o primeiro a ser infectado, retransmitindo o vírus para as pessoas de seu circulo social. É lógico que esse contágio não ocorre de forma proposital, pois quem carrega o vírus não o sabe. Os sintomas aparecem até duas semanas após ele entrar no corpo. Segundo os estudos, uma pessoa carregando o vírus contamina outras quatro – criando um ciclo de contágio.

Ao invés de ir fazer o teste na UPA do Segundo Distrito como recomendam as autoridades sanitárias, Jardim optou por ficar em casa mesmo. Assim tem acontecido com muitas pessoas. Não se sabe se com centenas, como diz o responsável por conduzir os exames.

Outro problema apontado por Stocke é a falta de material para os testes. De acordo com ele, o Acre tinha disponíveis 400 reagentes usados na realização dos exames. Nos últimos dias houve um aumento explosivo de pessoas com suspeitas da Covid-19, o que levou a uma escassez de material. Agora são feitos testes apenas nos pacientes mais graves. Até esta sexta, o laboratório tinha colhido amostras de 363 com suspeitas de portar o vírus, com 243 exames dando negativo. Outros 95 ainda aguardam resultado. 

“Estamos usando o pouco que temos apenas para os casos de emergência. Por isso os números não aumentam, mas os números estão aumentando. No momento estamos cegos porque não temos os reagentes”, afirmou ele.

Diante da gravidade, as autoridades de Saúde estão em alerta máximo. Tanto assim, o governador anunciou que buscará uma audiência de emergência com o presidente Jair Bolsonaro para buscar ajuda federal ao Acre no enfrentamento ao coronavírus. Este é um claro sinal de que as coisas não estão nada boas.

Certamente Cameli já tinha conhecimento de toda essa situação de carência e elevada subnotificação antes de assinar o decreto que flexibilizou a quarentena no comércio acreano, permitindo a abertura de determinados setores após pressão dos dirigentes da Federação do Comércio.

Ao adotar tal postura diante deste cenário gravíssimo, o governo incorreu em crime de responsabilidade.  Permitiu-se, assim, que mais pessoas – talvez algumas delas contaminadas sem saber – saíssem de suas quarentenas, entrando em contato com não-contaminadas. Pessoas em filas de lotéricas, bancos, em lojas de material de construção passaram a ser vistas em Rio Branco com o novo decreto de Cameli.

E não, o número de 25 pessoas apontadas pela Secretaria de Saúde não é o retrato fiel da situação. Este número é muito maior – não se sabe se 500. Mas como a avaliação vem de quem está na linha de frente, não é bom duvidar. Certamente o diretor do laboratório não seria imprudente de divulgar tal número apenas para fazer alarmismo.

As próximas semanas nos darão as respostas.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Análise:

Gladson faz aniversário e dá um presente de grego para o povo 

Nesta quinta-feira, 26 de março, o governador do Acre, Gladson Cameli (PP), faz aniversário, completando 42 anos de idade. Como presente ao povo acreano, em meio à pandemia do novo coronavírus, o aniversariante assinou o Decreto 5.603 flexibilizando as regras de isolamento e distanciamento social, que são as principais recomendações das autoridades sanitárias mundiais para reduzir a quantidade de pessoas contaminadas. 

No dia 20 de março, Cameli fez publicar o Decreto 5.496 que impôs uma quarentena tolerância zero para o funcionamento do comércio no Acre, deixando aberto apenas os serviços essenciais como supermercados, farmácias e postos de combustível. Pelo decreto, estabelecimentos que não estivessem neste perfil ficariam numa quarentena de 15 dias, com as portas fechadas. Esta foi a medida adotada por todos os governadores.

Aqui no Acre, contudo, ela não sobreviveu a uma semana. Por conta da pressão do empresariado, Gladson Cameli se viu obrigado a abrir uma brecha (ou uma porteira) para outros setores da economia. Entre os novos estabelecimentos que estão autorizados a funcionar estão as lojas de produtos agropecuários, concessionárias de veículos, óticas, motéis , hotéis, casas lotéricas e bancos.

Nesta altura do campeonato não se sabe quem está interessado em comprar um carro zero quilômetro, quando a busca de todosé não ser contaminado pelo coronavírus. Esta concessão talvez se explique pelo fato de o presidente da Federação do Comércio do Acre, Leandro Domingos, ser dono de umas das principais revendedoras de carros de Rio Branco.
 
Em entrevista recente à TV Acre (Rede Globo) Domingos afirmou que ‘vão morrer mais empresas do que pessoas' na crise da Covid-19. Esta semana empresários fizeram uma pressão junto ao governo para flexibilizar o decreto da quarentena, e o governador os presenteou com o decreto.

Da assinatura da primeira medida de restrição para a abertura do comércio até esta quinta, o Acre saiu de 11 para 23 casos confirmados da Covid-19. O estado tem o segundo maior número na região Norte do país, atrás apenas do Amazonas. Os números chamam a atenção por o Acre ter uma das menores densidades populacionais do país. O Acre está entre os 10 estados com mais casos da doença confirmados essa semana.

A medida ocorre após o próprio governador ter dado declarações de que não cederia às pressões do presidente Jair Bolsonaro para que os chefes dos Executivos estaduais fossem mais brandos com as regras de isolamento social. Cameli chegou a afirmar que sua prioridade seria salvar vidas, com a recuperação da economia vindo depois.

A flexibilização feita pelo governador acreano ocorre no momento em que especialistas afirmam que o Brasil está apenas no início do surto da Covid-19, e que o pior ainda está por vir.  Para amenizar a situação, seu secretário de Saúde, Alysson Bestene, recomendou o óbvio: ficar em casa e lavar bem as mãos.

O problema, caro secretário, é que com um presidente da República que diz em cadeia de rádio e TV para toda a nação que um vírus que já matou mais de 20 mil pessoas no mundo não passa de uma “gripezinha”, muitas pessoas compraram a ideia e relaxaram nos cuidados sugeridos pelas autoridades sanitárias.

Que entre os pedidos feitos por Gladson Cameli ao assoprar a velinha de seu bolo de aniversário nesta quinta esteja o de que as previsões mais pessimistas sobre o surto do coronavírus nas próximas semanas não aconteçam. Os efeitos, num estado pobre e com uma saúde pública deficiente como o Acre, seriam devastadores. 

terça-feira, 24 de março de 2020

Saúde na aldeia

Sesai executa plano de contingência para evitar chegada do coronavírus às aldeias do Acre  

As margens do rio Envira, em Feijó, são um dos locais de permanência dos indígenas que chegam das aldeias; Sesai quer evitar presença deles em centros urbanos para evitar contágio (Foto: Fabio Pontes)


A Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), ligada ao Ministério da Saúde e responsável por assegurar assistência médica às populações indígenas do país, iniciou na semana passada o plano de contingência para evitar que o coronavírus chegue às aldeias do Acre.

Entre as medidas está a proibição da entrada de não-indígenas nos territórios tradicionais, a obrigação de quarentena para os índios que estão fora das aldeias e pretendem regressar e para os próprios profissionais da Sesai, além de recomendar o distanciamento das populações indígenas dos centros urbanos enquanto durar a pandemia.

Conforme o blog já mostrou, os próprios indígenas decidiram fechar as aldeias para a entrada de pessoas de fora, interrompendo uma das principais atividades desenvolvidas por eles, o turismo. Além desta ação restritiva - amparada por portarias da Fundação Nacional do Índio (Funai) - a Sesai trabalha para evitar a permanência dos indígenas pelas cidades do interior.

Neste domingo (22), os agentes de saúde estiveram em Feijó mobilizando os indígenas que costumam ficar na orla do rio Envira para voltarem às aldeias, alertando-os dos riscos de permanência no meio urbano. Feijó é o município com a maior população indígena do Acre, com cinco mil pessoas. Esta semana duas crianças indígenas deram entrada no hospital de Feijó com suspeita da Covid-19, o que foi negado pelos exames.

Feijó tem outra situação particular, que é a proximidade das aldeias do povo Shanenawa com a sede do município. A Nova Morada, por exemplo,  está distante apenas 20 minutos de barco partindo da cidade. Já as Cardoso e a Shane Kaya ficam a menos de 10 quilômetros pela BR-364 sentido Cruzeiro do Sul.  As aldeias do povo Katukina, da Terra Indígena Katukina Campinas, em Cruzeiro do Sul, estão às às margens da mesma rodovia, deixando a população vulnerável.

A região é atendida pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) do Alto Juruá, responsável por levar atendimento médico para as comunidades de outros sete municípios: Tarauacá, Cruzeiro do Sul. Jordão, Mâncio Lima, Marechal Thaumaturgo, Porto Walter e Rodrigues Alves. 

Ao todo são mais de 18 mil indígenas sob a responsabilidade  da Dsei Alto Juruá, espalhados por 162 aldeias de 14 diferentes etnias. Entre eles há 35 indígenas de recente contato, os Xinane, que moram no alto rio Envira, em Feijó. O plano de ação para evitar uma chegada do coronavírus foi elaborado em parceria com as lideranças das comunidades.  Além das equipes que já integram a Dsei, houve o reforço de uma outra composta por profissionais de saúde do Exército.

“Tivemos a preocupação de trabalhar junto às lideranças pois eles são os donos da casa deles, e não haveria nenhuma outra forma de trabalhar se não fosse com o apoio deles. A nossa maior preocupação é com a entrada e saída de pessoas que não moram nas aldeias, e também com os indígenas que estão fora das aldeias”, diz Igle Monte, coordenadora do Dsei Alto Juruá.

Segundo ela, está “extremamente proibida” a entrada de turistas - brasileiros e estrangeiros - nas aldeias por tempo indeterminado.  De acordo com Monte, esta é uma medida que visa assegurar a saúde dos povos indígenas do Acre “por ser uma população com imunidade muito frágil”. Outra medida adotada pela Sesai é evitar que os próprios profissionais de saúde adentrem nos territórios tradicionais de qualquer forma.

Aqueles que estiverem de férias, por exemplo, ao voltar precisarão ficar em quarentena antes de ir para as aldeias.  A secretaria também recomendou a permanência dos indígenas em suas respectivas comunidades, evitando idas desnecessárias às cidades, o que os deixaria expostos a uma contaminação pelo novo coronavírus.  A coordenadora do Dsei Alto Juruá afirma que a Sesai irá reforçar a assistência médica básica nas aldeias durante a quarentena, justamente para evitar a ida deles aos centros urbanos. 

Outra atitude foi retirar da Casa de Saúde Indígena (Casai) de Mâncio Lima as pessoas que estavam a tratamento de saúde, mas que apresentam um quadro de não urgência. Elas foram levadas de volta para as comunidades. Consultas com médicos especialistas e exames laboratoriais marcados para Cruzeiro do Sul e Rio Branco estão suspensos.  

quinta-feira, 19 de março de 2020

Aldeias fechadas

Coronavírus leva indígenas do Acre a "fechar aldeias" e interromper turismo


Povo Yawanawa durante celebração em festival que atrai turistas de todo o mundo; com pandemia, festivais no AC estão suspensos (Foto: Gleilson Miranda)


@fabiospontes 


Com o avanço do coronavírus pelo Brasil e com os primeiros casos já confirmados no Acre, as comunidades indígenas do estado aos poucos vão sentindo os impactos da epidemia em suas vidas sociais. Neste primeiro momento, eles se dão apenas no campo econômico. Como o turismo passou a ser uma das principais atividades econômicas para muitas comunidades, a restrição na entrada de não-indígenas (sobretudo estrangeiros) tende a comprometer a obtenção de renda.

A restrição no acesso às terras indígenas (TIs), contudo, se faz necessária diante do elevado grau de contágio do vírus, e pelos indígenas terem uma imunidade mais baixa, fazendo com que uma contaminação pelo coronavírus tenha efeito devastador nas aldeias.

Na terça-feira, 17, a Fundação Nacional do Índio (Funai) decidiu suspender a emissão de novas autorizações para entrada em terras indígenas pelos próximos 30 dias. Segundo o órgão, a portaria é uma forma de evitar a proliferação do coronavírus nas aldeias.

Já na segunda-feira, 16, em Cruzeiro do Sul, integrantes da Funai, da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), ligada ao Ministério da Saúde, da Polícia Federal e lideranças indígenas do Vale do Juruá se reuniram para tratar da entrada de não-indígenas dentro dos territórios tradicionais.

Em tese, toda pessoa que deseja entrar em alguma comunidade indígena precisa do aval da Funai. Como a emissão é demorada - levando, em alguns casos, até anos para ser emitida - muitos decidem entrar nas aldeias apenas com o convite formal feito pelas lideranças, o que legitima a presença.

Para se conseguir a licença da Funai, o interessado precisa apresentar atestados médicos que assegurem seu bom estado de saúde, com a declaração médica de que não é portador de doenças infectocontagiosas.

No caso do turismo, por ser uma atividade desenvolvida pelos próprios indígenas, ocorre a entrada de pessoas sem esta prévia “triagem” da Funai. A cada comunidade cabe adotar seus critérios sanitários para o acesso às  aldeias; algumas adotam, outras não.

Há quase duas décadas os povos indígenas do Acre desenvolvem o turismo dentro de suas aldeias, atraindo pessoas de várias partes do mundo. Além de ser uma atividade que garante a circulação de renda dentro das comunidades (com a venda do artesanato), os festivais são vistos como uma forma de manter vivo os costumes e o modo de vida ancestral destas populações. Por meio deles são relembrados cantos, brincadeiras, jogos e as práticas espirituais por meio da ingestão da ayahuasca, do rapé e da caiçuma - a bebida feita a partir da fermentação da macaxeira.

Entre os povos do Acre, os Yawanawa são protagonistas na organização dos festivais culturais que atraem os turistas, em especial de fora do Brasil. Com a procura crescente pelos festivais, outros povos também passaram a organizar seus festivais. Para o público interessado apenas em viver a “espiritualidade da floresta”, foram criadas as vivências. 

Durante uma semana (ou até menos dias), os visitantes vivenciam os rituais espirituais daquele povo, sendo a ingestão da ayahuasca (uni) e a aplicação do rapé uma delas. Neste processo de purificação também há a famosa “vacina do sapo”, que é a aplicação do veneno do Kambô sobre a pele que, segundo as tradições indígenas, realiza a limpeza do corpo e do espírito. Cabe ao visitante decidir se faz a aplicação ou não.

Conforme o blog apurou, todas as vivências previstas para ocorrer nas próximas semanas foram canceladas. Em abril, os Yawanawa realizariam a celebração do aniversário da liderança da aldeia Nova Esperança, Bira Yawanawa. Por conta da pandemia, a celebração precisou ser cancelada, sendo transferida para uma data ainda não definida. .

Segundo Laura Yawanawa, presidente da Associação Sociocultural Yawanawa, a entrada de turistas nas aldeias da Terra Indígena do Rio Gregório, no município de Tarauacá, estão suspensas até que a crise do coronavírus seja resolvida.

Um dos mais importantes eventos do calendário Yawanawa é o Festival Mariri, que acontece em agosto. “Esperamos que até lá tudo isso já tenha passado”, diz Laura. A presidente diz que analisará a proposta de exigir exames médicos de quem quiser participar dos eventos organizados pela associação.  

Assim como os dos Yawanawa,  os festivais dos povos Shanenawa, Huni Kuin, Katukina, Puyanawa e os Ashaninka. acontecem entre os meses de junho, julho e agosto, no chamado “verão amazônico”, quando as chuvas ficam mais escassas e o acesso às aldeias facilitado.  Os Katukina da TI Katukina Campinas, em Cruzeiro do Sul, têm programado para o começo de junho o segundo festival Ancestral Varinawa.

Também em junho os Ashaninka, em Marechal Thaumaturgo, organizam as celebrações para comemorar o aniversário da aldeia. Durante todo o ano há visitas para se conhecer projetos desenvolvidos por eles, como o de reflorestamento e o sistema agroflorestal numa área próxima à sede de Marechal Thaumaturgo. Essas visitas estão suspensas.


Isolamento nas aldeias

Em junho  também há a festa dos Shanenawa da aldeia Shane Kaya, em Feijó. Na mesma aldeia, em agosto, vai ocorrer o aniversário de 100 anos do patriarca do povo Shanenawa, Shuyanne. 

A aldeia Shane Kaya é conhecida como a “aldeia das mulheres” por ter sua organização social e comunitária liderada por elas. Segundo Tânia Shanenawa, presidente da Associação Shane Kaya, mesmo antes da pandemia da Covid-19, a comunidade exigia atestado de saúde para quem participa das vivências e outras celebrações.

“Nós sempre fomos bem cautelosos. Mesmo antes desse surto  os turistas só entravam na aldeia depois de apresentar algumas documentações à Funai e ser autorizada. O nosso trabalho é feito com o conhecimento dos mesmos. Se caso a pessoa não estiver cumprindo o necessário não é autorizada a entrada”, explica ela. Como a aldeia está bem próxima da sede urbana de Feijó (menos de 10 km) a recomendação das lideranças é para que os Shanenawa evitem idas desnecessárias até lá. 

Liderança do povo Ashaninka e presidente da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj), Francisco Piyãko diz que todas as agendas de visitas para conhecer os projetos desenvolvidos dentro da TI Kampa do Rio Amônia foram suspensas. Outra forma de evitar um eventual contágio é a recomendação para que os Ashaninka evitem sair das aldeias para ir a centros urbanos como Marechal Thaumaturgo ou Cruzeiro do Sul.

“Essas medidas são para proteger nossas comunidades. Sei que não vai ser fácil controlar, mas vamos trabalhar com informação para que nossa comunidade se resguarde. Rio Branco já tem um caso positivo, e quando isso acontece outras pessoas já estão contaminadas”, avalia ele.    

Ainda não se sabe se todo o calendário de vivências e festivais dos povos indígenas do Acre para 2020 será mantido, alterado ou até  cancelado. Tudo vai depender de como se dará a manifestação do coronavírus no Brasil nos próximos meses e, especialmente, no Acre.

As lideranças torcem para que, até lá, a epidemia já tenha passado, e os turistas possam entrar nas aldeias sem problemas. Os festivais são vistos apenas não como uma forma de assegurar renda às comunidades, mas também como um momento de celebração e manutenção de suas práticas culturais e espirituais.  Neste momento, contudo, a melhor medida, de fato, é fechar as portas, pois o mais importante é a preservação da vida.






Leia  também: Uma cultura ressuscitada. Como os festivais recuperaram identidade cultural dos povos indígenas do Acre


terça-feira, 17 de março de 2020

Cerca (de) la frontera

Entrada da cidade boliviana de Cobija, Pando, cuja fronteira com o Acre foi fechada (Foto: Jardy Lopes)


A distância e o isolamento do Acre com o restante do país, de uma certa forma, dão tranquilidade quanto ao coronavírus. Até o presente momento nenhum caso confirmado da Covid-19 por aqui, apenas suspeitas logo descartadas nos exames. As autoridades estaduais de Saúde afirmam estar preparadas para enfrentar a nova doença que assusta o mundo.

O problema maior para a população acreana está nas nossas extensas fronteiras com a Bolívia e o Peru. Em ambos os casos temos cidades coladas umas nas outras, com o trânsito e a integração dos moradores dos dois lados da fronteira. Apesar de moedas e idiomas diferentes, a economia destas regiões depende uma da outra. A circulação de pessoas e mercadorias é constante. Além disso, há pessoas de outras partes do continente e até do mundo usando a tríplice fronteira em suas andanças ou movimentos migratórios. 

Bolívia e Peru já fizeram sua parte e fecharam a fronteira com o Brasil, via Acre, como forma de conter o avanço do vírus em seus territórios. Por lá, assim como aqui, o coronavírus se espalha de forma rápida. Enquanto isso, deste lado, o Palácio do Planalto vai vivendo sua lunática guerra anti-comunista. Não fossem as medidas técnicas e científicas do Ministério da Saúde (que não são de bom gosto do presidente da República), a Covid-19 poderia estar num efeito bem mais impactante. 

Quem sabe com as medidas adotadas do lado de lá da fronteira, a chegada do coronavírus ao Acre pela tríplice fronteira seja postergada, ou até evitada. No que depender de Bolsonaro, estamos ferrados. Somos um estado pobre, com quase 100% da população dependente do sistema público de Saúde. Nossos hospitais já conhecemos a realidade. O contagio de uma nova doença cujo tratamento é um desafio para a medicina seria devastador para nós.

Que o coronavírus continue a ficar sem saber sobre a existência deste lugarzinho chamado Acre.    

segunda-feira, 9 de março de 2020

Resex Chico Mendes 30 anos


Esta semana - precisamente no dia 12 de março - a Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes completa 30 anos de existência. Ao contrário do que disse um senador da República bastante ignorante sobre as questões do Acre (Márcio Bittar), a primeira unidade de conservação do país no modelo reserva extrativista não foi criada pelos governos petistas, mas sim por um decreto de 1990 do então presidente José Sanrey, do MDB, mesma sigla do parlamentar. 

E a Resex, podemos dizer, chega a suas três décadas de existência sem muito o quê comemorar. É justamente neste momento que ela passa por uma das maiores ofensivas contra seus marcos legais e contra as políticas públicas que garantem sinal de vida ao extrativismo. Se aprovado, o projeto de lei da deputada federal Mara Rocha (PSDB) - uma das principais vozes da bancada da motosserra no Congresso - que exclui áreas dos mais de 970 mil hectares abrirá as porteiras para alavancar ainda mais o desmatamento.

Portanto, posicionar-se contra a proposta é garantir a proteção de uma das últimas áreas de floresta na região do Acre mais impactada pela agropecuária, onde milhares de hectares de mata viraram pasto ao longo dos últimos 40, 50 anos. Com a política do atual governo local de fomentar o agronegócio, afrouxando a legislação ambiental, deixar a Reserva Chico Mendes intocável dentro da legislação é essencial para garantir a manutenção de um pedaço da Amazônia em pé.

Desde 2012 escrevo sobre esta emblemática unidade de proteção natural. Por ter sido idealizada e levar o nome de um dos maiores símbolos mundiais da causa ambiental, a Reserva Chico Mendes chama a atenção por conta do debate da relação (conflituosa) pecuária e Amazônia. Nos últimos anos a grande questão é sobre a viabilidade econômica do extrativismo. A extração do látex e a coleta de castanha são as principais atividades de base florestal, com o manejo madeireiro comunitário vindo bem depois.

Para muitos, porém, elas sozinhas não são capazes de garantir uma fonte segura de renda para as famílias, o que as empurra para a retirada ilegal de madeira e a criação de boi. A pecuária é, sim, hoje a principal atividade econômica dentro da unidade de conservação. O extrativismo - que deveria ser a fonte principal de renda - está em segundo plano. Uma complementação de renda.  Essa dualidade entre economia de base florestal e a agropecuária pode ser entendida melhor numa reportagem que fiz em 2018 para a Veja. 

Vários projetos foram desenvolvidos nos últimos 20 anos pelos governos petistas para garantir algum fôlego à economia extrativista. O mais importante foi a fábrica de preservativos Natex, sediada em Xapuri. O empreendimento estatal chegou a ter muito sucesso nos primeiros anos de vida, indo à falência não muito tempo depois. A falta do insumo principal (o látex natural) mais as ingerências políticas dentro do empreendimento são apontadas como as causas de sua bancarrota.

Houve a construção de uma fábrica que trabalharia com a madeira retirada de manejo sustentável. Numa parceria público-privada, ela também teve vida curta, sendo ressuscitada mais recentemente por uma indústria de São Paulo que opera com as toras retiradas a partir de um manejo de base comunitária - que vem dando certo até aqui.

Para garantir mercado aos produtos da floresta, os governos passados criaram uma política de subsídio, sobretudo para a borracha. Desde 2019, com a chegada do Partido Progressista ao poder, o governo vem dando um calote nos extrativistas, deixando de pagar o incentivo. Isso, mesmo com o recurso assegurado, já que é proveniente do programa de pagamento por redução do desmatamento, financiado pelo banco alemão KFW e o governo britânico.

Com a falta de incentivo, sem políticas de apoio ao extrativismo e ancorados pelos discursos de Jair Bolsonaro e do governador Gladson Cameli, alguns moradores (muitos deles invasores) da Reserva Chico Mendes aceleram seu processo de degradação ambiental. O lobby dos moradores que já transformaram estradas de seringa em grandes fazendas junto à bancada da motosserra também agrava a situação.

A efeméride desta importante unidade de conservação é o momento de chamar a atenção do Brasil e do mundo para o que vem acontecendo aqui nesta parte da Amazônia. Muitas pessoas morreram para garantir a proteção desta porção de floresta - incluindo Chico Mendes.

Ao invés de capangas com espingardas de tocaia esperando suas vítimas, hoje a maior ameaça vem de representantes eleitos pela sociedade, que usam mecanismos legais apenas para atacar seus adversários políticos. O PL da dupla Mara Rocha e Márcio Bittar nada mais é do que isso. Para eles, a desafetação da reserva é apenas uma forma de atingir o petismo acreano e sua florestania. Uma patética guerra ideológica que alimenta a eles e seu eleitorado. Eles não estão nem um pouco preocupado com o desenvolvimento do Acre, como tanto pregam.

O que está em jogo não é apenas a manutenção de uma unidade de conservação que leva o nome de Chico Mendes, mas uma enorme área de floresta rica em biodiversidade. Uma floresta que assegura o equilíbrio das chuvas tão essenciais para o agronegócio. Defender a fragilização de mecanismos legais para privilegiar um grupo de desmatadores é defender o ilegal, o criminoso. É colocar em risco a sobrevivência desta e das futuras gerações.

Vida longa à Reserva Extrativista Chico Mendes. 
Vida longa à Amazônia.           

segunda-feira, 2 de março de 2020

A desconstrução de um legado

Para primo de Chico Mendes, PL que reduz tamanho da reserva ameaça legado de do líder seringueiro 




Raimundão: este projeto nos humilha, desqualifica e mancha a imagem de Chico Mendes (Ramon Aquim)


O projeto de lei 6024/19 apresentado no fim do ano passado pela deputada federal Mara Rocha (PSDB) que reduz o tamanho da Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes representa uma grave ameaça às conquistas obtidas pelas comunidades seringueiras a partir da luta de seu líder principal, Chico Mendes. Essa é a avaliação de Raimundo Mendes, o Raimundão, primo e braço-direito de Chico durante os anos 1970 e 1980 nos movimentos de resistência contra a transformação da floresta em pasto.

Hoje, aos 75 anos, Raimundão disse que esperaria ter uma velhice mais tranquila, seguro de que as conquistas obtidas pelos extrativistas não fossem alvo de ataques por parte dos representantes eleitos por um sistema democrático. “Eu confesso que estou muito triste e muito revoltado com o que está acontecendo”, firma.

Segundo ele, o projeto de Mara Rocha – uma das integrantes da chamada bancada da motosserra – foi elaborado sem se consultar os moradores e as verdadeiras lideranças de base da unidade de proteção. “Eles se apegaram a alguns elementos que entraram na reserva sem direito a estar na reserva”, afirma. A fala é uma referência ao pequeno grupo de moradores, apontados como os maiores desmatadores, cujos seringais se transformaram em grandes fazendas de gado.

Morador do Seringal Floresta, em Xapuri, Raimundão esteve em Rio Branco na semana passada para participar de reunião que definiu o plano de ação da Aliança dos Povos da Floresta para 2020. Ele classifica o atual momento político do Acre e do Brasil como delicado e grave para as comunidades tradicionais da floresta.

Leia a entrevista dada por ele ao blog:     


Passados 30 anos da morte de Chico Mendes e da criação da reserva extrativista, a unidade de conservação idealizada pelo líder seringueiro passa por uma das maiores ofensivas por parte dos políticos locais. Como o senhor avalia toda essa situação?

Raimundão:
Estamos vivendo um momento muito delicado. Se não bastassem algumas situações que a gente já vinha tendo dentro da reserva - como a presença de moradores que não é da nossa categoria por conta dos próprios seringueiros, extrativistas, que vendem parte de suas colocações - e com os órgãos competentes não dando a devida resposta para coibir isso, agora nós temos um problema ainda maior que é a tentativa do governo central, e o estadual também não fica atrás porque faz parte dessa articulação, que é de diminuir o nosso território. É um momento muito grave que nós estamos vivendo. Isso exige nossa atenção e agilidade para retomar nossas organizações de base. Já estamos retomando este reforço com a volta da Aliança dos Povos da Floresta porque não são só as comunidades extrativistas que estão ameaçadas, mas também as indígenas. Precisamos estar todos juntos neste momento, nos reagruparmos como já fizemos á no passado.

Como o senhor avalia o projeto de lei apresentado pela deputada federal Mara Rocha (PSDB) que reduz o tamanho da Reserva Chico Mendes?


Raimundão: Eu o considero uma covardia, e aqui não falo apenas como Raimundão, mas pelos demais seringueiros. São parlamentares que no lugar de se colocarem à disposição da organização dos trabalhadores extrativistas e melhorar seu padrão de vida, captando recursos para fortalecer nosso sistema de cooperativismo, de reflorestamento, incluindo essas áreas que foram descaracterizadas, a nossa educação, eles propõem a redução da reserva. Para nós isso é um ato de covardia. Nós vamos lutar para que este projeto de lei não seja aprovado pois ele é um desastre para nossas lutas, nossas conquistas.

Quais os riscos que uma possível aprovação deste projeto representa para quem vive dentro dos seringais?


Raimundão:
O incentivo para novos desmatamentos, a entrada de mais moradores sem o perfil extrativista. Isso só vai incentivar a cada dia mais a destruição da nossa reserva. Haverá uma desmoralização de nossas conquistas, uma desconfiguração da imagem de nosso companheiro Chico Mendes que deu a sua vida em defesa dessa causa e por essa causa. É uma coisa assim muito dolorida e de grande prejuízo para nós, os extrativistas.

O senhor esteve ao lado do Chico Mendes no auge do movimento de resistência contra a destruição da floresta para ser transformada em pasto nas décadas de 1970 e 1980. Junto com ele formou os “empates”, foram ameaçados de morte e outros tipos de intimidação. Hoje, aos 75 anos, o senhor imaginaria ver as conquistas obtidas a partir desta luta ameaçadas pelos políticos locais?

Raimundão:
Sinceramente eu não esperava que, 30 anos depois, a gente viesse a viver uma situação dessa gravidade. Inclusive tendo um governo que se elegeu num processo democrático tomando estas atitudes contra as populações tradicionais da Amazônia. Eu confesso que estou muito triste e muito revoltado com o que está acontecendo. Eu esperava que ao envelhecer, conforme me encontro hoje com 75 anos de idade, a gente tivesse a certeza de que tudo que a gente conquistou estivesse consolidado Eu gostaria que nossas autoridades tivessem a dignidade de respeitar as nossas conquistas e ajudar a melhorar ainda mais a vida dessas populações, e que nossa Amazônia fosse defendida e preservada. Era isso o que eu esperava, mas não é o que estou vendo. Estou vendo um governo destruindo essas conquistas, inclusive usando a mentira, dizendo que as populações destas regiões estão vivendo na miséria. Isso é uma grande mentira. Se olharmos hoje os centros urbanos é lá que estamos vendo o crescimento da pobreza, que vai levar à miséria como foi no passado.

Os parlamentares que apoiam este projeto de lei chegaram a se reunir com vocês, os moradores da reserva que estão na base, reuniram-se com a comunidade?

Raimundão: Eles se apegaram a alguns elementos que entraram na reserva sem direito a estar na reserva. Eu cito um vereador lá de Xapuri que tem o nome de Capelão* e um fazendeiro da região de Brasileia. Eles [os parlamentares] se encontraram com essas pessoas. Nunca procuraram as verdadeiras lideranças da reserva. Eles fizeram todo este complô sem a nossa participação e não aceitamos este comportamento. Pelo contrário, condenamos este comportamento deles. Repito: enquanto representantes do povo do Acre eles deveriam ter a dignidade de propor melhorias para a nossa reserva, e não a destruição, a diminuição, pois isso nos humilha, desqualifica e mancha a imagem de nosso companheiro maior que foi o Chico Mendes.

O senador Márcio Bittar diz que quem mora dentro da Resex Chico Mendes vive em situação de miséria. O que o senhor acha dessa afirmação?

Raimundão
: É mais uma grande mentira deste cidadão. Ele nunca viveu nas florestas 20, 30 anos atrás, Ele não sabe como era a realidade dos povos da floresta no passado e não sabe como é a realidade agora no presente. Ele tem ouvido apenas alguns interesseiros que querem destruir as nossas conquistas. Ele [o senador] é altamente injusto e mentiroso. Miséria tem na periferia das cidades, e não lá dentro dos seringais. Hoje lá dentro 90% da nossa população vivem uma melhoria na qualidade de vida que não tinha antes. Isso passa por ter uma moradia digna, segurança alimentar, acesso a serviços básicos como saúde e educação. Seu Márcio Bittar e dona Mara Rocha, irmã do vice-governador Major Rocha, deveriam ter a dignidade de ouvir as lideranças verdadeiras e não se apegar a falsas lideranças que existem lá dentro, cuja vivência dentro da reserva é apenas para atender suas ambições, suas vaidades pessoais.

E é possível sobreviver dentro da floresta sem destruí-la?


Raimundão: É possível sim viver da floresta sem destruí-la. Usar a floresta de forma estratégica, cuidadosa e viver de forma tranquila. Não só bem alimentado como também longe da violência das cidades. Hoje temos uma boa qualidade de vida dentro da reserva. Temos acesso à comunicação, saúde, escolas para nossos filhos e netos. Antes a gente vivia no abandono. São conquistas obtidas nestes últimos 20 anos que o senhor Márcio Bittar e a dona Mara Rocha nunca atuaram para que tivéssemos acesso a isso.

O senhor avalia que as atuais políticas do governo federal e estadual, mais as propostas apresentadas pela bancada em Brasília, colocam em risco o legado de Chico Mendes?

Raimundão:
Todo o legado de luta do Chico Mendes e os cabelos brancos meus e dos demais companheiros que ainda estão vivos está altamente ameaçado com o comportamento deste governo e destes parlamentares.