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quinta-feira, 19 de março de 2020

Aldeias fechadas

Coronavírus leva indígenas do Acre a "fechar aldeias" e interromper turismo


Povo Yawanawa durante celebração em festival que atrai turistas de todo o mundo; com pandemia, festivais no AC estão suspensos (Foto: Gleilson Miranda)



Com o avanço do coronavírus pelo Brasil e com os primeiros casos já confirmados no Acre, as comunidades indígenas do estado aos poucos vão sentindo os impactos da epidemia em suas vidas sociais. Neste primeiro momento, eles se dão apenas no campo econômico. Como o turismo passou a ser uma das principais atividades econômicas para muitas comunidades, a restrição na entrada de não-indígenas (sobretudo estrangeiros) tende a comprometer a obtenção de renda.

A restrição no acesso às terras indígenas (TIs), contudo, se faz necessária diante do elevado grau de contágio do vírus, e pelos indígenas terem uma imunidade mais baixa, fazendo com que uma contaminação pelo coronavírus tenha efeito devastador nas aldeias.

Na terça-feira, 17, a Fundação Nacional do Índio (Funai) decidiu suspender a emissão de novas autorizações para entrada em terras indígenas pelos próximos 30 dias. Segundo o órgão, a portaria é uma forma de evitar a proliferação do coronavírus nas aldeias.

Já na segunda-feira, 16, em Cruzeiro do Sul, integrantes da Funai, da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), ligada ao Ministério da Saúde, da Polícia Federal e lideranças indígenas do Vale do Juruá se reuniram para tratar da entrada de não-indígenas dentro dos territórios tradicionais.

Em tese, toda pessoa que deseja entrar em alguma comunidade indígena precisa do aval da Funai. Como a emissão é demorada - levando, em alguns casos, até anos para ser emitida - muitos decidem entrar nas aldeias apenas com o convite formal feito pelas lideranças, o que legitima a presença.

Para se conseguir a licença da Funai, o interessado precisa apresentar atestados médicos que assegurem seu bom estado de saúde, com a declaração médica de que não é portador de doenças infectocontagiosas.

No caso do turismo, por ser uma atividade desenvolvida pelos próprios indígenas, ocorre a entrada de pessoas sem esta prévia “triagem” da Funai. A cada comunidade cabe adotar seus critérios sanitários para o acesso às  aldeias; algumas adotam, outras não.

Há quase duas décadas os povos indígenas do Acre desenvolvem o turismo dentro de suas aldeias, atraindo pessoas de várias partes do mundo. Além de ser uma atividade que garante a circulação de renda dentro das comunidades (com a venda do artesanato), os festivais são vistos como uma forma de manter vivo os costumes e o modo de vida ancestral destas populações. Por meio deles são relembrados cantos, brincadeiras, jogos e as práticas espirituais por meio da ingestão da ayahuasca, do rapé e da caiçuma - a bebida feita a partir da fermentação da macaxeira.

Entre os povos do Acre, os Yawanawa são protagonistas na organização dos festivais culturais que atraem os turistas, em especial de fora do Brasil. Com a procura crescente pelos festivais, outros povos também passaram a organizar seus festivais. Para o público interessado apenas em viver a “espiritualidade da floresta”, foram criadas as vivências. 

Durante uma semana (ou até menos dias), os visitantes vivenciam os rituais espirituais daquele povo, sendo a ingestão da ayahuasca (uni) e a aplicação do rapé uma delas. Neste processo de purificação também há a famosa “vacina do sapo”, que é a aplicação do veneno do Kambô sobre a pele que, segundo as tradições indígenas, realiza a limpeza do corpo e do espírito. Cabe ao visitante decidir se faz a aplicação ou não.

Conforme o blog apurou, todas as vivências previstas para ocorrer nas próximas semanas foram canceladas. Em abril, os Yawanawa realizariam a celebração do aniversário da liderança da aldeia Nova Esperança, Bira Yawanawa. Por conta da pandemia, a celebração precisou ser cancelada, sendo transferida para uma data ainda não definida. .

Segundo Laura Yawanawa, presidente da Associação Sociocultural Yawanawa, a entrada de turistas nas aldeias da Terra Indígena do Rio Gregório, no município de Tarauacá, estão suspensas até que a crise do coronavírus seja resolvida.

Um dos mais importantes eventos do calendário Yawanawa é o Festival Mariri, que acontece em agosto. “Esperamos que até lá tudo isso já tenha passado”, diz Laura. A presidente diz que analisará a proposta de exigir exames médicos de quem quiser participar dos eventos organizados pela associação.  

Assim como os dos Yawanawa,  os festivais dos povos Shanenawa, Huni Kuin, Katukina, Puyanawa e os Ashaninka. acontecem entre os meses de junho, julho e agosto, no chamado “verão amazônico”, quando as chuvas ficam mais escassas e o acesso às aldeias facilitado.  Os Katukina da TI Katukina Campinas, em Cruzeiro do Sul, têm programado para o começo de junho o segundo festival Ancestral Varinawa.

Também em junho os Ashaninka, em Marechal Thaumaturgo, organizam as celebrações para comemorar o aniversário da aldeia. Durante todo o ano há visitas para se conhecer projetos desenvolvidos por eles, como o de reflorestamento e o sistema agroflorestal numa área próxima à sede de Marechal Thaumaturgo. Essas visitas estão suspensas.


Isolamento nas aldeias

Em junho  também há a festa dos Shanenawa da aldeia Shane Kaya, em Feijó. Na mesma aldeia, em agosto, vai ocorrer o aniversário de 100 anos do patriarca do povo Shanenawa, Shuyanne. 

A aldeia Shane Kaya é conhecida como a “aldeia das mulheres” por ter sua organização social e comunitária liderada por elas. Segundo Tânia Shanenawa, presidente da Associação Shane Kaya, mesmo antes da pandemia da Covid-19, a comunidade exigia atestado de saúde para quem participa das vivências e outras celebrações.

“Nós sempre fomos bem cautelosos. Mesmo antes desse surto  os turistas só entravam na aldeia depois de apresentar algumas documentações à Funai e ser autorizada. O nosso trabalho é feito com o conhecimento dos mesmos. Se caso a pessoa não estiver cumprindo o necessário não é autorizada a entrada”, explica ela. Como a aldeia está bem próxima da sede urbana de Feijó (menos de 10 km) a recomendação das lideranças é para que os Shanenawa evitem idas desnecessárias até lá. 

Liderança do povo Ashaninka e presidente da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj), Francisco Piyãko diz que todas as agendas de visitas para conhecer os projetos desenvolvidos dentro da TI Kampa do Rio Amônia foram suspensas. Outra forma de evitar um eventual contágio é a recomendação para que os Ashaninka evitem sair das aldeias para ir a centros urbanos como Marechal Thaumaturgo ou Cruzeiro do Sul.

“Essas medidas são para proteger nossas comunidades. Sei que não vai ser fácil controlar, mas vamos trabalhar com informação para que nossa comunidade se resguarde. Rio Branco já tem um caso positivo, e quando isso acontece outras pessoas já estão contaminadas”, avalia ele.    

Ainda não se sabe se todo o calendário de vivências e festivais dos povos indígenas do Acre para 2020 será mantido, alterado ou até  cancelado. Tudo vai depender de como se dará a manifestação do coronavírus no Brasil nos próximos meses e, especialmente, no Acre.

As lideranças torcem para que, até lá, a epidemia já tenha passado, e os turistas possam entrar nas aldeias sem problemas. Os festivais são vistos apenas não como uma forma de assegurar renda às comunidades, mas também como um momento de celebração e manutenção de suas práticas culturais e espirituais.  Neste momento, contudo, a melhor medida, de fato, é fechar as portas, pois o mais importante é a preservação da vida.






Leia  também: Uma cultura ressuscitada. Como os festivais recuperaram identidade cultural dos povos indígenas do Acre


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