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terça-feira, 28 de setembro de 2021

S.O.S Acre

 A Amazônia no Acre pede socorro  


No Brasil, quando se fala em políticas de proteção da Floresta Amazônica, muito se atribui apenas ao governo federal a responsabilidade. A partir do momento em que a Presidência da República é ocupada por alguém com visão totalmente antiambiental e anti-indígena, é bem mais fácil jogar todo o ônus da atual devastação do bioma nos ombros de Brasília. Todavia, é importante ressaltar que a Amazônia Legal é formada por nove Estados com governos regionais autônomos, e que esses governos também têm muita responsabilidade direta em proteger a floresta.

Vejamos o que acontece aqui, no pequeno e quase invisível Acre, no extremo oeste da Amazônia brasileira.  O Estado, que por 20 anos exerceu certo protagonismo na preservação de sua cobertura florestal, hoje é referência naquilo que há de pior em termos de política ambiental. O ritmo sem precedentes de devastação da Amazônia no Acre é consequência tanto do desmonte das políticas de proteção do meio ambiente promovida pelo governo federal quanto pelo local.  

Por aqui, a estratégia de deixar a boiada passar foi adotada com muito mais antecedência pelo governo de Gladson Cameli (PP) do que aquela exposta por Ricardo Salles diante de um país assustado com a pandemia da Covid-19. Ainda durante sua campanha para governador, Cameli tinha como promessa fazer do agronegócio o carro-chefe da economia acreana. Para isso, ele garantia desburocratizar e flexibilizar as normas ambientais do Estado. Também muito se dizia em tirar a fiscalização do pescoço de quem quer produzir.

A principal missão de Gladson Cameli ao assumir o governo do Acre, em janeiro de 2019, era destruir todo o arcabouço institucional de proteção da Amazônia construído durante as duas décadas de governos do PT. Tal política gestada durante o chamado governo da floresta de Jorge Viana (1999-2006), conhecida como florestania, passou a ser o inimigo público número um de Gladson Cameli. Na visão dele, a florestania era responsável por colocar o Acre na miséria, apontando o agronegócio como solução mágica.   

Assim foi feito. Num de seus primeiros eventos públicos já como governador, Gladson Cameli desmoralizou a atuação dos agentes do Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac), afirmando que ninguém precisava mais pagar as multas ambientais porque “agora quem está mandando sou eu”. A fala de Cameli foi o sinal verde para a abertura da porteira, e a boiada avança sem dó desde então. O discurso de Cameli ocorreu no município de Sena Madureira, que hoje figura entre os campeões de desmatamento e fogo dentro da Amazônia brasileira.

De acordo com o último boletim do desmatamento do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), Sena Madureira foi o quinto município da Amazônia Legal que mais derrubou floresta em agosto de 2021. Aliás, o Acre foi o terceiro Estado que mais contribuiu para a destruição do bioma mês passado; foram 236 km2 de Amazônia destruídos no pequeno Acre; em julho, já tinham sido outros 313 km2 de mata devastados.

Conforme o Imazon, entre agosto de 2020 e julho deste ano, o Acre viu desaparecer 927 km2 de Floresta Amazônica. Os números são estarrecedores se tratando de um território tão pequeno como é o Acre, quando comparado ao gigantesco vizinho Amazonas e ao Pará. Até 2019, o Acre ainda tinha ao menos 86% de seu território amazônico intacto. Ao se olhar os dados do Imazon e do Inpe, percebe-se que o desmatamento avança justamente para as áreas com maior cobertura florestal intacta.

Depois de Sena Madureira, Feijó e Tarauacá são os municípios com os maiores registros de áreas desmatadas e focos de calor desde 2019; isso não apenas dentro do Acre, mas entre os demais municípios do Norte.

Quando analisamos os dados das queimadas, observamos que a maior quantidade de focos de calor desde 2019 se concentra justamente nestes três municípios, localizados em regiões de uma Amazônia ainda bem preservada. Em 2021, conforme o Boletim de Queimadas do Inpe, Feijó, Tarauacá e Sena Madureira lideram o ranking do fogo. É sobre essa região do Acre que avança a “fronteira agrícola”, o “arco do desmatamento”.

Após todo o leste acreano ter sido devastado para a abertura de fazendas de gado nos últimos 40 anos - com a política da ditadura militar (1964-1985) de “ocupar” a Amazônia -  agora a devastação avança rumo ao oeste de floresta intacta. A exploração madeireira legalizada por meio de planos de manejo nada sustentáveis também causa impactos imensuráveis. Agora, a atividade vai ganhar ainda mais intensidade com a proposta do governo Gladson Cameli de entregar milhares de hectares de florestas públicas para “exploração comercial”.  

A política do governo Gladson Cameli de patrocinar projetos de abertura de estradas em regiões hoje isoladas e preservadas é outro fator para um desmatamento quase sem controle no estado. O projeto mais ameaçador é o da construção da estrada entre Cruzeiro do Sul, a segunda maior cidade acreana, e Pucallpa, capital do departamento peruano de Ucayali.

Caso de fato saia do papel, a rodovia provocará a destruição de uma das regiões mais intocadas do bioma por meio da grilagem, da extração de madeira, do garimpo e do tráfico internacional de drogas. A rodovia é uma grave ameaça para a preservação da Amazônia, independentemente das linhas fronteiriças.

E é assim, no caminho de rodovias e com as porteiras escancaradas, que o Acre dá a sua infeliz contribuição para o aumento da destruição da mais importante floresta tropical do mundo - tão importante para mitigar os efeitos da crise climática. Uma crise climática já vivida pela população local com enchentes e secas acontecendo com mais frequência e maior intensidade. De mocinhos passamos a ser vilões na proteção do bioma. A Amazônia no Acre clama por ajuda.


Este artigo foi publicado originalmente no site ((o)) eco

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Invasões sem fronteiras

Rodovia no Peru ameaça territórios indígenas no Acre 

 

TI Kampa do Rio Amônia: após ser invadida por madeireiras numa passado nem tão distante, Ashaninka temem novos impactos (Foto: Secom/AC)

 

Ao menos 30 terras indígenas no Brasil e no Peru, localizadas nas bacias dos rios Juruá, Ucayali e Tamaya, estão ameaçadas pela retomada das obras de recuperação da rodovia UC-105 situada no lado peruano. Indígenas do estado do Acre alertam que a região ficará cercada por diversas frentes que trarão devastação ambiental e social. Além da retirada ilegal de madeira, outras atividades de elevados efeitos sociais e ambientais tendem a ser impulsionadas, como a mineração e a indústria petrolífera. O tráfico internacional de drogas também tende a tirar benefícios da rodovia.  


Preocupados com os impactos que a reabertura da estrada provocará em suas terras nos dois lados da fronteira, os indígenas do povo Ashaninka se reuniram em agosto passado para denunciar o caso por meio do dossiê “A Estrada Ilegal Nueva Italia – Puerto Breu: Uma Grande Ameaça para os Povos Indígenas do Yurúa, Alto Tamaya e Alto Juruá”.

No lado brasileiro, quatro terras indígenas e uma unidade de conservação estão ameaçadas pelos impactos da rodovia: TI Ashaninka do Rio Amônia, TI Arara do Rio Amônia, TI Kaxinawa/ Ashaninka do Rio Breu e TI Jaminawa Arara do Rio Bagé e Reserva Extrativista do Alto Juruá.

A rodovia foi construída no final da década de 1980 por uma empresa petrolífera norte-americana, mas foi utilizada ao longo dos anos 1990 pelas madeireiras para o transporte das toras, pressionando o lado brasileiro até os anos 2000.

A liderança Francisco Piyãko foi uma das vozes a denunciar a invasão do território Ashaninka pelas madeireiras peruanas já naquela época. Com 87 mil hectares, a Terra Indígena (TI) Kampa do Rio Amônia está no município de Marechal Thaumaturgo, no Acre, no limite fronteiriço entre Brasil e Peru. Para Francisco Piyãko, os impactos sociais e ambientais com o retorno da extração de madeira – a partir da recuperação da UC-105 – tendem a ser bem mais graves e preocupantes do que os ocorridos no passado.

Além da retirada ilegal de madeira, outras atividades de elevados efeitos sociais e ambientais tendem a ser impulsionadas, como a mineração e a indústria petrolífera. O tráfico internacional de drogas também tende a tirar benefícios da rodovia.  

“Estamos passando por um momento muito preocupante. Diante de todos os conflitos que a gente já teve aqui nesta fronteira, este é o pior. Nós vivemos em 2005, mais ou menos, uma situação muito tensa de invasão de madeireira em nosso território. Mas foi só por um período”, diz a liderança do povo Ashaninka, em entrevista à Amazônia Real. “Vão estar trazendo para a região um conflito eterno”.

Com a reconexão rodoviária entre Nueva Italia e Puerto Breu, no departamento peruano de Ucayali, a pouco mais de 10 km de distância da faixa de fronteira, e, consequentemente, da TI Kampa do Rio Amônia, a liderança avalia que a estrada é uma ameaça não apenas para seus parentes no Peru, como também para os Ashaninka e outros povos do lado brasileiro. “Acabou a nossa paz.  Não vai ser uma luta para tirar os madeireiros da região. Eles vão estar assentados ao longo da estrada.”

A proposta, conforme Francisco Piyãko, é que essas famílias [de madeireiros] ganhem lotes de terra para que cultivem coca para os laboratórios dos cartéis do tráfico. O relatório aponta, a partir de imagens de satélite, o aumento na área de cultivo da coca, bem como a abertura de pistas de pouso, de onde a cocaína peruana é exportada para o mundo.

A UC-105 é uma rota do tráfico internacional de drogas. É nessa porção da floresta peruana que se concentra parte do cultivo da folha de coca e os laboratórios para o refinamento da cocaína. Do lado brasileiro, a facção criminosa Comando Vermelho domina toda a logística da compra e distribuição da droga. Os rios e igarapés servem como rota para o entorpecente chegar até as cidades acreanas e outros mercados no país.

“Depois desta estrada feita eles vão assentar as famílias e tomar conta da região. É do lado do Peru, mas o impacto é muito direto para nossa comunidade, vai tirar nossa tranquilidade, a nossa paz. Nós vamos ficar numa situação muito difícil”, afirma o líder indígena. Uma de suas preocupações é com a degradação pela qual o rio Amônia passará com a intensificação da atividade madeireira e do garimpo. É do Amônia onde os Ashaninka retiram água para consumo e a pesca.

Durante as décadas de 1980 e 1990, quando a extração de madeira esteve em seu auge dentro do território, os Ashaninka também tiveram impactos sociais e culturais. Por conta da presença dos trabalhadores brancos das empresas, os Ashaninka por muito pouco não perderam seu modo de vida tradicional – deixando de lado a língua e as vestes – além de problemas com o alcoolismo.  

“Nossos rios estão ameaçados de ser contaminados. E não é só a comunidade Ashaninka que vai estar prejudicada. São todos os que moram no Juruá, indígenas ou não indígenas”, ressalta Francisco Piyãko.

Segundo a denúncia dos Ashaninka, a recuperação da UC-105 atravessaria uma extensão de 107 km dentro de terras indígenas, que no país vizinho são chamadas de comunidades nativas. A preocupação se dá com a expansão dos impactos nas duas margens da rodovia.  

Presidente da Organización Regional de Aidesep Ucayali (Orau), entidade que representa 15 diferentes povos indígenas dentro do departamento peruano, Jiribati Ashaninka Diques afirma que a ausência de estudos de impactos sociais e ambientais na reabertura da UC-105 – além da falta de consulta prévia – acabam por agravar ainda mais a situação para as comunidades do entorno.  


Leia a reportagem completa na Amazônia Real e veja mais depoimentos de lideranças do Peru

terça-feira, 24 de agosto de 2021

o governo motosserra

A Amazônia no Acre é destruída em velocidade sem igual na história recente

 

Os dados oficiais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe, de aferição dos níveis de desmatamento no Brasil atestam que os quase três anos do governo Gladson Cameli (PP) têm sido os mais devastadores para a preservação da Amazônia no Acre. A destruição das políticas ambientais promovidas por Jair Bolsonaro no plano federal acabam por ofuscar, dos governos locais, as suas responsabilidades de também adotarem medidas rígidas de proteção do mais importante bioma do país.


O desmatamento descontrolado vivenciado pelo Acre é a prova disso. Numa tentativa de se vingar e de se livrar das políticas de proteção ambiental estruturadas durante os 20 anos de governos petistas no Acre, Gladson Cameli atuou para desmontar todo o arcabouço de proteção da floresta, fazendo a boiada passar bem antes da ordem dada pelo ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles.

A prova disso está disponível a toda cidadã e cidadão. Ao olhar para os gráficos do Inpe, podemos dizer, sem exageros, que este é um dos piores momentos de preservação da Floresta Amazônica no território acreano.  Aliás, desde 2019, o blog não deixa de falar, com muita recorrência e infelizmente, deste que considero o pior momento de proteção ambiental da história recente do estado.

Segundo o instituto, no agregado mensal, entre 2019 e 2021, o Acre viu desaparecer uma área de 991,88 quilômetros quadrados de Amazônia. A quantidade de floresta destruída em três anos de Gladson Cameli é o dobro do que foi desmatado durante o quadriênio de seu antecessor, o petista Tião Viana: 468,8 quilômetros quadrados.

Ou seja, desde a chegada de Cameli ao governo, o Acre experimenta uma velocidade de devastação da floresta sem precedentes; talvez até haja semelhança, com as décadas de 1970 e 1980, quando a floresta acreana passou a ser destruída pela política da ditadura militar (1964-1985) de ocupação da Amazônia. É com essa mesma visão que o atual governador tenta fazer, da versão mais arcaica do agronegócio, o carro-chefe da economia local.  

Essa destruição recorde da cobertura florestal acontece justo no momento em que todo o mundo vive, espantado, as consequências de uma crise climática que, a cada ano, se acentua - sobretudo para nós, aqui no desmatado e enfumaçado Acre, com secas e enchentes severas.

No momento em que lideranças políticas e empresariais de todo o mundo discutem novos modelos de desenvolvimento econômico, que levem em consideração, acima de tudo, práticas sustentáveis e o respeito ao meio ambiente, o Acre vai no sentido oposto.

O governo Gladson Cameli não só destruiu a estrutura de proteção ambiental, como fez questão de se gabar disso (veja postagem abaixo). Disse que ninguém precisava mais pagar as multas ambientais. A consequência é vermos áreas e mais áreas da Amazônia sendo destruídas.

Além de recordista em desmatamento, o Acre também está em queimadas. Enquanto o bioma Amazônia registra, até a presente data, uma redução de 10% no registro de focos de queimada em 2021, na comparação com o mesmo intervalo de tempo de 2020, o Acre tem elevação de 30%

São tempos tenebrosos para a proteção da nossa floresta. Ao invés de assumir o protagonismo nas discussões globais sobre as mitigações dos efeitos das mudanças climáticas e, sim, ganhar dinheiro com isso, o pequeno Acre ganhou o papel de vilão.

A continuar neste ritmo, a pergunta que fica é: o que sobrará de cobertura florestal até o fim do governo Gladson Cameli, em 2022 ou 2026, caso se reeleja? Não sabemos o quanto de floresta vai sobrar até o final do governo Gladson Cameli, mas com certeza o título de governador motosserra de ouro já lhe está garantido.  

Quer saber mais sobre o ambiente político acreano desfavorável para a proteção da Amazônia? Ouça a minha coluna na CBN Rio Branco

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

desburocratizar para detonar

Durante sua campanha ao governo do Acre, em 2018, o então senador Gladson Cameli (PP) dizia que iria desburocratizar, flexibilizar a legislação e a fiscalização ambiental para alavancar o agronegócio. Desde então, o Acre tem batido recorde de desmatamento e queimadas ano após ano. Em 2021, continuamos, proporcionalmente, à frente de estados como Amazonas, Mato Grosso e Pará no registro de focos de queimada, quando se compara com o ano passado.


Em julho deste ano, o total de área desmatada no Acre chegou a 313 quilômetros quadrados; na comparação com o mesmo mês de 2020, houve o aumento assustador de 124%, quando o estado perdeu 140 quilômetros quadrados. Os dados fazem parte do boletim de desmatamento elaborado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

Ou seja, a devastação da Floresta Amazônica continua numa velocidade acelerada, e sem perspectiva de contenção. O ambiente político local, desde a eleição de Gladson Cameli, passou a ser totalmente favorável para se ter a garantia da impunidade para quem destrói o meio ambiente.

Cameli desautorizou os fiscais do Imac (instituto de Meio Ambiente do Acre) de realizarem seus trabalhos, e disse que ninguém mais precisava pagar multa ambiental porque "agora quem está mandando sou eu". "Não pague", disse ele, em 2019, ao assumir o governo.

Neste mesmo discurso ele e seu secretário de Meio Ambiente, Israel Milani, continuam a sustentar, mesmo uma devastação da Amazônia sem precedentes em curso no Acre. “O governador nos deu a missão de destravar as políticas ambientais do nosso estado e é isso que estamos fazendo dentro da legalidade”, disse Milani, em junho, em agenda ao lado de Cameli, em Cruzeiro do Sul.

As palavras dele foram corroboradas pelo chefe: “O que mais eu peço para a minha equipe é que não atrapalhe a vida das pessoas. O lema do nosso governo é desburocratizar”. O tal desburocratizar e não atrapalhar a vida das pessoas, entendam, nada mais é do que fragilizar a fiscalização e não ter emissão de multas para quem está destruíndo a Amazônia.

O resultado dessa política? Sentimos os efeitos práticos dela todos os dias.


Assista ao vídeo abaixo e entenda o porquê de estarmos enfrentando, ano após ano, essa crise ambiental.  

 


terça-feira, 17 de agosto de 2021

Agosto do fogo

(Fotografia: Sérgio Vale/Amazônia Real/ago/2020)
 

 

Agosto, a cada ano de verão amazônico, consolida-se como o mês do fogo. É em agosto que as condições climatológicas estão “perfeitas” para fazer aquela fogueira na pastagem, no roçado, na mata recém-desmatada, além dos delinquentes que tocam fogo em áreas de terrenos baldios ou na vegetação de beira de estrada. São nestes dias que as temperaturas estão elevadas, e há um acúmulo maior do período sem chuvas. Portanto, basta jogar o palito de fósforo que o mato estará em chamas em segundos.


Os dados do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), atestam agosto como o mês do fogo no Acre, e em toda a porção sul da Amazônia, que inclui partes da Bolívia e do Peru, o sul do Amazonas, sudoeste do Pará, todo o estado de Rondônia e Mato Grosso.   

Vejamos os dados do Acre: dos 1.884 focos de queimadas registrados pelos satélites no acumulado de todo 2021, 1.356 foram, apenas, nestes 17 dias de agosto. Em pouco mais de duas semanas, o Acre queimou mais do que o observado em sete meses. Há uma explicação para isso: nosso inverno amazônico foi bastante rigoroso e prolongado esse ano, criando as condições (muita umidade) para a não prática das queimadas - ou pelo menos retardando seu início.

A situação tem se agravado nos últimos dias, sobretudo para a saúde. A piora da qualidade do ar é evidente. A fumaça toma de conta das cidades acreanas. Segundo o secretário de Meio Ambiente de Rio Branco, Normando Sales, o pior ainda está por vir. De acordo com ele, a tendência é da intensificação das queimadas rurais, para a queima do roçado, pastagem e áreas de floresta recentemente derrubadas. Até o fim de setembro - ou enquanto as chuvas não der as caras - o fogaréu vai comer solto.

Diante de todos estes prognósticos, é esperar das autoridades ambientais que façam seu papel para combater as queimadas, protegendo nossa fauna e flora, e também a saúde do povo acreano. É preciso cobrar do governo - cujo governador já declarou não ser preciso pagar multa ambiental - providências, e saber se realmente está fiscalizando e punindo os infratores.  

Aqui vale destacar outro dado negativo: no acumulado de 2021, na comparação com igual intervalo de 2020, o Acre está entre os poucos estados da Amazônia Legal a apresentar, proporcionalmente, aumento no registro de queimadas: 17%. Estados como Amazonas, Pará e Mato Grosso, que têm o dobro do tamanho territorial do nosso, apresentam redução - pelo menos até aqui. Em toda a Amazônia Legal, a queda é dos mesmos 17% que o pequeno e queimado Acre tem de elevação.

sábado, 14 de agosto de 2021

A crise climática é aqui - e é agora

 

O mais recente estudo do IPCC sobre o agravamento da crise climática atesta aquilo que já há algum tempo debatemos aqui: a região amazônica, onde está o Acre, será uma das mais afetadas pelas mudanças climáticas, com uma quantidade de dias ainda maior sem chuvas e elevação das temperaturas. Por sinal, não precisamos embarcar numa máquina do tempo e irmos até o futuro para sentirmos os efeitos das alterações no clima. A cada ano já sentimos que o nosso verão amazônico está ficando mais longo, seco e quente. É aqui e agora. 

Enquanto o mundo fala sobre eventos climáticos extremos num futuro não tão distante, no Acre há tempos vivemos esse extremo. O rio Iaco, em Sena Madureira (foto), que no começo do ano ficou perto dos 17 metros, agora está abaixo do 1 metro, em situação crítica.


Ouça a coluna Amazônia em Pauta desta semana e saiba mais


terça-feira, 10 de agosto de 2021

Gladson Cameli: o nosso Nero da Amazônia

 A História nos diz que o imperador romano Nero seria o responsável por incendiar a capital do império. Se de fato foi ele ou não, o episódio virou uma referência para metáforas ao lidarmos com certas situações nesta contemporaneidade tão incendiária, em particular na política e no meio ambiente. Aqui pelas bandas do Aquiry, por exemplo, podemos afirmar que o governador Gladson Cameli (PP), com sua versão mais arcaica e retrógrada do agronegócio, é o nosso Nero de 2021 diante das queimadas descontroladas que destroem o meio ambiente e arruinam a nossa saúde.    

Às vésperas de um ano eleitoral, Cameli já afirmou que fará do agronegócio o carro-chefe das políticas de seu (des) governo em 2022. Historicamente, os anos eleitorais no Acre são os mais críticos em registro de queimadas e desmatamento. Para não perder o apoio (votos e doações) do setor rural, os governantes de plantão fazem vista-grossa com o fogo e a fumaça - e as dezenas de hectares desmatados. 

O problema é que, com Gladson Cameli, não importa se o ano é de eleições ou não: a motosserra e a fogueira fazem um estrago medonho a cada verão amazônico desde que ele virou governador. 

A partir de 2019, quando assumiu o Palácio Rio Branco, o Acre virou a pior referência no que diz respeito à preservação da Amazônia; isso num estado que tinha 86% de cobertura florestal nativa. Não sabemos o que vai sobrar de mata em pé até 2022 - ou 2026, caso se reeleja. Desde sua fatídica declaração de que ninguém autuado pelo Imac precisaria mais pagar as multas ambientais “porque agora quem está mandando sou eu”, o Acre vive uma catástrofe ambiental. 

Se até o fim de julho a situação aparentava estar tranquila quanto às queimadas por aqui, tudo piorou nos últimos dias. Em 2020, o fogaréu começou bem mais cedo; já em meados de junho e julho as cidades do Acre ficaram tomadas pela fumaça. Como 2021 foi um ano de inverno amazônico muito rigoroso, acredito que a alta umidade contribuiu para retardar a temporada do fogo. Agora, à medida que os dias quentes e sem chuva se ampliam, o matagal vai ardendo em chamas. 

Ao se olhar os dados oficiais do Programa Queimadas, do Inpe, vê-se que apenas Acre e Rondônia apresentam elevado crescimento proporcional na quantidade de focos de queimadas na Amazônia Legal até este 10 de agosto. Entre o primeiro dia do ano até 10 de agosto, o Inpe já registrou 19.438 focos de queimada no bioma Amazônia. Numericamente o Acre, com 1.443 focos, fica atrás de Rondônia (2.345), Amazonas (4.134), Pará (5.119) e Mato Grosso (5.310). 

Contudo, ao se fazer comparativo proporcional entre a quantidade de queimadas neste período de 2021 com o do ano passado, apenas Acre e Rondônia apresentam elevação, respectivamente, de 3% e 46%; todos os demais estados estão em queda. No bioma Amazônia como um todo a redução é de 22%. Ainda é cedo para comemorações na queda das queimadas na região, já que apenas agora o verão amazônico apresenta sua face mais intensa, estendendo-se até setembro e outubro. 

Se em 2021 - ano não eleitoral - a situação ambiental (e a nossa saúde) do Acre se encontra crítica, imagina em 2022, ano que Gladson Cameli vai tentar mais quatro anos como governador, fazendo do agronegócio sua principal bandeira de gestão e, claro, eleitoral. Será um verdadeiro deus-nos-acuda. Parece que o Acre tem tudo para se transformar na Roma queimada do século 21 nos próximos anos. 


Clique aqui para notícias diárias sobre a situação ambiental e climática do Acre 

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

um governo reaça

 

 
Enquanto o mundo vive assustado, a cada dia, os efeitos das mudanças climáticas, o governo do Acre, liderado pelo senhor Gladson Cameli (PP), apaga a imagem de um dos maiores símbolos mundiais de defesa ambiental. Não à toa o Acre é, hoje, um péssimo exemplo na preservação da Floresta Amazônica para o mundo.  Tira-se uma obra de arte para colocar este azul imoral.

Segundo o cineasta e ex-diretor da Fundação Garibaldi Brasil, Sérgio de Carvalho, quando da época em que a pintura foi apagada - mais ou menos um ano atrás - os grafiteiros de Rio Branco pediram autorização do governo estadual para fazer uma nova pintura na parede do Mercado dos Colonos. O governo aceitou, mas impôs uma censura: não poderia haver pinturas relacionadas a Chico Mendes nem a Mariele Franco.

Como forma de protesto, driblando a censura do governo Gladson Cameli, os grafiteiros desenharam uma floresta pegando fogo, que é a cara dos atuais mandatários reacionários do Acre.

Agora, o movimento artístico busca recursos - e uma parede - para refazer a pintura do líder seringueiro acreano, conhecido ao redor do mundo por sua luta em defesa da Amazônia.


sexta-feira, 30 de julho de 2021

nem tão conservadas

 As unidades de conservação precisam ser conservadas


A princípio tal afirmação parece uma redundância, mas não é.  Criadas com a concepção de proteger os biomas brasileiros, as unidades de conservação estão hoje entre as áreas mais ameaçadas pelo avanço do desmatamento na Amazônia; no Acre a situação não é diferente. áreas protegidas do Estado e federais são impactadas cada vez com mais intensidade pela invasão de grileiros e madeireiros ilegais. A solução para combater este crime e proteger nossas unidades de conservação é bem simples: basta cumprir a lei. 


Ouça análise completa na coluna Amazônia em Pauta na CBN Rio Branco 


sexta-feira, 2 de julho de 2021

rondonização prometida

 Grileiros e madeireiros de Rondônia invadem Acre


Após desmatarem e limparem área, grileiros erguem casas para "demarcar" novo território conquistado (Foto:Marcos Vicentti;Secom-AC)


 Quadrilhas especializadas em roubo de madeira em Rondônia agora invadem o Acre, estado vizinho. No começo de junho, após 18 dias de realização da Operação Curupira, o Batalhão de Policiamento Ambiental (BPA), unidade da Polícia Militar acreana, flagrou 127 toras sendo roubadas em solo acreano por madeireiras da Ponta do Abunã, localizada na tríplice divisa com o Acre e o Amazonas. O valor da carga foi avaliado em 600 mil reais.

O flagrante é a ponta de um conhecido esquema criminoso na Amazônia, que envolve o roubo de madeira e a grilagem de terras públicas. Os criminosos ambientais de Ponta do Abunã estão mirando as fartas áreas de floresta ainda intactas do Acre. A invasão acontece no momento em que o governador acreano, Gladson Cameli (PP), se inspira na política do agronegócio do estado vizinho, colocando em prática o processo que se chama a “rondonização” do Acre. 

Como quase todo o extremo oeste de Porto Velho, capital de Rondônia, foi devastado para a retirada de madeira e abertura de fazendas de gado, as florestas nos estados vizinhos são as únicas opções para fornecer madeira nobre às madeireiras – como também acontece no sul do Amazonas. Trata-se de um esquema operado em várias etapas.

Após o desmate e o roubo de madeira nobre, essas áreas são demarcadas e ocupadas por invasores. “Regularizada a posse”, os grileiros as vendem para terceiros. A infiltração de grileiros de Rondônia tem sido identificada por operações realizadas pelo BPA.

“Entre 2018 e 2019, da [Floresta Estadual do]  Antimary para lá, o número de pessoas que vêm de outros estados, principalmente de Rondônia, aumentou muito. Eles começaram a fomentar as invasões de terras públicas, projetos de assentamento e terras privadas”, explica o major Kleison Albuquerque, comandante do BPA. “Em todos os locais que vamos tem gente de fora. Gente que veio de fora para invadir.” 

Em 2021, os policiais também identificaram a entrada de madeireiros rondonienses para roubar toras em áreas de floresta na divisa entre os dois estados. Entre o fim de maio e o começo de junho, o BPA recebeu denúncias de derrubada ilegal em áreas de reserva legal de fazendas no município de Acrelândia, vizinho aos distritos de Nova Califórnia e Extremo, pertencentes a Rondônia. 

Esses distritos estão localizados na região conhecida como Ponta Abunã, uma das regiões rondonienses caracterizada pela intensa atividade madeireira. Além do leste acreano, o sul do Amazonas, no município de Lábrea, também é alvo das madeireiras da Ponta do Abunã. 

O Acre tem registrado elevadas taxas de desmatamento decorrente, sobretudo, da invasão de terras públicas – sejam elas áreas não destinadas ou unidades de conservação e projetos de assentamento. Áreas de reserva legal em propriedades privadas também são afetadas. 

Na Operação Curupira, em junho deste ano, três homens foram presos, e tratores e motosserras, apreendidos. As toras que já estavam cortadas e prontas para o transporte tiveram como destino o pátio do BPA em Rio Branco, e não as serrarias de Nova Califórnia. A polícia, contudo, ainda não decifrou como a madeira tem sido “esquentada” no estado vizinho. “A gente não sabe qual é o processo que eles usam em Rondônia para comercializar esta madeira”, afirma o comandante do batalhão ambiental. 

Em maio, investigações da Polícia Federal – que resultaram na Operação Akuanduba – apontaram que um dos esquemas usados para “lavar” madeira roubada na Amazônia é a utilização de planos de manejo, que estão sendo fraudados. Entre os alvos da PF está  ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, investigado por suspeita de facilitação ao contrabando de madeira.  


Leia a reportagem completa na Amazônia Real 

vapt-vupt

 Indo por acolá, mas voltamos já, já! 



domingo, 27 de junho de 2021

a reinvenção Yawanawa

Com pandemia, povo Yawanawa prioriza segurança alimentar e resgate de modo de vida tradicional


Contato com colonizador provocou a quase extinção da cultura Yawanawa, recuperada nos últimos 20 anos (Foto: Tashka Peshaho Yawanawa)


 Após serem diretamente impactados pela pandemia da Covid-19 ao longo do ano passado, os Yawanawa do rio Gregório, no Acre, colocam em prática projetos que estabelecem uma reorganização social – dando poder às mulheres nas tomadas de decisões – e fortalecendo a agricultura e a criação de animais que lhes assegurem a segurança alimentar para enfrentar eventuais novos isolamentos em crises sanitárias. As cheias ocorridas no início de 2021 em grande parte da Amazônia afetou as aldeias Yawanawa, comprometendo as plantações nos roçados, reduzindo a oferta de macaxeira e banana.  

Conhecidos pela realização de festivais culturais que resgatam o modo de vida dos antepassados – após toda essa ancestralidade ter sido quase extinta – os Yawanawa dão mais um passo para recuperar o modelo de arquitetura das construções feitas por eles antes do contato com o colonizador, no final do século 19.

Todos estes projetos estão incluídos no Plano de Vida Yawanawa, construído ao longo dos últimos seis anos após intensos diálogos ocorridos nas 10 aldeias da Terra Indígena do Rio Gregório, localizada no município de Tarauacá, no Acre. Em pleno auge da pandemia da Covid, os indígenas começaram a tirar do papel o planejamento, em uma parceria com a organização Conservação Internacional. Entre eles está o fortalecimento do sistema de produção nos roçados e a criação de pequenos animais como galinhas e porcos. 

Os Yawanawa ainda buscam ampliar suas fontes de renda dentro das aldeias com a produção do açaí extraído dentro de seu território. “Nós queremos criar novos negócios que possam gerar renda para a comunidade para ela não se sentir tentada a tirar madeira ou fazer qualquer outra atividade predatória e proteger os 200 mil hectares da terra”, diz a liderança Tashka Peshaho Yawanawa, presidente da Associação Sociocultural Yawanawa (ASCY). 

O projeto também fortalece a criação de peixes num modelo de piscicultura em açudes, possibilitando uma alternativa ao modelo tradicional de pesca no rio Gregório e igarapés. Nos meses do “verão amazônico” (de julho a setembro), os mananciais chegam a níveis críticos, dificultando tanto a prática da pesca quanto a navegação. Com tais práticas, os Yawanawa reduzem a dependência de alimentos comprados na cidade.


A pressão da pecuária

A Terra Indígena do Rio Gregório – também habitada pelos Noke Ko’í – está numa das regiões mais ricas em madeira nobre. Todo este potencial a faz ser uma das mais pressionadas pelo desmatamento. A TI está próxima a um conjunto de unidades de conservação estaduais cujas áreas serão concedidas pelo governo Gladson Cameli (PP) para exploração madeireira, por meio de planos de manejo. A concessão deve ser votada ainda esse ano pela Assembleia Legislativa.

Entre as áreas que serão concedidas estão a Floresta Estadual do Rio Gregório e a Floresta Estadual do Mogno. O território dos Yawanawa também tem como vizinha uma propriedade privada cujo dono seria o apresentador Ratinho, um dos principais aliados do presidente Jair Bolsonaro. Em entrevistas, Ratinho já admitiu ser dono de terras no Acre, mas sem precisar a localização. A fazenda teria o mesmo tamanho da Ti do Rio Gregório: 200 mil hectares. Até o momento não se tem informações se a área estaria tendo alguma atividade. O mais provável é que também invista no manejo madeireiro.


Quer saber mais? 

Leia reportagem completa na Amazônia Real 

sábado, 26 de junho de 2021

Vidas (e terras) indígenas importam



A CCJ da Câmara aprovou essa semana o PL 490 que muda as regras do processo de demarcação de terras indígenas no Brasil. Para o movimento indígena nacional, tais alterações representam uma grave ameaça aos seus direitos, à posse e ao usufruto de seus territórios. 

Além de garantir a segurança e a preservação dos costumes e da identidade cultural de nossos povos originários, as terras indígenas exercem, hoje, um papel essencial na preservação da Floresta Amazônica. Apesar de serem alvos constantes da invasão de madeireiros e garimpeiros, as terras indígenas garantem a manutenção de uma imensa área de floresta em pé. 

É preciso desmistificar todo e qualquer tipo de preconceito contra os nossos povos indígenas, que estavam aqui por essas terras bem antes da chegada dos colonizadores. E não, eles não são cheios de privilégio. Pelo contrário, necessitam de todo tipo de políticas públicas de saúde, educação e segurança alimentar em suas aldeias. 


quinta-feira, 24 de junho de 2021

Os caminhos de Cameli - até o Peru

 Peru não quer saber de nova rodovia para o Brasil; o Acre, sim 


A decisão do governo peruano em não apostar no projeto de construção de uma rodovia entre as cidades de Pucallpa, em seu departamento de Ucayali, e Cruzeiro do Sul, a segunda maior cidade do Acre, caiu como uma pá de cal sobre as intenções dos bolsonaristas acreanos interessados em “passar a boiada” numa das regiões mais intactas da Amazônia. Após os lamentos iniciais, todavia, vieram as reações e as tentativas desesperadas de garantir alguma sobrevida.     

Se antes o governador Gladson Cameli (PP) tinha uma postura mais discreta em relação à estrada, agora o aliado do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) decidiu vestir a camisa da causa. É o que ficou claro em sua entrevista ao site ac24horas ao comentar a decisão de Lima de dizer não a um dos empreendimentos que mais colocam em risco a preservação da Floresta Amazônica - já vítima de uma política antiambiental patrocinada por Bolsonaro e que a leva a taxas recordes de devastação. 

Mostrando contrariedade com a decisão do governo peruano, Gladson Cameli disse estar disposto a ir até Lima para convencer os vizinhos sobre a importância da interligação rodoviária entre o Acre e Ucayali.  “Não pode parar por uma questão do Peru**, o que nós temos que fazer é tentar identificar onde está o gargalo, até porque é estranha essa posição deles [governo peruano], muito estranho esse posicionamento. O quê uma estrada vai trazer de prejuízo para os dois países?”, comentou Cameli. 

A resposta à pergunta do governador foi dada na última terça, 22, pelo ministro do Meio Ambiente do Peru, Gabriel Quijandría, em entrevista à imprensa internacional no país: contribuirá para aumentar o desmatamento e fortalecer o narcotráfico. Afinal de contas, é nesta porção de selva fechada do Peru que se concentram os maiores laboratórios para a produção de cocaína. Uma rodovia ali seria a redenção para o crime organizado - de ambos os lados da fronteira. 

Gladson Cameli sabe muito bem desta realidade, pois desde 2016 o Acre está no centro de uma guerra sangrenta entre as principais facções criminosas do Brasil pelo controle da rota do tráfico da droga produzida no Peru e na Bolívia. O Vale do Juruá, região onde o governador nasceu, é a mais impactada pela guerra do narcotráfico, justamente, por estar na fronteira com a zona peruana da produção de cocaína. 


O ministro peruano do Meio Ambiente também desmistificou a tese defendida pelos bolsonaristas idealizadores da estrada que ela proporcionará desenvolvimento econômico para os dois lados da fronteira. “Uma obra de infraestrutura não é uma estratégia de desenvolvimento”, resumiu Quijandria. “Se não tenho claro sobre que tipo de desenvolvimento quero alcançar em um território e não tenho claro sobre as características desse território, provavelmente estou almejando uma infraestrutura de que não preciso.". É preciso explicar mais? 
    

Daqui um mês, o Peru terá um novo presidente. Ao que tudo indica será Pedro Castilho, o mais votado numa eleição presidencial acirradíssima, disputada voto a voto. Atualmente a junta eleitoral avalia todos os recursos impetrados por ambos os candidatos; até a conclusão desta análise não será possível proclamar o vencedor. Mas com 100% dos votos apurados, Pedro Castillo obteve 50,125% dos votos; sua adversária, Keika Fujimori, ficou com 49,875%. 

Vindo da região central do Peru e de origem indígena, Castillo é definido como um político de esquerda; outros o classificam como de extrema-esquerda por suas posições radicais. No campo das ideias não é o mais dos progressistas: se posiciona contra a liberação do aborto e do casamento entre pessoas do mesmo sexo. 

Na área ambiental - tema pouco debatido pelo eleitorado peruano - não se sabe ao certo a posição do possível novo presidente. Ao assumir a Casa de Pizarro (a sede do governo peruano) no dia 28 de julho, Castillo tende a fazer uma reviravolta na política e na economia do país, como prometeu durante a campanha eleitoral. 

O clima político no país vizinho não é o dos melhores. Os peruanos ainda estão muito divididos. O Peru também é um dos países atualmente mais afetados pela pandemia da Covid-19. Portanto, não será agora - nem talvez esse ano - que o governador Gladson Cameli terá a oportunidade de ser recebido pelo novo mandatário - muito mais preocupado em resolver os problemas internos. 

Portanto, até lá, a construção de uma nova rodovia entre Brasil e Peru ficará engavetada. Os dois países já contam como uma conexão via estrada, por meio da Rodovia Interoceânica, na parte sul do Peru, também na fronteira com o Acre. Essa interligação foi apontada na justificativa das autoridades de Lima para se opor ao projeto da rodovia Pucallpa-Cruzeiro do Sul. 

Aliás, essa é uma questão que nem está na pauta de prioridade dos peruanos. Conversando com uma colega jornalista peruana, ela explicou que a principal preocupação do país é com o impasse no resultado das eleições e com a pandemia da Covid-19. 

Até o Peru e o mundo voltarem ao normal - assim como o Brasil em meio à tragédia da Covid - as populações que moram numa das regiões mais preservadas da Amazônia (incluindo os povos indígenas isolados) estarão protegidas - bem como toda a sua riquíssima biodiversidade. As falas de Gladson Cameli de que respeitará todas as regras para garantir a proteção ambiental do entorno da rodovia têm o mesmo valor que uma cédula de três reais. 

É justamente no seu governo que o Acre enfrenta as maiores altas na taxa de desmatamento da Amazônia. A abertura de uma estrada na porção mais preservada do Acre - cujo propósito pregado é exercido por outra já existente - apenas acelera a devastação, representando um verdadeiro desastre ambiental e social.     


**Gladson Cameli disse que o projeto da rodovia não pode parar “por uma questão do Peru”. Nas relações internacionais existe o princípio máximo do respeito à soberania de cada Estado, da autodeterminação e da não intervenção. Portanto,o Peru é soberano nas suas decisões. Este tipo de situação se resolve com diplomacia, não fazendo beicinho. 


segunda-feira, 21 de junho de 2021

vozes indígenas

Em manifesto, indígenas alertam sobre impactos de rodovia entre Brasil e Peru no Juruá


Parna Serra do Divisor, área afetada pelo projeto da rodovia é habitada indígenas e ribeirinhos (Foto:Secom/AC)



Lideranças indígenas do Acre divulgaram nesta segunda-feira, 21, manifesto no qual demostram preocupação com o avançar do projeto de construção da rodovia entre as cidades de Cruzeiro do Sul, no Vale do Juruá, e Pucallpa, no Peru. Eles também denunciam que são excluídos, por parte do governo federal, do processo para tirar a estrada do papel.

Assinado por 11 entidades indígenas, o documento alerta sobre os impactos sociais e ambientais que a rodovia internacional pode trazer para uma das áreas mais intactas da Floresta Amazônica. O Vale do Juruá é uma das regiões do planeta mais rica em biodiversidade, com muitas espécies ainda desconhecidas pela ciência.

“Sabemos que estradas não trazem benefício para as populações locais. Trazem a oportunidade para que interesses de fora acessem as riquezas locais, transformando as comunidades em mão de obra temporária e deixando, como legado, desmatamento, grilagem de terra, violência, conflito e degradação ambiental”, diz trecho do manifesto.

Além de ameaçar a integridade de terras indígenas – algumas delas ainda não homologadas – a rodovia coloca em risco a mais importante unidade de conservação da região: o Parque Nacional da Serra do Divisor (foto), onde está uma das maiores concentrações de biodiversidade da Amazônia, casa de espécie existentes apenas ali. 



Leia a íntegra:



Exigimos que o Estado proteja e dê garantias aos nossos direitos


Manifestamos enorme preocupação com ações planejadas para a nossa região sem a nossa participação. Projetos que pretendem incidir em nossos territórios e afetar definitivamente nossas casas e nossa vida não podem ser planejados sem considerar a nossa existência.  

O planejamento de obras de infraestrutura e de exploração dos recursos naturais em nossos territórios fere nossos direitos de autodeterminação e de usufruto exclusivo das terras indígenas.  

O projeto de construção da estrada entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa está sendo encaminhado pelo governo federal brasileiro sem transparência, sem discussão ampla com a sociedade sobre os interesses envolvidos e sem respeito ao nosso direito de sermos consultados previamente sobre qualquer medida administrativa ou legislativa que nos afete.  

O DNIT lançou, em maio, edital para contratação de empresa para elaborar projeto de construção do trecho de 142 km entre a BR -364 e o Boqueirão da Esperança, na fronteira com o Peru. No Peru, o Congresso aprovou Projeto de Lei que autoriza a construção da estrada no trecho que partirá de Pucallpa em direção à fronteira brasileira.

Não foi realizado estudo de impacto ambiental e nem análise prévia de viabilidade econômica e socioambiental para a construção dessa estrada. Os primeiros passos para definição de recursos e  contratação de serviços de engenharia estão atropelando nosso direito à Consulta Prévia, Livre, Informada e de boa-fé prevista na Convenção 169 da OIT, na Declaração Americana sobre os Direitos dos Povos Indígenas e na legislação brasileira (Decreto 5051 de 19 de abril de 2004).  

O projeto de construção acarretará destruição da floresta nativa e cruzará mais de trinta corpos d’água, impactando uma área de grande diversidade ecológica e cultural. Trará desmatamento, invasão, poluição aos rios, afetará a segurança hídrica, espantará a caça e trará problemas sociais que desconhecemos.   

Sabemos que estradas não trazem benefício para as populações locais. Trazem a oportunidade para que interesses de fora acessem as riquezas locais, transformando as comunidades em mão de obra temporária e deixando, como legado, desmatamento, grilagem de terra, violência, conflito e degradação ambiental. E quais são os interesses de fora que chegarão com a estrada? Em especial, o interesse em invadir os territórios, em extrair madeira ilegalmente e de promover a mineração e exploração de recursos do subsolo.   

A estrada, se construída, afetará diretamente as Terras Indígenas Puyanawa, Nawa, Nukini e o Parque Nacional da Serra do Divisor. Afetará, também, as TI Jaminawa do Igarapé Preto, Arara do Rio Amônia, Kampa do Rio Amônia, Kaxinawa-Ashaninka do Rio Breu, além das comunidades tradicionais da Reserva Extrativista do Alto Juruá e dos projetos de assentamento. Cortará o território dos povos em isolamento voluntário que vivem na Reserva Isconahua, em parcelas do Parque e na Reserva Comunal Alto Tamaya Abujão, além das Comunidades Nativas San Mateo e Flor de Ucayali, dos povos Ashaninka e Shipibo-Conibo, no Peru.  

Vivemos em uma região de grande riqueza sociocultural e de biodiversidade. Sabemos disso. Toda essa riqueza construída pela ciência dos nossos antepassados, alimentada pelo nosso modo de vida e pelo conhecimento compartilhado nas comunidades não pode ser desconsiderada ou vista apenas como algo a ser apropriado, transformado, destruído e devastado para enriquecer poucos e empobrecer muitos. Temos compromisso com o nosso futuro.

 Queremos escolher nosso modelo de desenvolvimento, com ações que melhorem a qualidade de vida e que sejam ao mesmo tempo sustentáveis, que se sustentem por muito tempo para que nossos netos e netas vivam bem. Atividades sustentáveis que produzam renda para as populações locais, ao mesmo tempo que sejam planejadas para garantir a conservação da natureza e das águas.

Clamamos por intervenção dos órgãos que tem atribuição de defender os direitos indígenas, de proteção territorial das terras indígenas, de gestão das áreas de proteção ambiental, de garantia dos direitos ambientais e dos direitos coletivos das comunidades tradicionais.  

Denunciamos à sociedade os interesses e os impactos que a construção dessa obra trará para a nossa região e para nosso direito a um futuro com qualidade de vida, dignidade e paz.  

Associação dos Kaxinawa do Rio Breu – AKARIB 

Associação Indígena Nukini – AIN 

Associação Katuquina do Campinas – AKAC 

Associação do Povo Indígena Nawa – APINAWA 

José Ângelo Apolima Arara – Terra Indígena Arara do Rio Amônia 

Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre – AMAAIAC 

Organização dos Professores Indígenas do Acre – OPIAC 

Organização dos Povos Indígenas do Rio Envira – OPIRE 

Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá – OPIRJ 

União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira – UMIAB 

Instituto Yorenka Tasorentsi

 



sábado, 19 de junho de 2021

Acre 4.0, no século 19

 O Acre foi pioneiro na bioeconomia um século atrás

    

Bioeconomia é um conceito bastante utilizado hoje no mundo para se buscar um novo modelo de economia que cause o menor impacto possível à natureza, uma exploração racional e sustentável dos recursos naturais. A bioeconomia nada mais é do que a adaptação da indústria e dos mercados para a produção de mercadorias biodegradáveis, portanto menos poluentes, com altos investimentos em tecnologia. 

Outro objetivo da bioeconomia é fazer uma exploração de recursos disponíveis na floresta, garantindo a sua sustentabilidade, e a manutenção desta floresta em pé. Dono de uma das maiores áreas de Floresta Amazônica do Brasil, o Acre tem tudo para ser uma referência global em bioeconomia, bastando, para isso, apenas vontade política.

Na Amazônia em Pauta desta semana falo como que, há 100 anos, o Acre já praticava a bioeconomia, por meio da extração do látex da seringueira. Um século atrás, essa região era uma das principais geradoras de riqueza, sem derrubar 1 única árvore. A História do Acre se dá na sua relação com a floresta, não com o boi.

*Clique, aperta o play e ouça *

domingo, 13 de junho de 2021

desmate acelerado

 Floresta Amazônica perdeu quase 100 hectares por hora 

Resex Chico Mendes, a oitava UC mais devastada do país em 2020 (Foto: SOS Amazônia/2020)


A cada hora, a Amazônia brasileira perdeu 96 hectares de sua cobertura florestal no ano de 2020. Ao fim de um dia, foram desmatados 2.309 hectares. Nesse ritmo, ao terminar de ler esta reportagem, o equivalente a 32 campos de futebol da floresta amazônica terão sido devastados. Em 2020, um ano marcado pelos efeitos da pandemia da Covid-19, o desmatamento da maior floresta tropical do mundo cresceu 9% em relação a 2019. De cada dez hectares desmatados no Brasil, seis deles ocorreram na Amazônia. O resultado disso é que, no ano passado, a devastação chegou a 842.983 hectares.


O “passar a boiada” defendido pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, investigado por crime ambiental e enriquecimento ilícito, foi levado a sério pelo governo Bolsonaro. O segundo Relatório Anual do Desmatamento 2020, elaborado pelo MapBiomas, mostra que de janeiro a dezembro o Brasil emitiu 74.218 alertas de desmatamento para uma área superior a 1,3 milhão de hectares. É como se uma área duas vezes maior que o município de Macapá tivesse sido derrubada. Na comparação com 2019, o aumento foi de 14%.

Iniciativa que reúne diferentes entidades da sociedade civil dedicadas a estudos e ações de proteção ambiental, o MapBiomas constatou que 99% de todo o desmatamento do país ocorreu de forma ilegal, ou seja, sem a devida autorização dos órgãos ambientais. No rastro da devastação, nem mesmo áreas protegidas como unidades de conservação e as terras indígenas escaparam da ação dos desmatadores.

“O que a gente quer garantir é que todo alerta que foi validado, que você sabe quem é o proprietário, tenha um tipo de ação.  Quer seja uma notificação, um embargo da área, depois pode seguir uma multa. Mas a gente frisa que isso acaba com a sensação de impunidade. A gente tem a informação, está aí”, diz o pesquisador Marcos Reis Rosa, um dos autores do relatório MapBiomas, em entrevista à Amazônia Real.

Doutor em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP), Rosa afirma que em todo e qualquer desmatamento ocorrido no Brasil é possível identificar o autor diante das informações disponíveis em bancos de dados como o Cadastro Ambiental Rural (CAR). Dos mais de 5,5 milhões de imóveis rurais cadastrados no Brasil, afirma o pesquisador, houve registro de desmate em apenas 0,99%.

“Só um por cento teve desmatamento, o que bastou para fazer este estrago não só ao meio ambiente mas também à nossa imagem lá fora. Mas é este 1% que faz barulho, que tem representantes no Congresso, que está lá para fazer lei para ampliar o desmatamento, lei para anistiar ocupação ilegal”, completa o pesquisador.  


Leia a reportagem completa na agência Amazônia Real

sábado, 12 de junho de 2021

caminho devastador

 Projeto de rodovia deixa em risco outra área intocada da Amazônia

 

Pavimentada entre a primeira e segunda décadas deste século, BR-364 é principal vetor de desmate no Acre (Foto:Secom/AC/2011)

No momento em que a Amazônia registra taxas recordes de desmatamento impulsionado, principalmente, pelo desmonte da política de proteção ambiental promovida pelo governo Jair Bolsonaro (Sem partido), lideranças locais se articulam para tirar do papel projetos de infraestrutura que colocam, ainda mais em risco, a preservação do bioma. É o que acontece, por exemplo, no Acre, com articulações políticas para abrir estradas em regiões hoje intocadas pela ação humana.


Após o projeto da rodovia entre as cidades de Cruzeiro do Sul, no extremo oeste do estado, e Pucallpa, no Peru, na bacia do rio Juruá – que concentra uma das maiores biodiversidades do mundo – agora começam as tratativas para construir uma estrada na região do Alto Rio Purus. A proposta é fazer a conexão rodoviária entre os municípios de Manoel Urbano e Santa Rosa do Purus. 

Ambos os projetos têm como principal fiador político o senador bolsonarista Márcio Bittar (MDB-AC), cuja principal atuação no Congresso Nacional é encampar pautas que fragilizam a agenda ambiental do país. Junto com a deputada federal Mara Rocha (PSDB), ele é autor do Projeto de Lei 6.024/2019, que reduz o tamanho da Reserva Extrativista Chico Mendes e transforma o Parque Nacional da Serra do Divisor numa Área de Proteção Ambiental (APA).
Estradas atingem áreas protegidas  

Caso de fato se concretizem, as duas rodovias provocariam impactos inestimáveis para duas áreas preservadas da Floresta Amazônica, livres da exploração madeireira, da grilagem de terras públicas e da abertura de áreas para a pecuária – principais atividades econômicas a exercer pressão sobre o bioma no Acre. O estado ainda mantém conservado, dentro de seu território, ao menos 86% de cobertura florestal.


O entorno do rio Purus concentra a maior área de floresta nativa de bambu do planeta. Segundo a Embrapa, o Acre possui 4,5 milhões de hectares de florestas de bambu. A região do Alto Rio Purus ainda é formada por imensas áreas de floresta intactas com espécies de árvores de rentável valor comercial.  

No Médio Rio Purus, região que conta com a BR-364 pavimentada, na divisa entre Acre e Amazonas, toda essa riqueza madeireira já é bastante explorada por meio de planos de manejo. A rodovia federal se tornou o principal corredor madeireiro do Acre, com caminhões e mais caminhões “toreiros” trafegando dia e noite.

De acordo com o prefeito de Santa Rosa do Purus, Tamir de Sá (MDB), o objetivo é conectar o perímetro urbano do município a uma estrada de terra batida já adentrou a região do Alto Rio Purus. Segundo ele, a via teria sido aberta, justamente, pela empresa detentora da concessão do manejo madeireiro.

“Nós só temos 82 quilômetros para emendar aqui. O manejo já tem 70 e poucos quilômetros de estrada para chegar aqui. Então eu não vejo diferença nenhuma de chegar até aqui uma estrada, num município com oito mil habitantes, onde só um manejo, sozinho, para eles terem lucro, eles abrem 72 km de estrada e nós não podemos abrir 82 km”, diz o prefeito ao ((o))eco. 

 

Leia a reportagem completa no site ((o))eco 

sábado, 5 de junho de 2021

a miséria da violência

 

Nossa juventude da periferia está ao chão; atual desgoverno do Acre agrava crise social e de violência (Foto:Secom/AC/2016)

 

A incompetência característica do governo Gladson Cameli (PP) tem feito o Acre mergulhar em duas graves crises que aterrorizam a população: a pandemia da Covid-19 e a violência descontrolada que nos deixa ainda mais em pânico. Além de termos que lutar para sobreviver ao coronavírus, precisamos rezar para não sermos a próxima vítima de uma guerra urbana que deixa corpos banhados em sangue jogados pelas ruas das cidades.


As duas crises estão muito associadas, e são agravadas por um governo cuja única política pública eficaz é pintar o Acre de azul, a cor de seu partido. Caracterizado pela completa bagunça institucional, falta de comando e da adoção de uma política de planejamento para garantir o bom funcionamento da máquina em prol da população, o governo Gladson Cameli aprofunda as crises sociais históricas do Acre.

Em um estado pobre e carente como o nosso, não temos nenhum tipo de política pública para garantir um desenvolvimento econômico sustentável (e falo de sustentabilidade em seu conceito macro) que permita a geração de empregos e renda para a população, sobretudo para os jovens. O resultado está aí: nossa juventude executada em vias públicas e abarrotando nossos presídios já superlotados.

Para piorar, espaços públicos como os Centros da Juventude nos bairros das cidades, que deveriam garantir atividades de lazer e desporto, estão às traças - bem como todos os nossos espaços culturais e históricos.

Cameli foi eleito com a promessa de fazer do Acre uma potência do agronegócio; até hoje, todavia, não vimos uma horta de cheiro-verde fomentada por políticas de estado. Em quase três anos de (des) governo, já são três secretários do Agronegócio, o que mostra que, com Cameli, critérios técnicos são descartados para gerir a máquina,

O que vale para ele mesmo é apenas seu propósito de reeleição, usando muito bem do toma lá dá cá. Vez por outra, cargos estratégicos de gerenciamento são trocados de um dia para o outro para abrigar novos aliados do governador de olho em 2022. A consequência óbvia é a descontinuidade da gestão da máquina - se é que há alguma em andamento.

- Muito mais do que uma questão de força policial, a violência no Acre é um problema social, de nossa elevada desigualdade na distribuição de renda que mergulha milhares de acreanos e acreanas na miséria. Desde os governos do PT tenho apontado essa questão: de nada adianta colocar a tropa nas ruas, se nas periferias a miséria predomina, deixando jovens expostos a virarem “soldados” das facções do centro-sul que por aqui chegaram e encontraram terreno fértil - muito mais fértil que o agronegócio na sua versão arcaica de Gladson Cameli. - 


Nas eleições de 2018, o então candidato ao governo disse que, em seis meses, resolveria o problema da violência no Acre. Para isso foi até buscar um especialista para ser seu vice e comandar a Segurança Pública: o então deputado federal Major Rocha, policial militar. De lá para cá as coisas só pioraram, e Cameli e Rocha são inimigos políticos.

Se pegarmos a lista dos primeiros nomes indicados para compor as secretarias de governo no início de 2019, veremos que mais da metade já foi trocada; mais um claro sinal de que critérios técnicos e de planejamento não são características de Cameli.

O resultado está aí: o caos. Gladson Cameli concorreu ao Palácio Rio Branco achando que, enquanto estivesse na cadeira de governador, levaria o mesmo estilo bon-vivant de seus tempos de Senado e Câmara, onde era acostumado a terceirizar responsabilidades, deixando tudo para os assessores fazerem, levando apenas os louros nas páginas dos jornais.

No Poder Executivo o buraco é mais embaixo. Ou se tem o comando e controle da máquina, ou ela vai para a bancarrota. Não por acaso, diante do vácuo de poder, começaram a surgir várias suspeitas de corrupção nas secretarias que Cameli entregou (literalmente) para os aliados partidários. Denúncias estas feitas pelo próprio vice-governador.

Diante de todo este cenário de balbúrdia sui generis do governo Cameli, não nos resta nada a não ser nos protegermos trancados em nossas casas de muros altos, cercas elétricas e câmeras. Pelas ruas, a criminalidade se fortalece diante de um governo incompetente, incapaz de colocar em prática políticas públicas de inclusão social, combate às desigualdades, geração de emprego e renda.

Já que não temos a mesma sorte de Gladson Cameli de contar com um batalhão inteiro de policiais para garantir a sua segurança, só nos resta mesmo usarmos as medidas de isolamento para sobrevivermos à pandemia, para que também possamos sobreviver ao caos da violência tão acreana.

Que dias melhores possam vir...

terça-feira, 1 de junho de 2021

o progresso da devastação

Bolsonaristas defendem mais uma estrada em região de floresta intacta do Acre


Em preto no mapa, traçado que separa Santa Rosa do Purus de Manoel Urbana, uma das regiões mais preservadas da Amazônia (Divulgação)


Na semana em que o Planeta Terra celebra o seu Dia Mundial do Meio Ambiente, recebo a informação de mais uma empreitada de parlamentares do Acre para tirar do papel outro projeto de infraestrutura com efeitos catastróficos para a preservação da mais importante floresta tropical do mundo: a Amazônia. Trata-se da construção de rodovia entre os municípios de Santa Rosa do Purus e Manoel Urbano, aqui no Acre. Para quem não conhece a região, é uma das mais intocadas pela ação humana justamente por estar inacessível por estradas, além de estar protegida por unidades de conservação e terras indígenas. Ela é cortada por um dos mais importantes rios da Bacia Amazônica, o Purus. 

E como não poderia deixar de ser, o projeto da rodovia tem como padrinho nada mais nada menos do que o senador inimigo público número um do meio ambiente, Márcio Bittar (MDB). Ele é o mesmo que patrocina e atua para tirar do papel outra rodovia com efeitos catastróficos para a Amazônia: a ligação entre as cidades de Cruzeiro do Sul, no Vale do Juruá, e Pucallpa, no Peru. 

Uma estrada que passaria dentro da região com uma das maiores concentrações de biodiversidade do mundo, habitada por comunidades extrativistas, ribeirinhas, indígenas contactados e povos isolados. 

Conforme apurou o blog, o senador Márcio Bittar teria como aliado principal no projeto de seu novo empreendimento da devastação o prefeito de Santa Rosa do Purus, Tamir de Sá, do MDB. O prefeito já teria entrado em contato com funcionários do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) para saber como se faz para ter aprovado o projeto da rodovia, A consulta ao órgão se dá pelo fato de seu possível traçado passar por dentro da Floresta Nacional do Purus. Conforme fontes, Tamir de Sá já teria anunciado que nos próximos dias apresentará o projeto da estrada. 

Essa atuação do gestor municipal, obviamente, acontece sob o guarda-chuva do senador Márcio Bittar, que exerce influência sobre as ações tanto do ICMBio quanto do Ibama no Acre. A atual superintendente do Ibama no Acre, Helen de Freitas Cavalcante, advogada ligada aos ruralistas, é uma indicação de Bittar ao ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente). Só para lembrar, Salles é investigado pela Polícia Federal por facilitar o contrabando de madeira da Amazônia para o exterior. 

Conforme o blog apurou, outro parlamentar entusiasta da rodovia é o deputado federal bolsonarista Alan Rick (DEM). Ele tem o domínio político do Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Purus, responsável pela saúde indígena das aldeias na bacia do Purus. 

Santa Rosa do Purus é um entre os quatro municípios do Acre chamados de “isolados” por não terem acesso rodoviário. Só é possível chegar à cidade - de maioria indígena - por avião ou barco subindo o rio Purus a partir de Manoel Urbano.  Ao se construir uma estrada entre os dois municípios, Santa Rosa passaria a estar conectada diretamente com a BR-364 e, assim, com todo o Acre e o Brasil. 

O discurso a favor da rodovia é o mesmo de sempre: de que vai tirar os santarosenses do isolamento, garantindo progresso e desenvolvimento para a região. Este progresso, contudo, tem um alto custo socioambiental, já que as estradas são vetores para impulsionar o desmatamento e a invasão de terras públicas (grilagem) na Amazônia. 

A própria BR-364, entre Sena Madureira e Cruzeiro do Sul, é o exemplo mais recente disso. Desde que sua pavimentação foi concluída, no fim da década passada, o entorno passou a concentrar elevados índices de desmatamento e queimadas nos últimos anos. De 2019 para cá, a região também é alvo frequente de grileiros, que invadem até unidades de conservação.   

Entre os municípios de Santa Rosa do Purus e Manoel Urbano há uma imensa área de Floresta Amazônica intacta. Em voos entre Rio Branco e Santa Rosa do Purus a única paisagem possível de se ver é a de um imenso tapete verde cortado pelos cursos de rios e igarapés. 

Além de unidades de conservação, a região está protegida pela Terra Indígena Alto Rio Purus, formada por aldeias dos povos Huni Kuin e Madijá. Portanto, além do aval do ICMBio e Ibama, a rodovia terá que receber a aprovação da Fundação Nacional do Índio (Funai) e das próprias comunidades indígenas, o chamando componente indígena dentro do processo de licenciamento ambiental - agora afrouxado pela Câmara dos Deputados.  


Próximo passo: conectar ao Peru 

Defensor da integração econômica sul-americana como é (por essa razão diz querer a estrada entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa),  Márcio Bittar, muito em breve, tende a defender que a ligação rodoviária entre Santa Rosa do Purus e Manoel Urbano se estenda até Puerto Esperanza, do outro lado da fronteira. Em terras peruanas há projetos semelhantes em andamento. 

Nesta região do Peru, a principal ameaça para a preservação da Floresta Amazônica é o projeto para a construção de uma rodovia entre Puerto Esperanza - vizinha a Santa Rosa do Purus - e Iñapari, cidades no departamento de Madre de Dios. Seu traçado passará por dentro de áreas destinadas aos povos indígenas - incluindo os isolados - mais o Parque Nacional Alto Purus.

Do lado brasileiro, estará muito próximo aos limites das Terras Indígenas Cabeceira do Rio Acre e Mamoadate, mais as unidades de conservação Estação Ecológica do Rio Acre, a Reserva Extrativista Chico Mendes e o Parque Estadual Chandless. Vale ressaltar que do lado peruano essa parte da Floresta Amazônica é bastante impactada pela atividade predatória da extração de madeira, pelo garimpo e pelos cartéis do tráfico de drogas. 

Como se vê, trata-se de um mosaico de áreas protegidas dos dois lados da fronteira que estão em constante ameaça por projetos de infraestrutura que, muito mais do que progresso e desenvolvimento, tendem a provocar devastação ambiental e o fortalecimento de práticas criminosas como o desmatamento, a invasão de terras públicas - incluindo as indígenas - o garimpo e o narcotráfico. 

Procurei o prefeito de Santa Rosa do Purus para falar sobre o assunto, mas não recebi retornos até o momento. 

Passarei a acompanhar mais de perto a situação. 


Entenda mais sobre os impactos dos projetos de infraestrutura na fronteira Brasil-Peru: 


Projetos de infraestrutura e extração predatória ameaçam isolamento de índios na Amazônia


Indígenas isolados que vivem no Peru se refugiam no Brasil 


Cruzeiro do Sul/Pucallpa: uma rodovia de resultados econômicos duvidosos, mas de  danos sociais e ambientais concretos 


Siga-me pelo Twitter: @fabiospontes


sexta-feira, 28 de maio de 2021

Já se foi o frio?


A cada anúncio da chegada de uma frente fria ao Acre, parte da população já fica na expectativa para aliviar os dias de nosso severo calor amazônico. Mas a alegria do povo dura pouco, pois um dia após a chegada da “friagem” as nuvens que a trazem vão embora, e o sol volta a dar as caras. Nossos pais e avós costumam dizer que, lá no passado, os frios no Acre duravam dias, até semanas, e que eram muito mais intensos. 

Teria essa mudança alguma relação com a quantidade de floresta que nós perdemos ao longo das últimas décadas? Seria isso apenas uma percepção sem base científica? Ou apenas consequência dos efeitos das mudanças climáticas que afetam todo o Planeta Terra?  


Clique aqui e ouça a coluna Amazônia em Pauta, na CBN Amazônia Rio Branco


terça-feira, 25 de maio de 2021

manejada e fraudada

Madeireiras investigadas pela PF usam planos de manejo para "esquentar" toras 



Caminhão "toreiro" transporta madeira retirada em plano de manejo no interior do Acre (Foto:FPontes/out2019)


O esquema criminoso criado nas estruturas do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para facilitar a exportação de madeira extraída ilegalmente da Amazônia, revelado por meio da operação Akuanduba, da Polícia Federal, trouxe à tona uma das práticas mais recorridas pelas madeireiras da região: usar planos de manejo sustentável para esquentar toras retiradas de terras públicas, unidades de conservação e terras indígenas.  

Para garantir que essa madeira desembarcasse nos portos de diferentes partes do mundo sem sofrer embaraços, o Ibama emitiu o Despacho 7036900/2020 que flexibilizou as exigências para esse tipo de exportação. A medida foi adotada após reunião de empresários do setor madeireiro e parlamentares do Pará com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e o presidente do Ibama, Eduardo Bim, para tentar destravar cargas de Ipê e Jatobá retidas num porto da Geórgia, nos Estados Unidos, por conta da falta de documentação que deveria ter sido emitida pelo órgão ambiental brasileiro.   

A PF recebeu autorização do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para quebrar os sigilos fiscal e bancário de Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, Eduardo Bim, presidente do Ibama, e de outros servidores públicos. Bim, nomeado por Salles no início de sua gestão, também foi afastado do cargo. Entre os possíveis crimes praticados estão facilitação de contrabando, corrupção passiva e ativa, lavagem de dinheiro, contrabando, integrar organização criminosa, crime contra a administração ambiental, prevaricação e advocacia administrativa.

A quebra dos sigilos se estendeu às madeireiras Confloresta (Associação Brasileira das Empresas Concessionárias Florestais), Aimex (Associação das Indústrias Exportadoras de Madeira no Pará), Ebata Produtos Florestais, Tradelink Madeiras Ltda e Wizi Indústria, Comércio e Exportação de Madeira, todas atuantes no Pará.

Todos os funcionários públicos investigados foram nomeados ou receberam cargos de chefia pela caneta do Ricardo Salles. O ministro é um declarado inimigo da proteção florestal desde que veio à tona a reunião ministerial de 22 de abril de 2020, em que ele sugeria aproveitar o período de pandemia para “passar a boiada” e mudar a legislação ambiental. O que fica claro agora é que, naquele momento, Salles já atuava para facilitar a vida dos destruidores da Amazônia.

Entre o fim de 2019 e o início de 2020, após autoridades ambientais dos Estados Unidos apreenderem cargas de madeira exportadas pelas empresas Tradelink e Wizi, iniciou-se o conluio entre servidores do Ibama e do MMA com as madeireiras. As tratativas para “passar a boiada” avançavam rapidamente.

As investigações da PF encontraram uma série de situações conflituosas entre os servidores nomeados por Ricardo Salles para beneficiar as madeireiras que estavam com suas cargas retidas nos EUA. Um dos principais defensores das empresas era o então superintendente do Ibama no Pará, Walter Mendes Magalhães. Ele é um dos policiais militares de São Paulo nomeados pelo ministro do Meio Ambiente em sua tentativa de aparelhamento do Ibama e ICMBio, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.  

A primeira informação da ilegalidade da exportação foi enviada para os norte-americanos em 17 de janeiro de 2020. Na ocasião, o superintendente do Ibama no Pará alegava que “as cargas não foram analisadas pelo setor competente e que não foi expedida manifestação autorizando a exportação dos produtos”, como era exigido, até então, pela Instrução Normativa (IN) 15/2011. Na apreensão, cargas de Ipê e Jatobá foram retidas em um porto da Geórgia, nos Estados Unidos.

Em 5 de fevereiro de 2020, apesar de pareceres técnicos emitidos pelas diretorias da superintendência estadual paraense atestarem a ilegalidade das cargas exportadas, Magalhães enviou “um total de cinco certidões” ao órgão ambiental nos Estados Unidos, o Fish and Wildlife Service (FWS), garantindo a “legitimidade” do envio da madeira, numa tentativa de liberar a carga apreendida. 


Leia a reportagem completa na Amazônia Real e entenda como funciona o esquema para "esquentar" madeiras roubadas de terras públicas na região. 


sexta-feira, 21 de maio de 2021

A Amazônia em Pauta

Vamos conversar sobre a Amazônia? 





Nesta sexta-feira, 21 de maio, iniciei mais um desafio na carreira de jornalista amazônida: falar da Amazônia para quem nela vive. E nada melhor do que o rádio para ampliar a mensagem. Acredito que somente uma consciência crítica da população local sobre a importância de se estar e proteger a nossa maior riqueza reduzirá os efeitos de políticas de desenvolvimento retrógradas para a região. Conscientes sobre o valor da floresta, teremos melhores condições de, a cada eleição, escolhermos melhor nossos candidatos, descartando aqueles que não tenham a mínima preocupação com a manutenção de nossa floresta em pé. 

Todas as sextas-feiras os ouvintes da rádio CBN Amazônia Rio Branco 98,1 vão contar com a coluna Amazônia em Pauta, apresentada pelo jornalista Fabio Pontes. A coluna será transmitida dentro do programa matinal CBN Amazônia Rio Branco, que traz as principais notícias do Acre e do Brasil logo nas primeiras horas do dia. 

A proposta é debater de forma mais ampla com a sociedade acreana as questões que envolvem a proteção e preservação da maior floresta tropical do mundo, onde estamos inseridos. Por meio de debates, análises e informações factuais sobre a Amazônia, a coluna ainda tem como objetivo fortalecer o sentimento de pertencimento do povo acreano à sua maior riqueza: a Floresta Amazônica. 

Dessa forma, a coluna terá como consequência trabalhar na sociedade o sentimento de defesa da floresta e das populações tradicionais que nelas vivem – ribeirinhos, extrativistas, indígenas -, cobrando dos governantes (em todas as suas esferas) a adoção de políticas públicas que protejam a Amazônia, bem como a de valorização e mercado aos produtos que ela pode oferecer, de forma sustentável e socialmente justa. A coluna vai mostrar que, por meio do fomento da bioeconomia, é possível, sim, gerar riqueza a partir da floresta, sem desmatá-la. 

Para quem não está em Rio Branco a coluna poderá ser ouvida pelos links da CBN Amazônia Rio Branco que disponibilizarei aqui e no meu Twitter todas as sextas. 


Coluna Amazônia em Pauta - 21/05/2021 

O Valor da Amazônia (clique e ouça)

Na estreia da coluna Amazônia em Pauta, na CBN Rio Branco, falei sobre a importância de se manter a floresta em pé para a sobrevivência de quem está nas cidades e dentro .... da floresta. "É possível, sim, o Acre crescer sem desmatar." 


terça-feira, 18 de maio de 2021

os arcos da grilagem

 Desmatamento na Amazônia avança para áreas antes intocadas


O pior abril dos últimos dez anos para a floresta amazônica prova que o presidente Jair Bolsonaro mentia ao mundo, na Cúpula do Clima, afirmando que seu governo se empenhava em combater o desmatamento. No mês passado, a Amazônia teve 778 quilômetros quadrados de matas devastadas pelas motosserras. Em março, o Imazon indicava que o corte florestal já tinha alcançado outro patamar recorde: 810 quilômetros quadrados.

Os dados do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), divulgados na segunda-feira pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), indicam que, na comparação com abril de 2020, houve acréscimo de 45% na área total desmatada. Mais do que números, o que preocupa é que o avanço da destruição florestal se dá em áreas fora do chamado “arco do desmatamento”. Significa que, na prática e no conhecimento dos especialistas, o desmate está muito mais relacionado com a grilagem de terras.

“Este desmatamento está acontecendo em regiões do oeste do Pará, no sudeste do Amazonas e em regiões que antigamente tinham um desmatamento muito pequeno”, explica o pesquisador e cofundador do Imazon, Beto Veríssimo. O arco do desmatamento ainda continua a registrar considerável nível de impacto, mas agora o desmate se desloca como “flechas” para a região mais central da Amazônia.

Ao concretizar o projeto de repavimentação da BR-319 entre Manaus e Porto Velho, por exemplo, a tendência é da parte central da região ser ainda mais impactada pelo desmatamento.

Conforme o boletim do Imazon, 68% do desmatamento ocorrido na Amazônia em abril de 2021 foram em áreas particulares “ou sob diversos estágios de posse”, incluindo terras públicas não destinadas, as mais visadas pelos grileiros. “São vários focos de desmatamento. Estão abrindo várias frentes ao mesmo tempo. E acontecendo muito em áreas públicas, sejam elas em unidades de conservação ou florestas devolutas. É uma aposta na grilagem, achando que haverá uma anistia e que será legalizado”, diz Veríssimo.

Um desmatamento que se espalha no território amazônico é desejo declarado de Bolsonaro, do ministro de Meio Ambiente, Ricardo Salles, e de vários políticos da região. A tramitação de projetos de lei no Congresso Nacional e nas Assembleias Legislativas que regularizam a grilagem de terras públicas é o sinal verde para novas invasões, o que significa mais áreas de floresta destruídas.

Está em curso, desde a ascensão de Bolsonaro (sem partido) à Presidência da República, uma desestruturação da política de proteção ambiental no país. O ambientalista Paulo Henrique Bonavigo lembra o episódio de 2019 quando políticos de Rondônia foram se queixar ao presidente que agentes do Ibama e ICMbio haviam queimado caminhões e tratores que retiravam madeira de dentro de uma unidade de conservação em Rondônia.

“O ministro do Meio Ambiente veio ao estado, foi até o local do fato num helicóptero do Ibama para se reunir com os madeireiros, e não com a equipe dele”, lembra Bonavigo, que é presidente da Ação Ecológica Guaporé (Ecoporé), de Porto Velho (RO).

Na ocasião, o próprio Bolsonaro gravou um vídeo ao lado do senador Marcos Rogério (DEM-RO), desautorizando fiscais do Ibama a destruírem equipamentos apreendidos em operações em locais de difícil acesso, norma essa prevista em decreto de 2008.

Para Beto Veríssimo, do Imazon, não basta apenas aumentar a repressão no combate aos crimes ambientais, mas acabar com qualquer perspectiva de que a invasão de terras públicas será legitimada pela aprovação de projetos de lei. “Se o governo resolver endurecer de fato a fiscalização e remover qualquer perspectiva de regularização, tira o oxigênio de qualquer movimento. O que move [a grilagem] é a sensação de que serão anistiados e legalizados”, ressalta. 


Leia reportagem com todos os detalhes na Amazônia Real