Páginas

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

As vítimas do descaso

 Após descida do rio, indígenas recolhem produtos descartados por comerciantes 

 

A cidade de Jordão, que foi inundada pelo transbordo dos rios (Foto:Divulgação)

 

 Um vídeo com imagens de indígenas Huni Kuin recolhendo objetos e alimentos descartados por comerciantes após a descida das águas dos rios Jordão e Tarauacá, no Acre, que circula nas redes sociais vem causando comoção e revolta em quem assiste às imagens. Os produtos são de comércios que foram inundados pelo transbordamento dos dois rios. 

As intensas chuvas que caíram sobre as cabeceiras dos rios desde o último fim de semana provocaram o transbordamento que afeta comunidades indígenas e ribeirinhas espalhadas ao longo dos dois mananciais. O vídeo, sem autoria identificada, é acompanhado de um relato em que uma voz masculina diz: “Após o nível das águas começar a baixar, o material descartado pelo comércio está sendo reaproveitado pelos indígenas”.

A pequena cidade de Jordão (a 462 KM de Rio Branco) amanheceu na segunda-feira (21) com 70% do perímetro urbano inundado pela cheia dos rios. Ao menos 38 aldeias do povo Huni Kuin foram impactadas, causando a perda de roçados, casas e criação de animais. O bairro Kaxinawa, onde vive a maior parte dos Huni Kuin que moram na cidade, está entre os mais atingidos. Mais de 30% dos moradores de Jordão é composta por indígenas, que se espalham entre as aldeias e os bairros da cidade.

As imagens que mostram os Huni Kuin pegando os alimentos descartados pelo comércio em meio à lama deixada pelas águas do Jordão e Tarauacá foram gravadas na terça (22). Sem contar com nenhum tipo de assistência por parte da prefeitura ou do governo estadual naquele momento, os indígenas não encontraram outra opção senão aproveitar os produtos que tinham ficado debaixo d’água. Procuradas, lideranças indígenas da etnia preferiram não comentar sobre o episódio.

Momentos antes, parlamentares de oposição no Acre já haviam alertado sobre a possibilidade de a população jordãoense passar fome como consequência da enchente. “Se não tiver uma ação imediata, a situação será de muitos transtornos sociais. Hoje temos a falta de uma política de proteção social para alimentar as pessoas, uma ação imediata de levar alimentos, kits de desinfecção das casas”, afirmou o deputado estadual Edvaldo Magalhães (PCdoB) à Amazônia Real.

De acordo com o governo do Estado, 100 cestas básicas, kits de limpeza e água potável e colchões foram entregues em Jordão nesta terça. Mais ajuda imediata será transportada por embarcações a partir do município vizinho de Tarauacá.  Segundo a Secretaria de Assistência Social, ao menos 76 famílias tiveram que deixar suas casas e foram levadas para escolas transformadas em abrigos. A maioria dos desalojados é do povo Huni Kuin, moradores do bairro Kaxinawa.   

Fotos e vídeos enviados à Amazônia Real mostram as tentativas dos Huni Kuin de salvar os seus poucos pertences ao longo de toda a segunda-feira nas aldeias e na cidade. Na maioria das aldeias, a água chegou à altura do teto. Como o transbordamento aconteceu na virada de domingo para segunda-feira, os indígenas não tiveram a oportunidade de retirar os bens, como geladeiras e fogões. Em alguns casos, essa retirada ficou ainda mais inviável, pois a correnteza arrastou embarcações e motores. 


Leia a reportagem completa e assista ao vídeo na página da Amazônia Real

Histórias ameaçadas

Vacinação no Vale do Javari está atrasada e indígenas denunciam que anciões estão morrendo por Covid-19 


Após um cenário de aparente tranquilidade no controle da pandemia da Covid-19 entre as populações indígenas da região amazônica, a doença voltou a representar uma ameaça a comunidades indígenas da Amazônia. Na Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas, fronteira com o Peru,  a imunização da terceira dose está atrasada e a vacinação das crianças com menos de 12 anos não foi iniciada. O Vale do Javari é o território com maior referência de povos de recente contato e de grupos isolados do país.


Em janeiro deste ano, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) chegou a emitir uma nota alertando para um surto gripal e casos Covid-19 nos territórios indígenas, denunciando falta de assistência técnica, medicamentos e EPIs. Em Roraima, explosões de casos de gripe levou o Conselho Indígena de Roraima a suspender suas atividades presenciais durante 15 dias em janeiro.

Na aldeia Maronal, na TI Vale do Javari, quatro anciãos do povo Marubo morreram entre novembro de 2021 e fevereiro deste ano com suspeita de Covid-19. A morte mais recente aconteceu no último sábado (19), com o falecimento de Luzia Marubo, de 99 anos, considerada a Marubo mais velha moradora da Maronal. Já há alguns dias ela apresentava sintomas de gripe. Por não haver testes nas aldeias, não é possível saber se ela contraiu Covid-19.  

No dia 4 deste mês, uma jovem da mesma aldeia também veio a óbito. Entre os idosos vítimas da doença está Alfredo Marubo, o Ivinimpapa, na língua nativa, de 84 anos, uma das mais importantes lideranças do povo. As outras vítimas são Zacarias Marubo, 83 anos, e Fernanda Joaquim Marubo, 82.

“A Covid se alastrou para toda a região do Vale do Javari. Hoje a gente sofre com as consequências da Covid, principalmente com as sequelas para os mais idosos. A nossa aldeia está em momento de comoção. É uma morte atrás da outra. Para nós é uma situação bastante fora do normal. Por ser uma comunidade pequena, onde todo mundo se conhece, essas mortes abalam muito”, diz Manoel Chorimpa, presidente da Associação de Desenvolvimento Comunitário do Povo Marubo do Alto Rio Curuçá (Asdec), à Amazônia Real, nesta semana. “É uma situação muito triste para a nossa história.”

No último dia 11 a Asdec divulgou nota relatando preocupação com o avanço de casos suspeitos de Covid, e a morte de uma jovem ocorrida no começo do mês em hospital da capital Manaus. “Desde início de julho de 2021, encaminhamos ao DSEI, o programa local de atendimento aos idosos, justamente com as preocupações que hoje estamos vivendo com as sequências de óbitos”, diz trecho da nota.

O contágio entre os mais velhos é a principal preocupação para os Marubo por serem os mais vulneráveis a desenvolver quadros graves da doença, podendo levar à morte. O óbito dos anciãos também representa a perda dos conhecimentos tradicionais do povo Marubo. Para as populações indígenas, seus velhos e velhas são os guardiões de toda a memória ancestral transmitida de geração a geração pela oralidade.

 

Leia a reportagem completa na Amazônia Real



sábado, 19 de fevereiro de 2022

A nossa teoria da conspiração

Governador do Acre pode ter se encontrado com Flávio Bolsonaro para tirar Polícia Federal de seu calcanhar 

 


Além do tremendo barraco protagonizado pela família cristã, conservadora e tradicional Bittar no plenário da Câmara Municipal de Rio Branco, o casal bolsonarista Márcia e Márcio Bittar ganharam as manchetes da imprensa acreana essa semana por articular o encontro entre o encrencado e investigado governador do Acre, Gladson Cameli (PP), com o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos), também na mesma situação policial por conta de suas rachadinhas.


Pouco se falou sobre este encontro, que muito tem a dizer, mas ficou oculto. Pelas notícias oficiais, o encontro foi para consagrar o apoio de Cameli à candidatura de Márcia Bittar ao Senado. (Sim, marido e esposa querem transformar o Senado da República em extensão domiciliar, tudo pago pelo contribuinte).

Todavia, o que muita gente finge não saber é que o encontro entre os investigados Gladson Cameli e Flávio Bolsonaro pode ter outro motivo. Encurralado pela superintendência da Polícia Federal no Acre, que o define como o suposto chefe de uma organização criminosa que teria surrupiado quase R$ 1 bilhão dos cofres públicos, o governador do PP está desesperado em busca de uma salvação política, já que do ponto de vista jurídico é quase insustentável.

As provas contra Gladson Cameli são robustas, baseadas em relatórios de inteligência do Coaf. Cameli é flagrado movimentando alguns milhões de reais em dinheiro vivo sem justificar a origem. Deu de presente uma BMW para a esposa, cujo dinheiro, segundo a PF, tem origem em esquema de corrupção - uma lavagem de capitais. O patrimônio do governador evoluiu de forma estratosférica desde que assumiu o Palácio Rio Branco - e ele botou culpa na inflação.

Enfim, a ficha policial do governador é de causar inveja a qualquer batedor de carteiras. Por mais que esteja gastando alguns milhões de reais com os mais caros advogados de Brasília, até aqui, ao que tudo indica, a atuação da defesa parece não surtir efeitos. Nestes últimos dois meses, os investigadores federais ficaram debruçados sobre os sigilos bancário e fiscal do governador, cuja quebra foi autorizada pela ministra Nancy Andrighi, do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Portanto, se as provas já eram bem irredutíveis, tendem a ficar ainda mais fortes, o que pode levar a Polícia Federal a pedir o afastamento de Gladson Cameli da função de governador do Acre, e até mesmo sua prisão. Se a ministra acatará, não sabemos.

Vendo a ele e toda a sua família imprensados pelas investigações, Gladson Cameli foi bater à porta daquele que é apontado como o membro da família Bolsonaro com maior influência sobre a Polícia Federal: o senador das rachadinhas. Desde que assumiu o governo, Jair Bolsonaro trabalha para transformar a PF em sua polícia política para perseguir adversários e proteger seus encrencados filhos. Manda substituir delegados que não atendam a seus caprichos, entre outras interferências.

E o grande responsável por essa eventual ingerência política é o filhote Flávio, a quem o governador Gladson Cameli teria ido pedir súplicas. Ainda em dezembro, já circulava no meio político acreano a notícia de que Cameli iria recorrer ao senador do Republicanos para salvar a sua e a pele da família, com a intermediação de Márcio Bittar. De ex-comunista a bolsonarista fiel, Bittar aparenta ter um bom trânsito com o clã Bolsonaro.    

Meses atrás, a especulação era a de que Bittar interviria por Gladson Cameli junto à família presidencial para tirar a Polícia Federal de seu calcanhar. Para isso, Cameli iria desistir da reeleição para que Márcio Bittar fosse candidato a governador. Porém, ao que tudo indica, o acordão para soterrar a operação Ptolomeu passa por Gladson Cameli declarar a possível atual esposa de Bittar, Márcia Bittar, como sua candidata oficial ao Senado, colocando a máquina estadual à disposição de uma candidata inexpressiva.

Fragilizado politicamente, Cameli sabe que abraçar a candidatura de Márcia Bittar é um suicídio eleitoral, pois consoladaria, ainda mais, a rachadura na sua base política. Outros nomes bem mais expressivos eleitoralmente querem se apresentar como os candidatos oficiais do Palácio Rio Branco ao Senado. Se bem que, com um governador investigado por crime de corrupção, não se sabe se isso é vantajoso. Pelo sim, pelo não, Gladson Cameli tem uma situação bastante complicada.

Por mais que Flávio Bolsonaro acione seus botões junto à alta cúpula da Polícia Federal para sepultar a operação Ptolomeu, isso em si seria um grande escândalo, revelando que o governador acreano tem, sim, muitos podres a esconder, e que apenas a ingerência política dentro da PF será capaz de salvá-lo do afastamento do cargo e até de uma prisão.  

Do ponto de vista eleitoral e político, nada justifica Gladson Cameli abandonar candidaturas muito mais potenciais ao Senado, como as dos deputados federais Alan Rick e Jéssica Sales, para chamar de sua a candidatura de Márcia Bittar, cujo único interesse é atender a caprichos pessoais. Apenas uma possível intervenção gestada pelos Bittar junto ao bolsonarismo para sufocar as investigações da PF justifica este tiro no pé eleitoral de Cameli. Na situação em que ele se encontra, vale tudo até dois tiros em cada um dos pés.

Agora é acompanhar o desenrolar da operação Ptolomeu, que na semana passada completou dois meses. Se nada acontecer daqui pra frente, é porque a superintendência acreana já recebeu ordens de Brasília para colocar tudo na gaveta. Ou pode ser que eu esteja apenas na minha teoria da conspiração, e na semana passada os federais retornem às ruas de Rio Branco e Manaus.

Vamos saber se o encontro entre Gladson Cameli e Flávio Bolsonaro foi proveitoso (para o governador).    

 

 

 

 

Anúncio

 
                                                                                                                                

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Diário de Bordo Nawa

 A autodemarcação Nawa 

 

Nawa tentam desencalhar bajola em navegação épica pelo igarapé Novo Recreio (Foto:Alexandre Noronha/Amazônia Real)
 

 

A fadiga da espera de 22 anos pelo reconhecimento do seu território, agravada pela política anti-indígena do presidente Jair Bolsonaro (PL), mais os impactos causados pelo projeto da construção de uma rodovia na fronteira Brasil-Peru, levaram o povo Nawa, do Acre, a fazer a autodemarcação de sua terra. Após quase serem extintos, expulsos das terras originárias no início do século passado, os sobreviventes agem por conta própria para evitar que os 53 mil hectares reivindicados sejam destruídos por novos invasores. 

A convite do cacique Railson Nawa e de outras lideranças indígenas, a reportagem da agência Amazônia Real navegou, em julho de 2021, pelo rio Moa e pelo igarapé Novo Recreio, além de percorrer mais de 20 quilômetros numa trilha de mata fechada, vivenciando aquilo que pode ser considerado a saga do povo Nawa pela autodemarcação.


É uma saga protagonizada por homens, mulheres e crianças conscientes das ameaças a que estão sujeitos. Eles não se recusam a embarcar em bajolas em dias inteiros dentro da água ou da mata, abrindo trilhas de uma margem de igarapé a outra para proteger a terra indígena. Sem recursos, constroem tapiris nos limites do território reivindicado para sinalizar que, daquele ponto em diante, a área é de domínio de um povo que quer o direito de posse das terras ocupadas por seus antepassados.

A reportagem especial produzida pelos jornalistas Fabio Pontes e Alexandre Noronha, relatada a seguir, conta a história de vida e resistência de um povo indígena e os desafios enfrentados para chegar aos limites de seu território, em uma região da Amazônia onde a floresta (ainda) se encontra intocável. 


Leia esta reportagem mais do que especial em formato de diário de bordo e assista ao documentário na página da Amazônia Real

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

opinião

Governo Cameli: sobram muitos escândalos, falta bastante competência

 

Desde que Gladson de Lima Cameli assumiu o governo do Acre, em janeiro de 2019, apresento-me como um crítico a este mandato, como o fui aos governos do PT. Aliás, aqui por essas bandas do Aquiry sou uma das raras vozes críticas a ele. Este posicionamento se deu por conta da atuação orquestrada do novo governo que se iniciava de destruir a política de proteção ao meio ambiente e aos povos indígenas. A consequência está aí: índices recordes de devastação da Floresta Amazônica dentro do Acre.


Amparados pela certeza da impunidade, criminosos ambientais se sentiram à vontade para invadir terras públicas e praticar a grilagem. Afinal de contas, em apenas três meses à frente do cargo, o governador tinha desmoralizado o órgão de proteção ambiental do estado - o Imac - dizendo que ninguém precisava mais pagar multas ambientais. Como já escrevi aqui, Gladson Cameli inspirou Ricardo Salles por ter deixado a boiada passar bem antes da repugnante fala do ex-ministro do Meio Ambiente.     

Logo depois, o político do PP foi se mostrando um verdadeiro desastre nas articulações políticas. Não foi capaz nem mesmo de manter a unidade da ampla aliança partidária que o elegeu em 2018. Tanto assim, que as principais ameaças ao seu projeto de reeleição vêm de seu ex-grupo político. Aqueles que estão ao seu lado são muito mais pela conveniência de estar acomodados em fartos cargos comissionados, do que pela beleza dos olhos ou dos passinhos de dançarino do governador.  

Sem capacidade de fazer articulações políticas, Gladson Cameli mostrou-se ainda pior na condução da administração pública. Passados três anos, não sabemos qual o projeto (nem se há algum) desta atual gestão para a educação, a saúde, a segurança, a infraestrutura e assim vai. É um governo espatifado, sem capacidade técnica. Não há institucionalidade. É uma balbúrdia só. Gladson Cameli não assumiu as rédeas da coisa, preferindo transferir responsabilidades - o que lhe é bem comum nestes seus 15 anos de vida na política.

Seu grande mote na campanha de 2018 era fazer do agronegócio o carro-chefe da economia acreana. Para ele, bastava deixar a boiada passar no meio ambiente para o setor rural deslanchar. Gladson Cameli não só contribui para a destruição da Amazônia, como também não favoreceu a economia do campo. Basta ver o abandono em que se encontram nossos ramais. As mulheres e homens do campo estão desamparados.

Qual foi a política de fomento para a agricultura familiar? Qual estratégia ou parceria o governo firmou com os bancos para facilitar o acesso ao crédito rural? Qual a política de assistência técnica rural foi ou é executada? Nestes três anos, qual o fomento a setores como a bacia leiteira, a produção de ovos, a distribuição de sementes?

Em três anos, foram três secretários de Agronegócio e Produção. A politicagem sempre prevaleceu para a escolha dos secretários e secretárias de Cameli, em detrimento das suas capacidades técnicas. Como costumo dizer desde 2019, falta gestão e sobra muita bagunça, desorganização, falta de planejamento. É um governo que vive de futricas, picuinhas. Por isso também costumo dizer que no Acre não temos um governo, mas um desgoverno.

Agora, em dezembro de 2021, fomos surpreendidos com a operação Ptolomeu, da Polícia Federal, revelando aquele que pode ser definido como o maior escândalo de corrupção da História recente do Acre. Quer dizer, não fomos tão surpreendidos assim, pois sabemos que uma hora ou outra a bomba ia explodir. Desde 2019 pairam dúvidas sobre a capacidade do desgoverno Gladson Cameli de combater a corrupção.

Desde o começo havia suspeitas. Seus apoiadores dizem que agora é diferente, pois o próprio governador coloca a Polícia Civil para investigar e levar para a Justiça os possíveis casos de corrupção dentro da grande estrutura do governo. Todavia, a Ptolomeu mostrou que a corrupção não ocorre só nos porões, mas no andar de cima do Palácio Rio Branco - tanto assim que agentes federais fizeram uma varredura no gabinete de Cameli dentro da sede do Executivo.

Passei quase três semanas lendo e relendo o inquérito da operação Ptolomeu. Após ler um parágrafo, voltava ao começo pra saber se não tinha entendido errado. Puxava uma coisa com a outra. O que está ali é estarrecedor. Não são provas amadoras, mas levantadas a partir de relatórios de inteligência elaborados por órgãos de credibilidade como o Coaf, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras. Tanto assim, as provas foram aceitas pelo Superior Tribunal de Justiça para deflagrar a operação Ptolomeu.

A minha conclusão após a leitura de toda a papelada em PDF é a de que, em três anos de desgoverno Gladson Cameli, faltou muita competência técnica, gestão administrativa e um correto espírito republicano para a gestão pública. Em contrapartida, sobram muitas mutretas e escândalos de corrupção que precisam ser profundamente investigados.

É por essa razão que o Acre se encontra na atual situação: no fundo do poço. A Saúde pública está um caos; toda semana temos imagens de pessoas espalhadas pelos corredores dos hospitais superlotados. A cada dia os médicos apresentam denúncias das péssimas condições de trabalho. Na segurança, não preciso entrar em detalhes. Sem uma política de fomento à economia, nossas desigualdades sociais ficam ainda mais gritantes.

Na infraestrutura não temos uma obra de grande porte para gerar emprego e renda, aquecer a economia local. A construção civil respira com a ajuda de aparelhos. Aliás, fomentar a economia local não é a virtude do atual desgoverno. Por aqui, nossas licitações com dinheiro do povo acreano são direcionadas para Manaus. Isso daqui se tornou um verdadeiro paraíso para os CNPJs manauaras após a eleição de Cameli.    

Infelizmente essa é a triste realidade do Acre nos dias atuais.  Diante de tantas operações policiais deflagradas nos últimos dois anos, podemos afirmar que o desgoverno Gladson Cameli é um caso de polícia. A corrupção está entranhada na estrutura do Executivo. Está tudo contaminado. O difícil é saber como vai acontecer o processo de descontaminação. Que as autoridades possam agir para conter essa doença, o Acre reencontrar um governo para nos tirar do fundo do abismo.


sábado, 8 de janeiro de 2022

Artíficios artificiais

Para PF, governo Gladson faz manobras para burlar fiscalização federal

 

Ao carimbar recursos federais como fonte 100, governo "trava" fiscalização de órgãos da União (Foto: Assessoria PF/dez/21)
 

 

Fabio Pontes

 

Apesar de mais de 90% dos recursos públicos operados pelo governo do Acre terem como origem transferências do Tesouro Nacional, a gestão de Gladson Cameli (PP) prefere carimbar a maior parte da verba como recursos próprios, a chamada fonte 100. Ao realizar essa manobra, o Palácio Rio Branco fica livre de ver os seus contratos com fornecedores e prestadores de serviço vasculhados à lupa por órgãos federais de fiscalização como a Controladoria Geral da União (CGU) e o Tribunal de Contas da União (TCU), além da Polícia Federal.  


Essa é a conclusão a que chegou a superintendência da Polícia Federal no Acre na petição eletrônica enviada ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para deflagrar a operação Ptolomeu, que investiga a possível atuação de uma organização criminosa na alta cúpula do governo acreano criada para desviar recursos federais do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica, o Fundeb.

A PF investiga a existência de um esquema de pagamento de propina a servidores do governo por empreiteiras que mantêm contratos com o Estado. Este “propinoduto amazônico” foi descoberto a partir da intensa transferência de recursos destas construtoras para contas de passagem de empresas fantasmas. Entre os empresários donos de uma dessas contas está o suplente de deputado federal Rudilei Estrela (PP), definido pela Polícia Federal como o “principal operador político e financeiro” do governador Gladson Cameli.

Os investigadores concluíram que o governo realiza manobras para burlar a fiscalização federal a partir das análises técnicas elaboradas por auditores da CGU nos contratos firmados com as empreiteiras investigadas. Em apenas quatro contratos, os valores empenhados cuja origem é definida como fonte 100 (recursos próprios) chegam a R$ 28,7 milhões, enquanto os de fonte 200 (verba federal) ficaram em R$ 9,1 milhões.

“[...] grande parte dos empenhos para pagamento das empresas investigadas foi efetuada sob código de recursos próprios (fonte 100), o que pode se constituir em artifício do governo estadual para dificultar a fiscalização dos recursos por órgãos de defesa do estado de competência federal”, diz trecho do inquérito.

Em um estado cuja atuação dos órgãos estaduais de fiscalização e controle deixam muito a desejar - por conta das pressões políticas e econômicas do Poder Executivo -, tirar das autoridades federais a prerrogativa de acompanhar a aplicação da verba enviada por Brasília é uma forma de ocultar possíveis malversações.   

Apesar da manobra, o volume de dinheiro federal enviado e executado pelo Palácio Rio Branco em contratos com as empreiteiras investigadas ainda foi considerado alto, levando a CGU a recomendar o “aprofundamento das análises”.

“[...] considerando o montante de recursos federais envolvidos, a relevância das políticas públicas afetadas e a gravidade dos fatos preliminarmente apurados pela PF/AC, sugere-se o aprofundamento das análises, mediante a análise de documentação a ser obtida durante ação de busca e apreensão nas empresas investigadas”, diz outro trecho da petição enviada pela PF ao STJ.


                                         

          

Visite nossa loja on-line - venda para todo Brasil


quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Corrupção ambiental

CGU aponta que até recursos do REM/KFW foram pagos à empreiteira investigada


Enquanto política ambiental é desmantelada por Cameli, empreiteira recebe verba enviada por estrangeiros para proteger floresta (Foto: Jardy Lopes)

Fabio Pontes 

 

As auditorias realizadas pela Controladoria Geral da União (CGU) em contratos firmados entre o governo do Acre e empresas do setor da construção civil apontam para possíveis irregularidades que nem mesmo recursos destinados para a política ambiental passaram incólumes. Recursos estes que são enviados por governos estrangeiros como forma de compensação dentro do programa de pagamento serviços ambientais, conhecido REDD+ na sigla em inglês.  


No Acre, por em sua primeira fase ter sido firmado apenas com o governo da Alemanha, por meio de seu banco estatal KFW, o programa ganhou a sigla de REM/KFW, que previa o repasse de ao menos 25 milhões de Euros em sua primeira fase (Entre 2012 a 2017). Com a renovação do contrato em 2017, o governo do Reino Unido também fez a adesão, e o valor passou para  30 milhões de euros. Para receber este dinheiro, o Acre teria como contrapartida adotar políticas para combater o desmatamento da Amazônia.

Conforme notas técnicas elaboradas por auditores da CGU, quase R$ 145 mil oriundos do programa REM/KFW foram empenhados em favor da empreiteira Murano Construções Ltda para “serviços de engenharia inerentes à manutenção predial preventiva e corretiva de bens imóveis, sem relação aparente com projetos de proteção e conservação de floresta”. A princípio, como apontam as análises, não há motivos técnicos para que dinheiro destinado para a política ambiental tivesse este fim.

O trecho entre parênteses foi retirado do inquérito da operação Ptolomeu, da Polícia Federal, que apura a possível formação de uma organização criminosa dentro do Palácio Rio Branco para desviar verbas públicas. Conforme destaca a PF, mesmo sem nunca ter experiências em obras no Acre, a Murano passa a assinar contratos milionários após a chegada de Gladson Cameli (PP) ao Palácio Rio Branco, em 2019.  

Em apenas dois deles, a Murano assumiu obras avaliadas em R$ 27 milhões. Segundo as investigações da operação Ptolomeu, a empreiteira - que tem sede em Brasília - foi detectada nas operações bancárias de transferência de recursos para contas de passagem de empresas fantasmas, sendo uma delas de propriedade de Rudilei Estrela, definido pela PF como o principal “operador político e financeiro” do governador Gladson Cameli. Além disso, afirma a PF, parte do dinheiro das contas de passagem tinha como destino a Construtora Rio Negro, cujo dono é Gledson Cameli, irmão de Gladson.   

Desde que o político do PP assumiu o governo do Acre, em janeiro de 2019, o Acre apresenta níveis recordes de desmatamento e degradação de sua cobertura florestal amazônica. A cada mês e ano que os institutos que aferem o desmatamento da floresta divulgam seus estudos, o Acre sempre supera a taxa de devastação anterior.

Em 2021, como exemplo, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento no Acre atingiu a marca de 870 km2 - a maior taxa em quase duas décadas.

Averso à política ambiental - mas dono de um cinismo que o leva a participar das conferências do clima mundo afora - Cameli diz ter como meta fazer do agronegócio o carro-chefe da economia local. Para isso, seguiu a mesma linha de seu pupilo político, Jair Bolsonaro, e desestruturou a política da proteção da Amazônia construída ao longo de 20 anos pelos governos do PT.

Uma de suas primeiras medidas ao assumir o governo foi extinguir o Instituto de Mudanças Climáticas (IMC), responsável por colocar em prática as políticas financiadas com os recursos do REM/KFW. A medida levaria o Acre a perder alguns milhões de Euros. Percebendo a lambança, recriou o IMC. 

Outro efeito perverso do governo Gladson Cameli foi travar de forma proposital o pagamento dos subsídios para a produção da economia extrativista do estado, sobretudo da borracha. Parte deste subsídio tem como fonte principal, os recursos do REM/KFW. O governo alegava revisão contratual das gestões passadas. Enquanto brecava o subsídio para fomentar a renda dos seringueiros, como aponta a CGU, o governo repassava os recursos para uma empreiteira. 

Todavia, com o Acre batendo os recordes de desmatamento e queimadas desde a posse de Gladson Cameli, os financiadores internacionais reduziram o envio de recursos para o Acre. Este tema por sinal, foi tema de vários artigos aqui no blog.

Nos bastidores, algumas fontes repassavam a este jornalista informações de que o dinheiro do REM/KFW estava seguindo caminhos nada republicanos, porém faltando provas dos ilícitos. Agora, a partir das análises técnicas feitas pelos auditores da CGU, percebe-se que, de fato, os recursos que deveriam ser usados em políticas de defesa da Amazônia estavam tomando outro rumo.  

Talvez aí possamos entender o porquê da proteção da mais importante floresta tropical do mundo passar por seu pior momento justo no governo de Gladson Cameli. 

Aliás, este jornalista, aqui nestas mesmas páginas, é a principal e quiçá a única voz a denunciar este processo de devastação da Amazônia iniciada a partir da posse Gladson Camelino governo dAcre.

Desmatamento recorde fará Acre perder € 30 milhões até 2021 

 

De olho em recursos internacionais, governo Cameli busca aproximação com movimento indígena

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Propinoduto Amazônico

 “Operador de Gladson”, Rudilei Estrela recebia dinheiro repassado por empreiteiras



De acordo com inquérito da Polícia Federal ao menos R$ 16 milhões entraram em “contas de passagem” de empresas de fachada; relatório aponta entrada destes recursos em conta de empreiteira de irmão do governador do Acre ,

 

 

Para PF, transações em contas de empresas fantasmas era tentativa de ocultar "pagamento de vantagens" a agentes públicos em troca de licitações (Foto:Agência Acre)

 

Fabio Pontes e Leonildo Rosas  



Apontado por investigações da Polícia Federal como o “operador financeiro e político” do governador Gladson Cameli (Progressistas), o empresário Rudilei Estrela recebia, nas contas das duas empresas das quais é sócio, repasses de empreiteiras que mantêm contratos com o governo do Acre. De acordo com o inquérito da Operação Ptolomeu, uma das contas operadas por Rudilei Estrela servia apenas como “conta de passagem” e a empresa era de fachada. Outro ponto que chamou a atenção foi a grande quantidade de recursos em espécie sacados das duas contas bancárias.


Conforme as investigações, foi a partir da conta da Acácia Construções de onde saiu enviado parte do dinheiro usado para quitar a compra da BMW X4 - avaliada em meio milhão de reais - que o governador Gladson Cameli presenteou a esposa Ana Paula Correia Cameli. Apesar da primeira-dama ser a agraciada com o presente de luxo, o endereço do proprietário do automóvel fica localizado na periferia de Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul.

Ainda conforme o inquérito, foi da conta da T. Ferreira Souza ME que saíram R$ 120 mil transferidos para uma outra conta de passagem, da empresa Silveira Araújo Construções Eireli. Esta empreiteira, por sua vez, foi identificada em relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) como repassadora de recursos para a conta da Construtora Rio Negro Ltda, de propriedade de Gledson Cameli, irmão do governador Gladson Cameli.

A Construtora Rio Negro, com sede em Manaus, também conforme relatórios do Coaf, foi usada pelo governador acreano para ser a compradora e pagadora de um apartamento de luxo avaliado em R$ 5 milhões na capital paulista. 

 

(Entenda mais: Gladson cria holding familiar e a usa para comprar imóvel de R$ 5 milhões em SP)

 

Desde o dia 27 de dezembro, o blog do Fabio Pontes e o Portal do Rosas publicam uma série de reportagens sobre o inquérito policial, cujas informações são de relevante interesse da sociedade acreana por levantar suspeitas sobre o governador do Estado.

Conforme informações da PF obtidas a partir da quebra dos sigilos bancários autorizados pela Justiça Federal no Acre, em 2020 a T. Ferreira Souza ME movimentou quase R$ 8 milhões. As empresas de Rudilei Estrela são investigadas desde o primeiro semestre de 2020, com a deflagração da operação Assepsia, que investiga suposto esquema de corrupção na compra de álcool em gel pela Prefeitura de Rio Branco.

Um fato que chamou a atenção dos investigadores foram os sucessivos repasses feitos pela Murano Construções Eireli para as empresas de Rudilei Estrela. Entre janeiro e março de 2020 foram R$ 178 mil transferidos. Em um único dia, 13 de março de 2020, a Murano enviou R$ 70 mil. “Não se vislumbra, a priori, qual a relação empresarial justificaria tais transações entre uma construtora com sede em Brasília e uma gráfica com sede em Cruzeiro do Sul”, diz trecho do inquérito.

Sem nunca ter construído uma calçada no Acre, a Murano Construções desembarca por aqui durante o primeiro ano de Gladson Cameli como governador, passando a vencer licitações milionárias. Conforme as investigações, a empreiteira assina dois contratos com o governo que, juntos, chegam à cifra de R$ 27,3 milhões.

Para a PF, essa intensa e constante movimentação financeira de recursos de empreiteiras detentoras de contratos com o governo - por meio de transferências para contas de passagem de empresas fantasmas - “indicam a existência de um “esquema” de repasses das referidas empresas a representantes do Governo do Estado por meio da utilização da conta bancária de uma empresa laranja”.

“Uma vez que a hipótese de esquema criminoso aponta para o pagamento de vantagens indevidas a agentes do Governo Estadual, se busca investigar se os pagamentos teriam como contrapartida o direcionamento de contratações”, afirma parte do relatório.

Outra empresa definida pela Polícia Federal como de fachada e detentora de uma “conta de passagem” é a Silveira Araújo Construções Eireli. Criada em 2016 e também sem registrar a contratação de um único funcionário, a conta da empresa movimentou mais de R$ 6 milhões entre março de 2019 a abril de 2020. De acordo com o inquérito da operação Ptolomeu, entre as empresas destinatárias das transferências feitas por ela também está a Construtora Rio Negro Ltda.

“[...] entre os beneficiários dos valores transacionados pela empresa Silveira Araújo está a Construtora Rio Negro, indicada duas vezes pelo Governador Gladson Cameli para figurar como “pagadora” e depois como “compradora” de imóvel avaliado em R$ 5.008.500,00”, aponta trecho do relatóro policial.

A PF só chegou a essa empreiteira fantasma por conta dos RIFs emitidos pelo Coaf alertando sobre a tentativa de compra do apartamento de alto padrão. Ao se fazer um pente-fino nas contas da Construtora Rio Negro, descobriu-se que ela era beneficária de créditos enviados pela Silveira Araújo, que por consequinte, recebeia verba de empreiteiras que tinham o governo do Acre como principal cliente.  

Aqui, como na conta da empresa de impressão de material publicitário de Rudilei Estrela, a Murano Construções aparece como a principal depositária na conta de passagem: R$ 559 mil. Conforme o inquérito, entre 2019 e 2021, a Murano teve empenhados R$ 18 milhões pelo governo Gladson Cameli; deste total, R$ 10 milhões foram de fato pagos.

Como segunda maior repassadora de dinheiro para a “conta de passagem” está a Adinn Construção e Pavimentação Ltda, que é a "empreiteira mãe” da Silveira Araújo. A Adiin já foi investigada por outra operação da Polícia Federal, em 2013: a G7. À época, a PF apurava a formação de um possível cartel entre empreiteiras para vencer as licitações de obras licitadas pelo governo do petista de Tião Viana (2011-2018). Com Gladson Cameli, apontam as investigações policiais, a empreiteira continuou a manter prestígio e a vencer licitações.   
 

         
Toque de Midas   


Sendo Rudilei Estrela apontado no inquérito como uma das figuras centrais operando essa complexa engrenagem de circulação de dinheiro das empreiteiras, é preciso destacar as movimentações realizadas por sua segunda empresa: a Start Construções, Comércio e Serviço Ltda, de nome fantasia Acácia Construções, que tem sede em Cruzeiro do Sul, terra-natal do empresário.  
 
Conforme o inquérito da operação Ptolomeu, após Estrela entrar como sócio da Acácia Construções, a empreiteira saiu do ostracismo para movimentar alguns milhões de reais. Segundo a PF, o empresário e suplente de deputado federal pelo Progressistas passou a integrar os quadros societários da Acácia Construções em junho de 2020.

Entre janeiro e dezembro de 2021, um dos períodos de quebra do sigilo bancário, R$ 2,2 milhões são creditados na conta da empresa. Conforme gráficos elaborados pela Polícia Federal, 99% dos recursos têm como origem transferências feitas por outras empresas do setor da construção civil: seja em pequenas ou grandes quantias. Todas elas são listadas como prestadoras de serviços com o governo do Acre.

Metade dos R$ 2,2 milhões foram transferidos por apenas quatro empreiteiras: a Atlas Construção e Comércio, a Queiroz Amp Santos Ltda; a Arc Comercio Construção e Adm; e a Meng Eng Com & Ind Ltda. Sozinha, a Atlas Construção remeteu R$ 618 mil para a conta da Acácia.

Mesmo com toda essa movimentação de dinheiro, a empresa da qual Rudilei Estrela é sócio não tem nenhum funcionário registrado em seus quadros desde 2012. Segundo a PF, os últimos contratos da empresa com o setor público têm como registro o ano de 2011. Por conta disso, a PF diz que a empreiteira apresenta todas as características para ser definida como “empresa de fachada”.

Conforme o inquérito policial, chamou a atenção o fato de Acácia Construções também realizar muitas operações financeiras com dinheiro vivo. Em dezembro de 2020, R$ 33 mil são sacados da conta da Acácia Construções. Os saques são sempre em valores baixos numa tentativa, diz a PF, de não chamar a atenção das autoridades. “A prática assemelha-se à técnica de lavagem de capitais conhecida como “smurfing”, utilizada para dificultar a identificação da origem/destino dos valores.” Já a outra empresa do “principal operador” do governador Gladson Cameli movimentou outros R$ 150 mil em espécie.

Vale destacar que, de acordo com o inquérito da operação Ptolomeu, quase um milhão de reais de dinheiro vivo foram transacionados nas duas contas-correntes do governador acreano, o que levou os bancos a emitirem sucessivos comunicados ao Coaf por conta de “movimentações atípicas”. Para a PF, tal prática tem como finalidade ocultar a origem e a destinação do dinheiro.

 

O outro lado

Após duas semanas de tentativas, a assessoria do governador acreano enviou respostas às solicitações sobre os diferentes pontos citados no inquérito da PF e transformados em reportagem na série Esquemão Azul. A resposta veio limitada ao envio de uma nota assinada pelos advogados que defendem Gladson Cameli junto ao STJ.

“Todas as suas movimentações financeiras são lícitas e o seu patrimônio tem origem conhecida, seja no âmbito privado, seja na renda auferida em razão das funções públicas ocupadas. Em razão disso, a defesa do Governador Gladson Cameli irá apresentar o recurso cabível e confia que a decisão será objeto de revisão”, assinam os advogados Ticiano Figueiredo e Pedro Ivo Velloso.

“A investigação é um emaranhado de assuntos desconexos. De um lado, tentam, em vão, criar um vínculo espúrio entre o governador e contratações lícitas realizadas pelo Estado.” 

 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Esquemão Azul (2022)

Coaf aponta que mais de R$ 400 milhões entraram em conta de pai do governador do Acre 

 

Gladson Cameli recebe do pai, Eládio Cameli, a faixa de governador; a partir de então, segundo Coaf, conta do patriarca recebeu vultoso quantidade de recursos (Foto: Agência Acre)

 

Fabio Pontes e Leonildo Rosas



Além das movimentações financeiras suspeitas apontadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) nas contas do governador do Acre, Gladson Cameli (PP), a Polícia Federal também investiga transações atípicas nas contas bancárias de seus familiares e empresas do clã Cameli. De acordo com comunicados emitidos pela Caixa Econômica Federal ao Coaf, durante os oito primeiros meses de Gladson Cameli à frente do Palácio Rio Branco, mais de R$ 420 milhões foram creditados na conta de Eládio Messias Cameli, pai do governador. A vultosa quantia de dinheiro chamou a atenção das autoridades, já que em janeiro de 2019 apenas R$ 107 mil entraram na conta.


Dividindo-se o volume de dinheiro com os oitos meses indicados pelo Relatório de Inteligência Financeira (RIF) do Coaf, há uma média de R$ 52 milhões entrando numa única conta de Eládio Cameli. É a partir de março de 2019, terceiro mês de Gladson Cameli como governador do Acre, que há um espantoso crescimento na entrada de dinheiro nas contas do patriarca. De R$ 525 mil em fevereiro, o valor passa para mais de R$ 50 milhões no mês seguinte.

O pico de recursos creditados na conta se dá em abril: mais de R$ 100 milhões. Entre março, abril e maio, conforme relatório do Coaf, R$ 205 milhões foram parar na conta de Eládio Cameli. Este volume de dinheiro entrando em tão pouco tempo em sua conta, além da tentativa de Gladson Cameli de usar as empresas do pai para complementar o pagamento e ocultar a compra de um apartamento de alto padrão em São Paulo, colocaram patriarca da família entre os investigados pela Polícia Federal no inquérito da Operação Ptolomeu.     

Eládio Messias Cameli, pai de Gladson, teve sua casa e as sedes das empresas sediadas em Manaus como alvo dos mandados de busca e apreensão da operação, deflagrada em 16 de dezembro com autorização da ministra Nancy Andrighi, do Superior Tribunal de Justiça (STJ).    

Estas são informações levantadas junto ao inquérito da operação Ptolomeu, da Polícia Federal do Acre, remetido ao STJ que investiga a suposta atuação de uma organização criminosa (Orcrim) dentro do Palácio Rio Branco. O governador acreano é um dos alvos principais da investigação, e definido pela PF como o “chefe de organização criminosa”.  

Desde o dia 27 de dezembro, o blog do Fabio Pontes e o Portal do Rosas publicam uma série de reportagens sobre o inquérito policial, cujas informações são de relevante interesse da sociedade acreana por levantar suspeitas sobre o governador do Estado.

Conforme apontado em relatório da Polícia Federal, os R$ 420 milhões movimentados na conta de Eládio Cameli chamam a atenção não apenas por ter ocorrido num curto espaço de tempo - e justo após o filho assumir a cadeira de governador do Acre - como também por ter se encerrado meses antes de Gladson iniciar as tratativas para a compra do apartamento de luxo na capital paulista, cujo valor supera os R$ 5 milhões.

Na semana passada, o blog do Fabio Pontes e o Portal do Rosas já tinham mostrado essa tentativa feita pelo governador. Numa delas, Gladson Cameli usou sua holding familiar, a GGC Holding Ltda - que tem o filho Guilherme de seis anos como sócio - para adquirir o imóvel,

Após fracassar nas duas primeiras negociações, usou a Construtora Rio Negro (de propriedade do irmão Gledson Cameli) como pagadora e proprietária do apartamento.  A Construtora Etam Ltda - também de propriedade do pai e do irmão - foi usada como complementadora de pagamento para a compra milionária do apartamento.  Para a PF, ao recorrer a empresas nas negociações, o chefe do Palácio Rio Branco atuou para tentar ocultar o verdadeiro dono do apartamento. Além disso, a compra do imóvel serviria para a prática de um dos crimes pelos quais Gladson é investigado: lavagem de capitais.

Além do Acre, a família Cameli tem fartos tentáculos empresariais e políticos no Amazonas. As empreiteiras do pai do governador, o senhor Eládio Cameli, estão sediadas em Manaus. Ele mantém estreita relação com os principais caciques políticos de lá; de Amazonino Mendes a Eduardo Braga, passando por Omar Aziz e José Melo.

Por Manaus é visto como um bom doador de recursos financeiros para as campanhas desta cacicada. Como moeda de troca, vence grandes licitações do governo do Amazonas. Além de casas em Rio Branco e Cruzeiro do Sul, Gladson Cameli também tem comprovante de residência na capital amazonense.

Desde que Gladson Cameli assumiu o governo, o Acre se tornou o oasis para empresas manauaras ganharem dinheiro. Este paraíso ganhou até um nome: a República de Manaus. E é essa republiqueta que a Polícia Federal e a Controladoria Geral da União investigam por suposta movimentação de ao menos R$ 800 milhões dos cofres da saúde e da educação. Conforme a PF, uma verdadeira organização criminosa foi montada dentro do Palácio Rio Branco para desviar recursos do cidadão acreano.

(Entenda mais sobre o clã Cameli e seus negócios com a política no artigo A República de Ptolomeu).


O outro lado


A reportagem procurou, desde a semana passada, a assessoria de imprensa do governador Gladson Cameli para comentar as denúncias que lhe são imputadas pela Polícia Federal, mas até o momento não houve retorno do e-mail enviado. Em suas entrevistas e por meio de nota oficial, Gladson Cameli nega as acusações, diz que provará sua inocência e que colabora com as investigações.   


O outro do empresário Eládio Cameli (atualização às 16:20 de 5 de janeiro)

 

O empresário Eládio Cameli, em razão do noticiário, vem a público esclarecer que:

•    Ele e as empresas das quais é sócio não participaram de processos licitatórios ou de contratações diretas com o governo do Acre na atual gestão;
•    Inexiste a movimentação de R$ 420 milhões em sua conta corrente;
•    Todo seu patrimônio é fruto de décadas de trabalho, tendo como comprovar a origem lícita da integralidade do patrimônio;
•    Ele confia na Justiça brasileira e espera que, ao final da investigação, seja verificada sua total isenção com relação a qualquer fato tratado na investigação.